GAVIÕES É A BOLA DA VEZ?

Rômulo Rodrigues

* Rômulo Rodrigues

Juro que não pode ser tachado como oportunismo a minha relação com o Corinthians, visto que nunca fui corintiano; talvez, possa ser comparado apenas a uma conjuração dos mortos.
Começo recorrendo a um passado bem distante, mais de 65 anos, quando chegava lá para as bandas de Caicó-RN a revista semanal "O Cruzeiro", que meu pai comprava religiosamente e, eu folheava até à página dos "Ídolos do futebol brasileiro", onde fui conquistado por duas camisas que me fizeram torcedor fanático dos seus times de futebol: o Fluminense Futebol Clube e a Associação Portuguesa de Desportos.

Passei a considerar como monstros sagrados do futebol jogadores como Julinho Botelho, Djalma Santos, Brandãozinho, todos da seleção brasileira de 1954 e outros como Servílio, Enéas que vi jogar no Canindé e o Príncipe Denner que morreu precocemente em um acidente de carro em 1994, já jogador do Vasco.

Foi no final da década de sessenta que o Corinthians quis entrar na minha vida sem pedir licença, quando morava em Sampa, na Rua Nestor Pestana, próximo à Igreja da Consolação e não muito distante do Pacaembu, em se tratando daquela Cidade, e sempre vendo grandes clássicos aos domingos e quarta feiras.

Foi o gosto pelo futebol que selou uma grande amizade com um colega de fábrica, corintiano roxo, que por coincidência, me levou num possante Fusca para ver dois jogos que marcaram minha iniciação como amuleto do Timão.

O Coringão amargava um Tabu de mais de década levando pancada do Santos F. C. uma das melhores máquinas de jogar futebol da história.

E foi numa quarta feira que o amigo veio de Osasco para me levar ao jogo de estreia de Paulo Borges, comprado ao Bangu, e Vaguinho ao Atlético Mineiro que, numa noite inesquecível, derrotaram o esquadrão santista, sob o comando de Ditão, e show dos estreantes, com direito a golaço de Paulo Borges, pelo placar de 2 x 0.

Dentro da sequência veio uma grande vitória sobre a Academia de Filpo Nunes dos geniais Ademir da Guia, Tupãzinho, Dudu, Gildo e outros craques, também por 2 x 0, em pleno parque Antarctica.

Um feito também inesquecível foi o título conquistado em 1977, após jejum de 23 anos, sobre a Ponte Preta, com um gol chorado de Basílio.

Cinco anos depois, veio a democracia corintiana, em plena ditadura, liderada fora de campo pelo diretor de futebol, sociólogo Adilson Monteiro e dentro de campo por jogadores muito politizados como o Dr. Sócrates e Wladimir e mais, Zenon, BiroBiro, Ataliba e Casagrande.

Saindo de São Paulo, aos poucos foi sendo apagada da memória aquela proximidade saudável e o Corinthians só veio, aos poucos, voltando graças à grande paixão de Lula pelo timão e o pressentimento de que a Nação Corintiana, um dia, iria fazer surgir o monstro da Lagoa, como disse Chico Buarque, um tricolor como eu, e grande parceiro de lula nas peladas do Politeama Futebol Clube. Então, o monstro chegou e a Gaviões da Fiel deu o tapa na cara do fascismo e mostrou o caminho da Democracia, como fez o Time do Dr. Sócrates há uns trinta e tantos anos.

Saindo do futebol para a militância política mais efetiva, lembrando que o futebol é um grande espaço de atuação política e ideológica, incorporei uma tese uma tese polêmica de que o movimento das massas é sempre maior que suas formas de luta e suas organizações políticas.

Esse movimento, podemos inserir no conceito de movimento espontâneo, quando a massa em si, não suporta mais a carga de pressão e tende a se por em marcha e provocar uma explosão.

Sem tentar me inserir em nenhum grande debate teórico, ouso dizer que, mesmo sendo uma vanguarda de massa politizada, a Gaviões da Fiel tem que ser levada a sério no contexto de uma massa que deu o primeiro passo para uma caminhada necessária e urgente para frear o fascismo e chamar o feito à ordem.

A ação da Gaviões não pode ser considerada pelos democratas como apenas um gesto isolado de uma torcida de um grande clube de futebol, até porque, outras já se manifestaram como as do Internacional, do Grêmio, do Palmeiras, do Santos, do São Paulo e provavelmente a do Vasco.

As forças democráticas têm que somar esforços junto com os Sindicatos, com as Centrais Sindicais, com os Movimentos Sociais, com o MTST, com o MST e os Partidos de Esquerda e seguir o exemplo da Gaviões e ir para o enfrentamento em campo aberto - tomando todas as precauções sanitárias - para botar os fascistas para correr.

Organizações militares e paramilitares e os clubes militares têm que ser contidos com firmeza; eles não são as palmatórias da moralidade e a comprovação dos pagamentos irregulares a quase 190 mil deles são provas de que nos rastros do seu autoritarismo é que campeia a corrupção desenfreada como já foi visto na história.

Mesmo fracassando a tal caravana dos trezentos caminhões, o comandante foi internado em UTI com o Covid-19, os bolsonaristas fizeram churrascos na Esplanada em Brasília e praticaram tiro ao alvo nos rostos de Moro, Joice e Ministros do STF e o Presidente debochou dos mortos andando de Jet Sky no Lago, mostrando que não estão para brincadeira e devem ser contidos-já.

O recado deles está muito evidente e não podemos ficar à espera só do Coronavírus. Sejamos todos corintianos e Gaviões da Fiel. Pra cima deles, com máscara, luva e álcool gel.

* Rômulo Rodrigues é militante político


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