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Luiz Eduardo Costa
7/2/2010 00:17:21
O bagre, a hidrelétrica e a usina nuclear

Contra a instalação de uma dessas usinas hidrelétricas na Amazônia já foram apresentados argumentos consistentes e, também, feitas algumas observações usadas depois como pretexto para desmoralizar e ridicularizar a luta dos ambientalistas. Alegou-se até, como impedimento à construção, que a barragem no rio Madeira iria ameaçar a existência de um tipo de bagre ali muito numeroso. Quando se desce a um argumento assim, tão minuciosamente especificado, em função de uma circunstância vista como irrisória, involuntariamente desqualifica-se o debate e torna-se vulnerável e fragilizado todo o conjunto de convicções que alicerçam as teses ambientalistas.
Do ponto de vista de um biólogo, que enxerga melhor do que ninguém toda aquela sutil interligação da cadeia que forma um bioma, o desaparecimento de um bagre pode significar uma imperceptível, todavia, grave ameaça à vida em um determinado sistema.
As visões particulares ou particularistas, quando se exacerbam, podem contaminar de forma irreversível um debate que poderia conduzir a um consenso. O pior nisso tudo é quando se juntam vaidades pessoais, objetivos políticos ou eleitoreiros com a intransigência arrogante ou fundamentalista.
É o que vem acontecendo, por exemplo, nesse confronto entre os que defendem a utilização das águas do São Francisco por estados nordestinos não ribeirinhos, e os que são contra a obra já em plena execução.
A mesma circunstância poderá ser reeditada agora, debate que apenas começa em torno da possível instalação de duas usinas atômicas ao longo do curso do rio São Francisco.
Se, no confronto das opiniões pró e contra a usina nuclear, não for, em favor do bom senso, pré- estabelecida a premissa de que o “bagre” não é fundamental, mas também não é  irrisório,  poderá colocar-se, no centro da questão, aquilo que é fundamental: o interesse da coletividade. Em nome do interesse da coletividade não deveria ser simplesmente descartado um projeto que assegurará, no decorrer de pelo menos cinco anos, mais de  três mil empregos diretos,  que fará fluir pelo Estado a ser escolhido, uma parte da portentosa soma de oito bilhões de dólares, incorporando à economia local um pólo dinâmico de geração de impostos, de circulação de renda e de interconexão com universidades e centros de tecnologia para  disseminação de conhecimentos e formação de  técnicos altamente qualificados.
Pelas informações que conseguiu obter a respeito dos estudos prévios de localização realizados pela Eletronuclear, o prefeito de Canindé do São Francisco, Orlando Andrade, está convicto de que o seu município estaria apontado entre as melhores alternativas para a instalação de uma das usinas atômicas. A menos que se consiga encontrar outras improváveis fontes geradoras de energia elétrica para atender à crescente demanda nordestina, ( o potencial do São Francisco já está esgotado ) a energia atômica será mesmo a única alternativa viável, para, a longo prazo, impedir o colapso no abastecimento, esta sim, a grande ameaça real e efetiva que paira sobre a região.
No momento, há dois impedimentos legais que afastariam, tanto o Estado como o município, da indispensável participação política no sentido de viabilizar a possibilidade que é priorizada no estudo técnico.
Além da vedação estabelecida na Constituição Estadual que afastaria Sergipe do roteiro das usinas nucleares, há também, um dispositivo semelhante na Lei Orgânica do município de Canindé. O prefeito Orlando Andrade quer sugerir aos vereadores uma alteração no texto, revogando a proibição, com isso, sinalizando aos deputados estaduais o caminho que eles poderiam adotar visando eliminar do texto constitucional o parágrafo oitavo do artigo duzentos e trinta e dois. A lei orgânica do município é simplesmente redundante, pois repete o desnecessário, vez que o assunto já é definido pela Constituição estadual. Por sua vez, a carta estadual conflita escancaradamente com o disposto na Constituição Federal, artigo 22: ¨Compete exclusivamente à União legislar sobre: IV – águas, energia, informática, telecomunicações e radiodifusão.
Ou seja, apenas exemplificando: da mesma forma como um Estado federado não pode autorizar a instalação de uma emissora de rádio ou televisão, também não poderá proibi-la, caso o Governo Federal autorize o seu funcionamento. O mesmo acontece com usinas, sejam elas hidrelétricas, eólicas, solares ou nucleares.

 
Os jornalistas, a panela e a sátira

Diante da ignomínia, e contra ela, às vezes, o humor é a arma mais potente. Já recomendavam sapientes os romanos: “Ridendo castigat mores”.  Foi o que fizeram os trinta e dois formandos da segunda turma de jornalistas da UNIT, 2009, que colaram grau ontem. 
Desqualificados como profissionais por decisão infeliz do Supremo Tribunal Federal, os novos jornalistas aproveitaram-se das celebrações  da formatura para externar o protesto. A começar pelo convite, uma estilizada panela, alusão ao argumento culinário-gastronômico do ministro Gilmar Mendes, tudo no rito da diplomação da turma de “diplomados” (assim mesmo, entre aspas), foi um bem humorado e inteligente ato de inconformismo.  Os novos jornalistas demonstram com inteligência e verve que a profissão, apesar de tudo, não será degradada, pelo menos enquanto houver quem, como eles, recuse-se a engolir conformado e submisso o indigesto prato, decorado com as costumeiras reverências à liberdade de expressão, e, na verdade, sorrateiramente temperado com os interesses econômico-financeiros da poderosa mídia, cada vez mais comercial e comercializada. Não poderia, disso, haver melhor exemplo do que aquele vergonhoso anúncio que a Folha de S. Paulo, em busca de “jornalistas” para a sua redação, estampou nas suas páginas durante o mês de dezembro, mais ou menos nesses termos:  “Oportunidade para quem tenha vocação para o jornalismo e seja portador de diploma em qualquer curso superior.”

 
O general, os gays e a história

Esse general Raimundo Cerqueira, que sai do anonimato para tornar-se notória figura central de uma ruidosa polêmica por conta de afirmações desastrosas que fez, além de preconceituoso, deve ter sido, na Academia Militar, um péssimo aluno de História.
Houvesse, certamente, folheado com mais vagar e atenção livros sobre a história militar, começando pela Grécia, ele não teria, ao condenar o ingresso de homossexuais nas forças armadas, usado como principal argumento, a afirmação de que os gays não podem ser comandantes, pois suas tropas os desobedeceriam, principalmente em ocasiões de combate.
Para o general Cerqueira, a vida militar é incompatível com o homossexualismo. Ele falava sendo sabatinado pelos senadores, antes de ser indicado por unanimidade para ocupar o cargo de Ministro do Superior Tribunal Militar. Ao seu lado, estava um almirante, também sabatinado, que, diante do silêncio estranho dos senadores, fez a oportuna observação de que o problema resumia-se, unicamente, a manutenção da “dignidade da farda”, não comportando questionamentos sobre preferências sexuais dos militares.
O general Cerqueira nem precisaria saber que grandes generais como Júlio Cezar e Alexandre, eram homossexuais, bastaria olhar em volta os seus próprios camaradas, e entre eles, encontraria, sem dúvidas, muitos homossexuais.
Segundo se depreende dos textos do inigualável adulador, Plutarco, e de Calístenes, bem menos, Alexandre, o impetuoso soldado, conquistador de meio mundo, “amava perdidamente a Hefestião”, e matou Clito, talvez num acesso de ciúmes.
Já séculos depois, em Roma, Brutus, não era apenas um “filho” de Júlio Cezar, o “homem de todas as mulheres e mulher de todos os homens”. “Até tu, Brutus, meu filho?”, teria dito Cezar, ao ser, entre outros, por ele também apunhalado nas escadarias do Senado. De resto, a homossexualidade nunca deixou de existir nos exércitos, certamente está, também, entre as tropas que o general Cerqueira, tão briosa e homofobicamente comanda. Platão recomendava que os amantes combatessem juntos, porque cada um, na luta, estaria provando ao outro maior valor, combatendo até a morte.
O Bando Sagrado de Tebas era formado exclusivamente por homossexuais e figura entre as tropas mais aguerridas da história. O grupo, constituído por 300 hoplitas foi criado por iniciativa de Pelópidas, famoso general que vinha a ser amante de outro general não menos famoso, Epaminondas.  Esses 300 hoplitas  formavam 150 casais e costumavam combater e derrotar tropas muitas vezes superiores em número.
Melhor teria feito o general Cerqueira se assumisse, discreto, a sua boa sinecura no STM sem meter-se, tão desastradamente, em assunto que não lhe competia, e, ainda mais, vomitando preconceitos.
Enquanto não forem desmistificadas essas questões envolvendo sexo, preferências sexuais, a sociedade continuará  escorregando, vez por outra, pelos abismos intolerantes da Inquisição, pela desfaçatez cínica do moralismo hipócrita.
 

Sergipe em dois momentos

Quando fazia, dia 29 de janeiro, inaugurações no pequeno município de Cumbe, o governador Marcelo Déda foi surpreendido pelo discurso da prefeita Terezinha Moura. Ela lembrou que nas últimas eleições votou em João Alves, por isso, suspeitava que o seu município ficaria isolado do conjunto de ações realizadas pelo governo estadual. Ao fazer essa suposição, ela apenas mirava-se nos exemplos, nos hábitos do governante anterior. Por isso, imaginava que Cumbe estaria condenado a passar quatro anos a pão e água, ou, até mesmo, sem essa mesquinha ração.
Por ter votado no candidato derrotado, tinha certeza de que as portas da administração estadual estariam para ela fechadas, ou, no mínimo, emperradas. Mas, um dia, o secretário da saúde Rogério Carvalho chegou para dizer-lhe que no seu município, se ela concordasse, seria instalada uma Clínica da Saúde da Família. A prefeita olhou o projeto e fez a pergunta para ela mesma: “Será que eles se enganaram e estão pensando que eu votei neles?”.
Era aquela velha cultura do atraso político traduzida na frase: “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”.  A superada visão administrativa que entende o dinheiro público como coisa particular a ser usado e abusado, podendo ser distribuído magnanimamente com os amigos, enquanto adversários, também, em consequência de uma forma superada de entender a política, são vistos como inimigos, que devem ser espezinhados e destruídos.
Depois, disse a prefeita, começou juntamente com outros municípios, a participar de programas na Educação, na Saúde, e sentiu que era tratada da mesma forma que os outros prefeitos que votaram em Déda. Sentiu que não havia discriminação política e animou-se a fazer pedidos. Pediu a recuperação da estrada de acesso a Cumbe, e naquela hora o governador estava inaugurando a estrada. A clínica já estava quase pronta e ela ficava a olhar o comportamento do prefeito de Itabaiana,   recusando um beneficio para o povo, apenas por questões políticas, e então tomou a decisão: iria votar em Déda nas próximas eleições porque  sentia que Sergipe estava livrando-se do ranço do passado, e ela entendia que política deveria ser feita sem perseguição, sem ódio, com o povo participando das decisões.
Depois de Cumbe, no mesmo dia, o governador Marcelo Déda foi a Porto da Folha inaugurar a estrada ligando à Ilha do Ouro e o novo hospital. Falou então o prefeito Manoel de Rosinha . O prefeito de Porto da Folha referiu-se ao novo hospital como um ponto de referência na mudança da política de saúde pública. Agora, segundo Rosinha, o povo tem em Porto da Folha, um hospital que não fica a dever em conforto ao que de melhor existe em Aracaju, por isso, já está sendo chamado de o hospital Primavera do sertão. Manoel de Rosinha lembrou então do período em que administrou o município durante um período do mandato de João Alves. Segundo ele, por não ter votado em João e fazer oposição ao pefêlê, tudo lhe foi negado. Fecharam-se as portas do palácio e de todas as secretarias, cortaram as verbas para a saúde, e o hospital acabou fechando. Isso, lembrou Rosinha, sem contar com as perseguições de todas as formas, incluindo as ameaças feitas pelos pefelistas locais, que, alem de tudo, gozavam de todos os privilégios, inclusive cobertura policial.
Já nessa sexta-feira, dia cinco, foi a vez do prefeito de Barra dos Coqueiros, Gilson dos Anjos, histórico integrante do grupo pefelista, que, publicamente, reconheceu o tratamento exemplar que recebia de um governador no qual não havia votado. Disse que admirava Déda como homem público e agora o admirava mais ainda pelo governo que ele fazia, não discriminando adversários, agindo de forma imparcial, efetivamente como governador de todos os sergipanos. Por isso, disse, Sergipe atravessava nitidamente uma fase de evolução nos costumes políticos. Gilson participava da inauguração na Barra, da base de atendimento do SAMU, uma nova delegacia de polícia e a estrada ligando a praia da Atalaia Nova.

 
O sangue dos  Xocós no tribunal

Poucos sabem, mas o desembargador Edson Ulisses, tem, nas veias, uma parcela de sangue dos Xocós, aquela tribo que habita a Ilha de São Pedro, no rio São Francisco. São os últimos remanescentes dos povos que primitivamente ocupavam o território sergipano. A tribo tornou-se nacionalmente conhecida pela luta que travou a fim de ter assegurada a posse do lugar onde historicamente habitavam. Houve a reação forte da antiga coronelada que dominava o baixo São Francisco. Era um absurdo conceder direitos de posse a índios que “passavam o tempo pescando, caçando e tomando cachaça”. A reação impiedosa contra o reconhecimento de direitos dos índios, sustentava-se  nos estamentos mais  influentes da sociedade sergipana, aquele tipo de elite que  sonha com uma paz dos cemitérios pairando sobre a vida social, porque assim, os excluídos ficam mudos, os privilégios não recebem contestações.
Houve gente como Dom Jose Brandão de Castro, como Frei Enoque, tantos meninos  ainda estudantes que se incorporaram à luta dos Xocós. Naqueles dias nascia o PT, fortaleciam-se os movimentos sociais com o colapso do autoritarismo e a abertura do regime prometida pelo então presidente João Figueiredo. Por esse tempo, um jovem advogado, integrava-se à mesma luta. Era Edson Ulisses, hoje desembargador, mas, poucos sabiam que ele, pela avó materna, descendia dos Xocós.
No dia da inauguração da rodovia Porto da Folha Ilha do Ouro, lá estava o desembargador Edson Ulisses a contar a sua história, modestamente, como sempre costuma proceder. A estrada recebia o nome de Josino Ulisses de Melo, um lutador sertanejo que veio das barrancas de Pão de Açúcar e instalou-se na Ilha do Ouro, tornando-se um pequeno criador. Ele é o pai de uma numerosa prole onde se inclui o desembargador Edson Ulisses, que, cercado pela esposa, pelos filhos, pelos irmãos e amigos, lembrava da sua vida de menino, começando a estudar. Sofridamente caminhando todos os dias até a escola em Porto da Folha por aquele mesmo caminho, hoje uma moderna estrada, que recebia o nome do seu pai, uma homenagem a todos os habitantes da Ilha do Ouro, povoado durante tanto tempo isolado e quase inacessível. Poucos dias antes, durante uma tempestade, o vento derrubou a velha craibeira, árvore com mais de duzentos anos que era o símbolo do lugar. Acostumado a descansar à sombra da portentosa árvore, Edson Ulisses pedia ao prefeito Manoel de Rosinha que fizesse renascer a craibeira, plantando centenas delas ao longo das margens da nova rodovia, mais uma bem cuidada rota do turismo sergipano.
 
 
 
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