O perigo na esquina

Rian Santos


  • O diabo mostra o rabo

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Há alguns anos, vés-
pera de eleições, 
Elenilton Pereira me chamou a sua sala e sugeriu a redação de um artigo sobre o risco de a população eleger um candidato fake, produto pronto e acabado de marketing, um poste. O texto nunca vingou. Não se escreve algo do gênero sem um monte de palavras presas na garganta. Hoje, no entanto, contra todas as previsões, o diabo mostra o rabo. Bolsonaro é presidente, mas ainda sonha dar um golpe.
O medo não é bom conselheiro, mas escreve como ninguém. Basta mencionar 'A peste', de Albert Camus. 'A náusea', obra maior de Sartre, transpira terror e impotência da primeira à última página. Mais recente, 'O ensaio sobre a cegueira', inspiração de um comunista anacrônico, José Saramago, segue na mesma toada. 'Nêmesis', o derradeiro livro de Philip Roth, gênio sem o Nobel, é um arrazoado derrotista sobre a paranóia. Quando o mundo paralisa, tomado de pavor, só a criação move.
Eu temo por mim mesmo e todos os amigos a quem ninguém enxerga. Somos - os pretos, os pobres, as putas, os viados -, como o artista circense, ocupado com malabarismos nos cruzamentos mais movimentados da cidade. O sujeito desafia a gravidade, no intervalo do sinal fechado. Mas se não mendigar moedas, como todo operário da fome, impassível, ante as janelas fechadas dos carros, termina o dia sem um tostão furado. 
Triste de quem deposita a sua última esperança numa aventura, a literatura e até o noticiário documentam este fato. O clima é de agitação, de norte a sul do País. Sem o clarão de uma ideia original, o presidente não toma providências, acuado. A depender dele, o sol nascer amanhã é pura questão de sorte.
Há perigo na esquina. Os dados foram lançados. Entre a falta de imaginação e o mal maior, com pigarro e tudo, cuspido e escarrado, a aposta mais certa é dar tudo errado.

Rian Santos

Há alguns anos, vés- pera de eleições,  Elenilton Pereira me chamou a sua sala e sugeriu a redação de um artigo sobre o risco de a população eleger um candidato fake, produto pronto e acabado de marketing, um poste. O texto nunca vingou. Não se escreve algo do gênero sem um monte de palavras presas na garganta. Hoje, no entanto, contra todas as previsões, o diabo mostra o rabo. Bolsonaro é presidente, mas ainda sonha dar um golpe.
O medo não é bom conselheiro, mas escreve como ninguém. Basta mencionar 'A peste', de Albert Camus. 'A náusea', obra maior de Sartre, transpira terror e impotência da primeira à última página. Mais recente, 'O ensaio sobre a cegueira', inspiração de um comunista anacrônico, José Saramago, segue na mesma toada. 'Nêmesis', o derradeiro livro de Philip Roth, gênio sem o Nobel, é um arrazoado derrotista sobre a paranóia. Quando o mundo paralisa, tomado de pavor, só a criação move.
Eu temo por mim mesmo e todos os amigos a quem ninguém enxerga. Somos - os pretos, os pobres, as putas, os viados -, como o artista circense, ocupado com malabarismos nos cruzamentos mais movimentados da cidade. O sujeito desafia a gravidade, no intervalo do sinal fechado. Mas se não mendigar moedas, como todo operário da fome, impassível, ante as janelas fechadas dos carros, termina o dia sem um tostão furado. 
Triste de quem deposita a sua última esperança numa aventura, a literatura e até o noticiário documentam este fato. O clima é de agitação, de norte a sul do País. Sem o clarão de uma ideia original, o presidente não toma providências, acuado. A depender dele, o sol nascer amanhã é pura questão de sorte.Há perigo na esquina. Os dados foram lançados. Entre a falta de imaginação e o mal maior, com pigarro e tudo, cuspido e escarrado, a aposta mais certa é dar tudo errado.

 


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