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Adiberto de Souza
7/2/2010 00:18:19
Dieese otimista com a economia

Adiberto de Souza

 

Este será um ano muito bom para a economia sergipana. A previsão é do economista Luis Moura, coordenador do Departamento Intersindical de Estatística e estudos Socioeconômicos (Dieese). Ele diz não acreditar que os produtos da cesta básica serão majorados por conta do reajuste da gasolina e defende que o Bolsa Família seja transformado em um Programa de Estado, e não de governo como é hoje.

JORNAL DO DIA - O anunciado reajuste no preço da gasolina poderá contribuir para aumentar o valor da cesta básica?

LUIS MOURA - Não deveria influenciar, pois os produtos da cesta básica são transportados por caminhões movidos a diesel, combustível que teve queda de preço em janeiro passado. Qualquer aumento da cesta básica tendo como alegação esse fato é olho gordo do comerciante para ganhar dinheiro além da conta. O problema é que muitos comerciantes (não são todos) ainda possuem o péssimo habito de aumentar os preços dos produtos com base no reajuste da gasolina. São os saudosistas de uma época onde a inflação era 84% ao mês. Aumentavam o salário mínimo, os preços da cesta básica, da gasolina e do chuchu, não importando se aquele aumento influenciava no custo de produção. Esse péssimo comportamento não tem mais espaço no atual momento, pois o consumidor aprendeu a pesquisar, não fazer compras por impulso. Hoje a população compra em pequenas quantidades e nossa Aracaju, felizmente, possui as feiras livres, onde a boa e velha pechincha ainda funciona.

JD - Nos últimos meses, a cesta básica de Sergipe tem se posicionado entre as mais baratas do país. O senhor acredita que essa tendência será mantida?

LM - A cesta básica é composta de produtos agrícolas, portanto o comportamento dos preços está sujeito à questão do abastecimento desses produtos. Em condições normais, os preços só serão reajustados se houve problemas no abastecimento dos produtos agrícolas. Não vejo nenhum grande problema que justifique aumentos substanciais de preços da cesta básica nos próximos meses. Claro que o excesso de chuvas na região Sudeste pode prejudicar o abastecimento de um ou outro produto, mas mesmo que isso ocorra o consumidor pode boicotar esse ou aquele produto até que os preços voltem à normalidade.

JD - Qual a perspectiva do Dieese sobre o comportamento da economia neste ano de 2010?

LM – Olha, 2010 será o ano da retomada do crescimento da economia brasileira, que foi interrompido com a crise financeira internacional. Como a economia sergipana cresce muito próxima da economia brasileira teremos um ano bom para o Estado. Também vamos ter agora em 2010 eleições para os governos federal e estadual, Senado, Câmara Federal e Assembléia Legislativa que, por se só, gera um ambiente favorável ao crescimento de setores ligados ao processo eleitoral, bem como ao setor da construção civil, responsáveis pelas obras publicas e unidades habitacionais. Existem as obras do PAC, que são importantes para estrutura produtiva do estado com investimentos previstos da ordem de R$ 10 bilhões nas áreas de logística, energia, com obras em andamento, e outras em processo de licitação, segundo o ultimo relatório do PAC. Temos ainda a Copa do Mundo, que dinamiza diversos setores que influenciam no crescimento da atividade econômica e do emprego. Portanto, 2010 têm tudo para ser um bom ano para nossa economia.

JD - Em 2009, Sergipe foi afetado fortemente pela crise econômica, que reduziu o repasse de recursos federais para o Estado e causou uma considerável queda nos royalties. O Senhor acredita que essa situação está superada?

LM - Primeiro a crise não afetou tanto os repasse dos recursos federais. Para se ter uma idéia, a queda da receita do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) o ano passado foi de 5,4%, comparados com 2008. O Fundo de Participação dos Estados (FPE) teve uma queda de 5,8%, segundo dados da Secretaria do Tesouro Nacional, tendo essa perda sido compensada em parte pelo crescimento da arrecadação do ICMS. Os royalties tiveram queda porque a produção de petróleo em Sergipe caiu 6,4%. Só a produção no mar caiu 27,1% em 2009 ante 2008, bem como o preço do petróleo não se manteve no mesmo patamar de 2008, quando o barril chegou a custar US$ 150.

JD – De alguma forma, o governo estadual contribuiu para reduzir os efeitos da crise em Sergipe?

LM- Olha, a melhor coisa que aconteceu em 2009 e que contribuiu para não agravar a situação econômica de Sergipe foi o fato de o governador Marcelo Déda ter sido sensível com a questão dos servidores públicos, concedendo um reajuste acima do que tinha sido aconselhado pelo secretario da Fazenda de então que sugeriu reajustar os salários em 3,5%. A posição do governador foi determinante para que Sergipe tivesse um aumento da arrecadação de ICMS e que o volume de vendas no comércio sergipano tivesse crescido acima da media nacional.

JD Até que ponto a concessão desses incentivos é ruim para a economia estadual?

LM – É ruim para economia porque com a atração de novas empresas o Estado poderia estar aumentando a sua arrecadação e melhorando os serviços públicos oferecidos a população. Reconheço, contudo, que não existe outra forma de um estado com o perfil socioeconômico de Sergipe atrair novas empresas e gerar empregos sem a concessão desses incentivos. Isso mostra a necessidade da reforma fiscal, que foi proposta pelo presidente Lula, mas que ainda não foi votada pelo Congresso.

JD - Qual o impacto do Programa Bolsa Família na economia sergipana?

LM  - Sergipe tem 220 mil famílias beneficiadas pelo programa de transferência de renda. Isso injeta R$ 22,1 milhões mensais na economia. Para se ter uma idéia, em novembro passado, os municípios sergipanos receberam juntos de FPM cerca de R$ 52 milhões. Portanto, os programas de transferências de renda injetam todos os meses na economia estadual metade do volume do FPM repassado aos municípios. As famílias beneficiadas gastam seus recursos no comércio local, beneficiando o pequeno comércio do interior. No dia de pagamento do Bolsa Família as bodegas ficam cheias. Entendo que esse programa precisa ter garantida a sua continuidade no futuro governo. O ideal era transformá-lo em programa em de estado e não de governo.

JD – O até que ponto o anúncio de instalação de novas empresas em Sergipe vai contribuir com a geração de empregos no Estado?

LM - Em 2009 foram admitidos 89.875 trabalhadores e desligados 78.677, gerando um saldo de 11.198 novos vínculos (em termos absolutos). Veja que mesmo com a crise, tivemos um saldo no emprego melhor que 2008. Os setores que registraram os maiores saldos o ano passado foram: Serviços (4.066 empregos ou +4,33%), Construção Civil (3.640 empregos ou +18,20%), Indústria de Transformação (2.319 empregos ou +6,51%), e Comércio (1.414 empregos ou +2,98%). Qualquer empresa que venha se instalar em Sergipe terá impacto na geração de emprego. O problema é que todos os estados, para atrair novas empresas, praticam a chamada guerra fiscal, ou seja, concedem incentivos fiscais às empresas interessadas em se instalar em seus territórios.

JD – O senhor acha então que a concessão desses incentivos é ruim para a economia estadual?

LM – É ruim para economia porque com a atração de novas empresas o Estado poderia estar aumentando a sua arrecadação e melhorando os serviços públicos oferecidos a população. Reconheço, contudo, que não existe outra forma de um estado com o perfil socioeconômico de Sergipe atrair novas empresas e gerar empregos sem a concessão desses incentivos. Isso mostra a necessidade da reforma fiscal, que foi proposta pelo presidente Lula, mas que ainda não foi votada pelo Congresso.

 
 
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