Cine Vitória ao Deus dará

Geral


  • Rosângela é Rocha!

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ontem, um destes 
senhores maltra-
tados pela vida bateu à minha porta, em busca de serviço. Prometeu dar um jeito na calçada tomada pelo mato, em troca de uma quantia qualquer. Queria trabalho, o pobre coitado. As mãos grandes, humilhadas, tinham as marcas certas de quem jamais receberia nada de graça, de quem jamais aprenderia a pedir.
Ninguém aguenta mais a degradação da renda, a informalidade generalizada, o desemprego, a supressão dos direitos trabalhistas em curso no Brasil. O surto econômico liberal deu com os burros n'água. Somente os tolos e os canalhas insistem na cantilena de um Estado regulado pelo mercado. A inversão de valores é flagrante, desfila em plena luz do dia, só não vê quem não quer.
Nenhuma classe foi poupada. Quem não tem medo é só porque já passa aperto. Em contexto de pandemia, o ócio criativo aludido por filósofos de semblante plácido cheira a privilégio, um escândalo. Artistas e produtores culturais se equilibram na corda bamba, igual a todos os mortais.
A guerreira Rosângela Rocha, à frente da Casa Curta-Se, nunca teve uma vida fácil. Desde quando assumiu a administração do Cine Vitória, entretanto, nunca mais soube como chegaria ao fim do mês. Com programação voltada para a audiência mais exigente, a sala de exibição é mantida com os rendimentos da bilheteria. Os tostões furados dos cinéfilos, meia dúzia de gatos pingados, não pagam nem a conta de energia.
A única forma de patrocínio estatal oferecida ao Cine Vitória mais parece uma esmola. O Banese Card paga a quantia mensal de R$ 1000, em troca da projeção de sua marca antes de cada sessão. Enquanto o cinema estiver de portas fechadas, em função do isolamento social decretado pelo governo de Sergipe, a fim de impor algum obstáculo à proliferação do coronavírus, não tem dimdim certo. Rosângela e o Cine Vitória estarão abandonados à própria sorte, largados ao Deus dará.
Felizmente, Rosângela Rocha não entrega os pontos, não carrega o próprio sobrenome à toa. A campanha 'A esperança nos trouxe até aqui' (ver nesta página) promete virar o jogo, amparada exclusivamente na força simbólica da arte, sem pedir favor a ninguém.

Rian Santos

Ontem, um destes  senhores maltra- tados pela vida bateu à minha porta, em busca de serviço. Prometeu dar um jeito na calçada tomada pelo mato, em troca de uma quantia qualquer. Queria trabalho, o pobre coitado. As mãos grandes, humilhadas, tinham as marcas certas de quem jamais receberia nada de graça, de quem jamais aprenderia a pedir.
Ninguém aguenta mais a degradação da renda, a informalidade generalizada, o desemprego, a supressão dos direitos trabalhistas em curso no Brasil. O surto econômico liberal deu com os burros n'água. Somente os tolos e os canalhas insistem na cantilena de um Estado regulado pelo mercado. A inversão de valores é flagrante, desfila em plena luz do dia, só não vê quem não quer.
Nenhuma classe foi poupada. Quem não tem medo é só porque já passa aperto. Em contexto de pandemia, o ócio criativo aludido por filósofos de semblante plácido cheira a privilégio, um escândalo. Artistas e produtores culturais se equilibram na corda bamba, igual a todos os mortais.
A guerreira Rosângela Rocha, à frente da Casa Curta-Se, nunca teve uma vida fácil. Desde quando assumiu a administração do Cine Vitória, entretanto, nunca mais soube como chegaria ao fim do mês. Com programação voltada para a audiência mais exigente, a sala de exibição é mantida com os rendimentos da bilheteria. Os tostões furados dos cinéfilos, meia dúzia de gatos pingados, não pagam nem a conta de energia.
A única forma de patrocínio estatal oferecida ao Cine Vitória mais parece uma esmola. O Banese Card paga a quantia mensal de R$ 1000, em troca da projeção de sua marca antes de cada sessão. Enquanto o cinema estiver de portas fechadas, em função do isolamento social decretado pelo governo de Sergipe, a fim de impor algum obstáculo à proliferação do coronavírus, não tem dimdim certo. Rosângela e o Cine Vitória estarão abandonados à própria sorte, largados ao Deus dará.
Felizmente, Rosângela Rocha não entrega os pontos, não carrega o próprio sobrenome à toa. A campanha 'A esperança nos trouxe até aqui' (ver nesta página) promete virar o jogo, amparada exclusivamente na força simbólica da arte, sem pedir favor a ninguém.

 


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS