O governo acabou, mas Bolsonaro cai?

Marcos Cardoso

 

Grande dia, grandes dias! A semana termina com a 
sensação e o alívio para a maioria dos brasileiros de 
que nem tudo está perdido, a democracia (ainda) não está indo pelo ralo, as instituições que sustentam o pilar democrático (ainda) estão funcionando. O presidente do Brasil está sendo reduzido à sua insignificância e seu ímpeto ditatorial está devidamente contido.
A tempestade perfeita aconteceu.
Sara Winter, a líder do grupo de extrema-direita "300 do Brasil" e pupila de Bolsonaro, foi finalmente presa na segunda-feira, 15, depois de arrotar bravatas e assacar ameaças contra ministros do STF. E, a pedido da Procuradoria Geral da República, na sexta-feira o Supremo renovou a prisão por mais cinco dias. A moça que faz coreografias bizarras em homenagem à Ku Klux Klan está fora de combate.
Outros aliados e financiadores de manifestações fascistas e pró-intervenção militar, volta do AI-5 e fechamento do Congresso e do STF foram devassados pela Polícia Federal na terça-feira, 16, em ações de busca e apreensão. Ao todo, 21 mandados foram solicitados pela PGR e determinados pelo ministro Alexandre de Moraes.
Entre aliados de Bolsonaro alvos da operação está o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que teve residência e gabinete vasculhados. Ex-policial militar com atuação na Baixada Fluminense, ele é o valentão que quebrou uma placa de rua que homenageava a vereadora Marielle Franco e recentemente gravou um vídeo ameaçando "descarregar a arma" em comunista, numa referência a manifestantes antifascismo.
As más notícias para o capitão não pararam na quarta-feira, 17, quando Alexandre de Moraes determinou a quebra do sigilo fiscal de 10 deputados e um senador que integram a base bolsonarista no Congresso. Dentre eles, alguns dos mais fiéis defensores do presidente, como Carla Zambelli (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF) e o próprio Silveira.
Zambelli, que tem Sérgio Moro como padrinho de casamento, mas rompeu relação com ele, chorou e ameaçou os ministros do Supremo: "A gente vai derrubar cada um de vocês". Será?
Na quinta-feira, 18, o STF decidiu por 10 votos a 1 dar continuidade ao inquérito das fake news, aberto no ano passado pela própria Corte para investigar a disseminação de informações falsas e ameaças a ministros.
Derrotas adicionais para Bolsonaro: o moralista-exibicionista Abraham Weintraub foi mantido na mira do inquérito e o "gabinete do ódio", supostamente coordenado pelo 02 Carlos, foi citado pelo decano Celso de Mello como propagador de insultos,  estímulo à intolerância e contra as instituições democráticas, não merecendo a proteção constitucional que assegura a liberdade de expressão de pensamento.
Prisão e demissão
Por fim, a cereja do bolo: a prisão do parceiro miliciano Fabrício Queiroz e a demissão compulsória de Weintraub do Ministério da Educação na animada sexta-feira, 19.
Queiroz é aquele cara que, além de amigo de mais de três décadas, administrava o esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, nomeava a própria mulher, filhas e parentes de milicianos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro, pagava contas pessoais do hoje senador e até depositava dinheiro na conta da primeira-dama Michelle.
Sinônimo de terra arrasada, para usar um jargão militar, Queiroz tem potencial para destruir tudo quando a tropa derrotada já caminhar em retirada.
Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ele estava escondido num sítio em Atibaia de Frederick Wassef, o advogado de Flávio, a quem defendia no processo sobre as rachadinhas, e do próprio Jair Messias, na questão envolvendo o Adélio da facada. Alguma dúvida de que Bolsonaro combinou com o advogado para esconder o Queiroz? Wassef já revelou em entrevista que ele e Bolsonaro são uma só pessoa, portanto…
Crescem as apostas sobre qual dos dois abrirá a boca primeiro, Queiroz ou Wassef? Seja quem for, quantos segredos inconfessáveis teriam a declarar? Será que alguém saberia dizer, por exemplo, até onde ia a relação de "amizade" de Flávio com Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime? E teria uma pista sobre quem e por que mandou matar a vereadora Marielle Franco? Já se sabe que Adriano depositou R$ 400 mil na conta de Queiroz.
Na mesma sexta-feira da prisão do amigo de pescaria e sabe-se lá de que outras aventuras, Bolsonaro foi obrigado a demitir seu dileto ministro da ala ideológica olavista, encrencado até o fio do bigode com os onze do STF desde aquela reveladora reunião ministerial do dia 22 de abril, quando os chamou de vagabundos e que se fosse ele o presidente já tinha mandado prendê-los.
Deu-se mal. Saiu fugido do país, com a ajuda do presidente da República e a promessa de assumir uma das diretorias executivas do Banco Mundial, em Washington, o que dificilmente acontecerá. Integrantes do Bird estão se movimentando para impedir a posse e um grupo liderado pelo diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero remeteu um manifesto aos oito países que, como o Brasil, compõem o grupo assistido pela diretoria.
O documento tem 270 assinaturas de personalidades de relevo internacional, inclusive Chico Buarque.
O impeachment é possível
Para fechar a semana de pressão sobre Bolsonaro, sete grandes empresas de investimento europeias, com mais de US$ 2 trilhões em ativos, disseram que desinvestirão em produtores de carne, operadoras de grãos e até em títulos do governo do Brasil se prosseguir a destruição crescente da Floresta Amazônica.
Acha pouco? Pois o Tribunal Superior Eleitoral vai julgar na terça-feira, 23, uma ação de investigação judicial eleitoral contra a chapa do presidente Jair Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão, por abuso de poder econômico.
Por tudo isso, por tudo o que já fez e pelo que está sendo revelado, a ameaça de impeachment de Jair Bolsonaro torna-se possível. Se o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ainda não colocou em debate um dos 30 pedidos que tem na mesa por receio de não conseguir o quórum qualificado de dois terços, já pode refazer as contas.
O Centrão dá sinais de que está rachado ao meio, afinal, que deputado vai arriscar-se na aventura de morrer abraçado a uma família de supostos criminosos?
O mesmo vale para os oficiais das Forças Armadas. Estarão dispostos a arriscar a reputação do Exército, Marinha e Aeronáutica para defender supostos milicianos?
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal nada de braçada e tem desempenhado o papel que a sociedade merece e exige, de verdadeiro guardião da Constituição. Uma das suas principais funções é julgar o presidente da República e, pelos acontecimentos que desencadearam nessa semana pulsante, a Corte logo se reunirá para isso.

Grande dia, grandes dias! A semana termina com a  sensação e o alívio para a maioria dos brasileiros de  que nem tudo está perdido, a democracia (ainda) não está indo pelo ralo, as instituições que sustentam o pilar democrático (ainda) estão funcionando. O presidente do Brasil está sendo reduzido à sua insignificância e seu ímpeto ditatorial está devidamente contido.

A tempestade perfeita aconteceu.
Sara Winter, a líder do grupo de extrema-direita "300 do Brasil" e pupila de Bolsonaro, foi finalmente presa na segunda-feira, 15, depois de arrotar bravatas e assacar ameaças contra ministros do STF. E, a pedido da Procuradoria Geral da República, na sexta-feira o Supremo renovou a prisão por mais cinco dias. A moça que faz coreografias bizarras em homenagem à Ku Klux Klan está fora de combate.
Outros aliados e financiadores de manifestações fascistas e pró-intervenção militar, volta do AI-5 e fechamento do Congresso e do STF foram devassados pela Polícia Federal na terça-feira, 16, em ações de busca e apreensão. Ao todo, 21 mandados foram solicitados pela PGR e determinados pelo ministro Alexandre de Moraes.
Entre aliados de Bolsonaro alvos da operação está o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), que teve residência e gabinete vasculhados. Ex-policial militar com atuação na Baixada Fluminense, ele é o valentão que quebrou uma placa de rua que homenageava a vereadora Marielle Franco e recentemente gravou um vídeo ameaçando "descarregar a arma" em comunista, numa referência a manifestantes antifascismo.
As más notícias para o capitão não pararam na quarta-feira, 17, quando Alexandre de Moraes determinou a quebra do sigilo fiscal de 10 deputados e um senador que integram a base bolsonarista no Congresso. Dentre eles, alguns dos mais fiéis defensores do presidente, como Carla Zambelli (PSL-SP), Bia Kicis (PSL-DF) e o próprio Silveira.
Zambelli, que tem Sérgio Moro como padrinho de casamento, mas rompeu relação com ele, chorou e ameaçou os ministros do Supremo: "A gente vai derrubar cada um de vocês". Será?
Na quinta-feira, 18, o STF decidiu por 10 votos a 1 dar continuidade ao inquérito das fake news, aberto no ano passado pela própria Corte para investigar a disseminação de informações falsas e ameaças a ministros.
Derrotas adicionais para Bolsonaro: o moralista-exibicionista Abraham Weintraub foi mantido na mira do inquérito e o "gabinete do ódio", supostamente coordenado pelo 02 Carlos, foi citado pelo decano Celso de Mello como propagador de insultos,  estímulo à intolerância e contra as instituições democráticas, não merecendo a proteção constitucional que assegura a liberdade de expressão de pensamento.

Prisão e demissão
Por fim, a cereja do bolo: a prisão do parceiro miliciano Fabrício Queiroz e a demissão compulsória de Weintraub do Ministério da Educação na animada sexta-feira, 19.
Queiroz é aquele cara que, além de amigo de mais de três décadas, administrava o esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado Flávio Bolsonaro, nomeava a própria mulher, filhas e parentes de milicianos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro, pagava contas pessoais do hoje senador e até depositava dinheiro na conta da primeira-dama Michelle.
Sinônimo de terra arrasada, para usar um jargão militar, Queiroz tem potencial para destruir tudo quando a tropa derrotada já caminhar em retirada.
Como não há nada tão ruim que não possa piorar, ele estava escondido num sítio em Atibaia de Frederick Wassef, o advogado de Flávio, a quem defendia no processo sobre as rachadinhas, e do próprio Jair Messias, na questão envolvendo o Adélio da facada. Alguma dúvida de que Bolsonaro combinou com o advogado para esconder o Queiroz? Wassef já revelou em entrevista que ele e Bolsonaro são uma só pessoa, portanto…
Crescem as apostas sobre qual dos dois abrirá a boca primeiro, Queiroz ou Wassef? Seja quem for, quantos segredos inconfessáveis teriam a declarar? Será que alguém saberia dizer, por exemplo, até onde ia a relação de "amizade" de Flávio com Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime? E teria uma pista sobre quem e por que mandou matar a vereadora Marielle Franco? Já se sabe que Adriano depositou R$ 400 mil na conta de Queiroz.
Na mesma sexta-feira da prisão do amigo de pescaria e sabe-se lá de que outras aventuras, Bolsonaro foi obrigado a demitir seu dileto ministro da ala ideológica olavista, encrencado até o fio do bigode com os onze do STF desde aquela reveladora reunião ministerial do dia 22 de abril, quando os chamou de vagabundos e que se fosse ele o presidente já tinha mandado prendê-los.
Deu-se mal. Saiu fugido do país, com a ajuda do presidente da República e a promessa de assumir uma das diretorias executivas do Banco Mundial, em Washington, o que dificilmente acontecerá. Integrantes do Bird estão se movimentando para impedir a posse e um grupo liderado pelo diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero remeteu um manifesto aos oito países que, como o Brasil, compõem o grupo assistido pela diretoria.
O documento tem 270 assinaturas de personalidades de relevo internacional, inclusive Chico Buarque.

O impeachment é possível
Para fechar a semana de pressão sobre Bolsonaro, sete grandes empresas de investimento europeias, com mais de US$ 2 trilhões em ativos, disseram que desinvestirão em produtores de carne, operadoras de grãos e até em títulos do governo do Brasil se prosseguir a destruição crescente da Floresta Amazônica.
Acha pouco? Pois o Tribunal Superior Eleitoral vai julgar na terça-feira, 23, uma ação de investigação judicial eleitoral contra a chapa do presidente Jair Bolsonaro e do vice Hamilton Mourão, por abuso de poder econômico.
Por tudo isso, por tudo o que já fez e pelo que está sendo revelado, a ameaça de impeachment de Jair Bolsonaro torna-se possível. Se o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ainda não colocou em debate um dos 30 pedidos que tem na mesa por receio de não conseguir o quórum qualificado de dois terços, já pode refazer as contas.
O Centrão dá sinais de que está rachado ao meio, afinal, que deputado vai arriscar-se na aventura de morrer abraçado a uma família de supostos criminosos?
O mesmo vale para os oficiais das Forças Armadas. Estarão dispostos a arriscar a reputação do Exército, Marinha e Aeronáutica para defender supostos milicianos?
Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal nada de braçada e tem desempenhado o papel que a sociedade merece e exige, de verdadeiro guardião da Constituição. Uma das suas principais funções é julgar o presidente da República e, pelos acontecimentos que desencadearam nessa semana pulsante, a Corte logo se reunirá para isso.

 


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