A vida lhe quis bem

Geral


  • Amaral foi feliz

 

* Rian Santos
Triste é o dia quando a 
página de Cultura 
dos periódicos assume a função de obituário. Remedia-se, assim, em alguns poucos parágrafos, o talento muitas vezes negligenciado em vida, como a proclamar, redundante: Inês é morta.
Eu, de minha parte, resisto sempre ao sentimento fácil dos necrotérios. Se um sambista passa dessa para melhor, por exemplo, celebro o morro e o samba. Sem uma lágrima de mentira. Sem a dor tomada aos seus próprios. Sei feliz, a vida que se aproveita em um verso.
Deus me livre de prestar homenagens tardias. Desse pecado, quero as mãos limpas. Se Amaral Cavalcante foi encontrar Cleomar Brandi lá nas alturas, entre os anjos de pele negra que eles achavam tão bonitos,deixou, antes de partir, algumas das páginas mais preciosas da crônica Serigy. Não há o que lamentar, portanto. Muito ao contrário. A vida lhe quis bem.
Eu choro mesmo por quem fica. Luciano Correia, que me deu a notícia logo cedo, aos prantos. Antonio Passos, com quem assaltei a adega do poeta, numa dessas ocasiões quando o sol surpreende os bêbados virado em um desmancha prazeres, pisando em ovos. Choro por mim mesmo, no meio do mar sem farol na costa, mais solitário do que nunca.
Vai-se o poeta, sem qualquer espécie de rito. E eu só consigo pensar na frase atribuída a Cazuza, no filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Devastado pela doença que lhe roubaria a alegria escandalosa da juventude, em seus últimos dias de vida, ele constata, como quem oferece alento: "Morrer não dói".
* Rian Santos, Jornalista

* Rian Santos

Triste é o dia quando a  página de Cultura  dos periódicos assume a função de obituário. Remedia-se, assim, em alguns poucos parágrafos, o talento muitas vezes negligenciado em vida, como a proclamar, redundante: Inês é morta.
Eu, de minha parte, resisto sempre ao sentimento fácil dos necrotérios. Se um sambista passa dessa para melhor, por exemplo, celebro o morro e o samba. Sem uma lágrima de mentira. Sem a dor tomada aos seus próprios. Sei feliz, a vida que se aproveita em um verso.
Deus me livre de prestar homenagens tardias. Desse pecado, quero as mãos limpas. Se Amaral Cavalcante foi encontrar Cleomar Brandi lá nas alturas, entre os anjos de pele negra que eles achavam tão bonitos,deixou, antes de partir, algumas das páginas mais preciosas da crônica Serigy. Não há o que lamentar, portanto. Muito ao contrário. A vida lhe quis bem.
Eu choro mesmo por quem fica. Luciano Correia, que me deu a notícia logo cedo, aos prantos. Antonio Passos, com quem assaltei a adega do poeta, numa dessas ocasiões quando o sol surpreende os bêbados virado em um desmancha prazeres, pisando em ovos. Choro por mim mesmo, no meio do mar sem farol na costa, mais solitário do que nunca.
Vai-se o poeta, sem qualquer espécie de rito. E eu só consigo pensar na frase atribuída a Cazuza, no filme de Sandra Werneck e Walter Carvalho. Devastado pela doença que lhe roubaria a alegria escandalosa da juventude, em seus últimos dias de vida, ele constata, como quem oferece alento: "Morrer não dói".

* Rian Santos, Jornalista

 


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