A última esperança da Terra

Rian Santos


  • O herói enfrenta a cidade despovoada

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Coachella, um dos mai-
ores festivais anuais de 
música dos EUA, foi adiado. Stagecoach, voltado para a música country, também. A semana passada, quando os organizadores do SXSW decidiram cancelar a realização do evento, interrompendo uma trajetória ascendente de 34 anos, a ficha finalmente caiu:sob uma perspectiva universal, a humanidade inteira, povos e tradições, não passa de poeira.
Um vírus pode dar fim a tudo, como num passe de mágica. O novo Coronavírus (Covid-19), apesar da baixa letalidade, já confinou meio mundo dentro de casa. A paisagem quase respira, aliviada. Livres de tanta gente, varridas pelo mal invisível, as praças italianas, por exemplo, florescem de modo inesperado - amplas, preteridas pelos turistas, uma beleza objetiva de pedra.
O apelo assustador de um mundo sem alma viva, sem passado, sem História, anima a imaginação, desde sempre. 'A última esperança da Terra' (1971), blockbuster estrelado por Charlton Heston, coloca um homem de carne e osso no centro de uma grande cidade despovoada.O personagem é ali uma concessão à narrativa. A verdadeira potência do filme, repleto de planos abertos, como num faroeste crivado por arranha céus, é estritamente visual, fotográfica.
Há algo de mórbido neste impulso sensível, rumo ao apocalipse. A vertigem derivada de fitar o abismo, pulsão de aniquilamento, atende, talvez, a sucedâneos de ordem política, uma espécie de ato falho histórico. Basta olhar para trás, um rastro de séculos: Vassalagem, escravidão, revolução industrial, uberização do trabalho. Desumanizados, sem a bomba dos poderosos, os pobres mortais sonham com a extinção sumária.
Aparentemente, o Covid-19 não transforma os hospedeiros em zumbis com sede de sangue, como nas lucrativas distopias adaptadas para o Cinema. A sangria desatada do mercado financeiro, por enquanto, só verteu dinheiro.Ontem, o Ibovespa caiu mais de 12%. Em Wall Street, os principais índices registraram quedas superiores a 4%.
Os engravatados estão em apuros. Os proprietários dos meios de produção, os investidores que faturam alto com as plataformas de inovação tecnológica, amargam prejuízo atrás de prejuízo. Mas não dá para ninguém comemorar o revés, num arremedo biológico da luta de classes.Neste enredo de fortunas pantagruélicas, a maioria é plateia. Quem tem a bomba decide o destino dos outros, pode apertar um botão e mandar tudo pelos ares.

Rian Santos

Coachella, um dos mai- ores festivais anuais de  música dos EUA, foi adiado. Stagecoach, voltado para a música country, também. A semana passada, quando os organizadores do SXSW decidiram cancelar a realização do evento, interrompendo uma trajetória ascendente de 34 anos, a ficha finalmente caiu:sob uma perspectiva universal, a humanidade inteira, povos e tradições, não passa de poeira.
Um vírus pode dar fim a tudo, como num passe de mágica. O novo Coronavírus (Covid-19), apesar da baixa letalidade, já confinou meio mundo dentro de casa. A paisagem quase respira, aliviada. Livres de tanta gente, varridas pelo mal invisível, as praças italianas, por exemplo, florescem de modo inesperado - amplas, preteridas pelos turistas, uma beleza objetiva de pedra.
O apelo assustador de um mundo sem alma viva, sem passado, sem História, anima a imaginação, desde sempre. 'A última esperança da Terra' (1971), blockbuster estrelado por Charlton Heston, coloca um homem de carne e osso no centro de uma grande cidade despovoada.O personagem é ali uma concessão à narrativa. A verdadeira potência do filme, repleto de planos abertos, como num faroeste crivado por arranha céus, é estritamente visual, fotográfica.
Há algo de mórbido neste impulso sensível, rumo ao apocalipse. A vertigem derivada de fitar o abismo, pulsão de aniquilamento, atende, talvez, a sucedâneos de ordem política, uma espécie de ato falho histórico. Basta olhar para trás, um rastro de séculos: Vassalagem, escravidão, revolução industrial, uberização do trabalho. Desumanizados, sem a bomba dos poderosos, os pobres mortais sonham com a extinção sumária.
Aparentemente, o Covid-19 não transforma os hospedeiros em zumbis com sede de sangue, como nas lucrativas distopias adaptadas para o Cinema. A sangria desatada do mercado financeiro, por enquanto, só verteu dinheiro.Ontem, o Ibovespa caiu mais de 12%. Em Wall Street, os principais índices registraram quedas superiores a 4%.
Os engravatados estão em apuros. Os proprietários dos meios de produção, os investidores que faturam alto com as plataformas de inovação tecnológica, amargam prejuízo atrás de prejuízo. Mas não dá para ninguém comemorar o revés, num arremedo biológico da luta de classes.Neste enredo de fortunas pantagruélicas, a maioria é plateia. Quem tem a bomba decide o destino dos outros, pode apertar um botão e mandar tudo pelos ares.

 


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