Este será um ano muito bom para a economia sergipana. A
previsão é do economista Luis Moura, coordenador do Departamento Intersindical
de Estatística e estudos Socioeconômicos (Dieese). Ele diz não acreditar que os
produtos da cesta básica serão majorados por conta do reajuste da gasolina e
defende que o Bolsa Família seja transformado em um Programa de Estado,
e não de governo como é hoje.
JORNAL DO DIA - O anunciado reajuste no preço da gasolina
poderá contribuir para aumentar o valor da cesta básica?
LUIS MOURA - Não deveria influenciar, pois os produtos da
cesta básica são transportados por caminhões movidos a diesel, combustível que
teve queda de preço em janeiro passado. Qualquer aumento da cesta básica tendo
como alegação esse fato é olho gordo do comerciante para ganhar dinheiro além
da conta. O problema é que muitos comerciantes (não são todos) ainda possuem o
péssimo habito de aumentar os preços dos produtos com base no reajuste da
gasolina. São os saudosistas de uma época onde a inflação era 84% ao mês.
Aumentavam o salário mínimo, os preços da cesta básica, da gasolina e do
chuchu, não importando se aquele aumento influenciava no custo de produção.
Esse péssimo comportamento não tem mais espaço no atual momento, pois o
consumidor aprendeu a pesquisar, não fazer compras por impulso. Hoje a
população compra em pequenas quantidades e nossa Aracaju, felizmente, possui as
feiras livres, onde a boa e velha pechincha ainda funciona.
JD - Nos últimos meses, a cesta básica de Sergipe tem se
posicionado entre as mais baratas do país. O senhor acredita que essa tendência
será mantida?
LM - A cesta básica é composta de produtos agrícolas,
portanto o comportamento dos preços está sujeito à questão do abastecimento
desses produtos. Em condições normais, os preços só serão reajustados se houve
problemas no abastecimento dos produtos agrícolas. Não vejo nenhum grande
problema que justifique aumentos substanciais de preços da cesta básica nos
próximos meses. Claro que o excesso de chuvas na região Sudeste pode prejudicar
o abastecimento de um ou outro produto, mas mesmo que isso ocorra o consumidor
pode boicotar esse ou aquele produto até que os preços voltem à normalidade.
JD - Qual a perspectiva do Dieese sobre o comportamento da
economia neste ano de 2010?
LM – Olha, 2010 será o ano da retomada do crescimento da
economia brasileira, que foi interrompido com a crise financeira internacional.
Como a economia sergipana cresce muito próxima da economia brasileira teremos
um ano bom para o Estado. Também vamos ter agora em 2010 eleições para os
governos federal e estadual, Senado, Câmara Federal e Assembléia Legislativa
que, por se só, gera um ambiente favorável ao crescimento de setores ligados ao
processo eleitoral, bem como ao setor da construção civil, responsáveis pelas
obras publicas e unidades habitacionais. Existem as obras do PAC, que são
importantes para estrutura produtiva do estado com investimentos previstos da
ordem de R$ 10 bilhões nas áreas de logística, energia, com obras em andamento,
e outras em processo de licitação, segundo o ultimo relatório do PAC. Temos
ainda a Copa do Mundo, que dinamiza diversos setores que influenciam no
crescimento da atividade econômica e do emprego. Portanto, 2010 têm tudo para
ser um bom ano para nossa economia.
JD - Em 2009, Sergipe foi afetado fortemente pela crise
econômica, que reduziu o repasse de recursos federais para o Estado e causou
uma considerável queda nos royalties. O Senhor acredita que essa situação está
superada?
LM - Primeiro a crise não afetou tanto os repasse dos
recursos federais. Para se ter uma idéia, a queda da receita do Fundo de
Participação dos Municípios (FPM) o ano passado foi de 5,4%, comparados com
2008. O Fundo de Participação dos Estados (FPE) teve uma queda de 5,8%, segundo
dados da Secretaria do Tesouro Nacional, tendo essa perda sido compensada em
parte pelo crescimento da arrecadação do ICMS. Os royalties tiveram queda
porque a produção de petróleo em Sergipe caiu 6,4%. Só a produção no mar caiu
27,1% em 2009 ante 2008, bem como o preço do petróleo não se manteve no mesmo
patamar de 2008, quando o barril chegou a custar US$ 150.
JD – De alguma forma, o governo estadual contribuiu para
reduzir os efeitos da crise em Sergipe?
LM- Olha, a melhor coisa que aconteceu em 2009 e que
contribuiu para não agravar a situação econômica de Sergipe foi o fato de o
governador Marcelo Déda ter sido sensível com a questão dos servidores
públicos, concedendo um reajuste acima do que tinha sido aconselhado pelo secretario
da Fazenda de então que sugeriu reajustar os salários em 3,5%. A posição do
governador foi determinante para que Sergipe tivesse um aumento da arrecadação
de ICMS e que o volume de vendas no comércio sergipano tivesse crescido acima
da media nacional.
JD Até que ponto a concessão desses incentivos é ruim para a
economia estadual?
LM – É ruim para economia porque com a atração de novas
empresas o Estado poderia estar aumentando a sua arrecadação e melhorando os
serviços públicos oferecidos a população. Reconheço, contudo, que não existe
outra forma de um estado com o perfil socioeconômico de Sergipe atrair novas
empresas e gerar empregos sem a concessão desses incentivos. Isso mostra a
necessidade da reforma fiscal, que foi proposta pelo presidente Lula, mas que
ainda não foi votada pelo Congresso.
JD - Qual o impacto do Programa Bolsa Família na economia
sergipana?
LM- Sergipe tem 220
mil famílias beneficiadas pelo programa de transferência de renda. Isso injeta
R$ 22,1 milhões mensais na economia. Para se ter uma idéia, em novembro
passado, os municípios sergipanos receberam juntos de FPM cerca de R$ 52
milhões. Portanto, os programas de transferências de renda injetam todos os
meses na economia estadual metade do volume do FPM repassado aos municípios. As
famílias beneficiadas gastam seus recursos no comércio local, beneficiando o
pequeno comércio do interior. No dia de pagamento do Bolsa Família as bodegas
ficam cheias. Entendo que esse programa precisa ter garantida a sua
continuidade no futuro governo. O ideal era transformá-lo em programa em de
estado e não de governo.
JD – O até que ponto o anúncio de instalação de novas
empresas em Sergipe vai contribuir com a geração de empregos no Estado?
LM - Em 2009 foram admitidos 89.875 trabalhadores e desligados
78.677, gerando um saldo de 11.198 novos vínculos (em termos absolutos). Veja
que mesmo com a crise, tivemos um saldo no emprego melhor que 2008. Os setores
que registraram os maiores saldos o ano passado foram: Serviços (4.066 empregos
ou +4,33%), Construção Civil (3.640 empregos ou +18,20%), Indústria de
Transformação (2.319 empregos ou +6,51%), e Comércio (1.414 empregos ou
+2,98%). Qualquer empresa que venha se instalar em Sergipe terá impacto na
geração de emprego. O problema é que todos os estados, para atrair novas
empresas, praticam a chamada guerra fiscal, ou seja, concedem incentivos
fiscais às empresas interessadas em se instalar em seus territórios.
JD – O senhor acha então que a concessão desses incentivos é
ruim para a economia estadual?
LM – É ruim para economia porque com a atração de novas
empresas o Estado poderia estar aumentando a sua arrecadação e melhorando os
serviços públicos oferecidos a população. Reconheço, contudo, que não existe
outra forma de um estado com o perfil socioeconômico de Sergipe atrair novas
empresas e gerar empregos sem a concessão desses incentivos. Isso mostra a
necessidade da reforma fiscal, que foi proposta pelo presidente Lula, mas que
ainda não foi votada pelo Congresso.