O inimigo é outro

Rian Santos


  • Alheio ao código binário que anima a internet.

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
José Padilha pode até 
me decepcionar mais 
uma vez. Até lá, no entanto, não sei qual é o problema de sua colaboração em um filme inspirado no caso Marielle Franco .It'sall business!Se há um profissional brasileiro com cacifepara transformar uma história tão cabeluda em sucesso de bilheteria, este é o diretor de 'Tropa de elite'.
Só a esquerda Bacurau acredita piamente na pureza da luta ideológica travada no escuro do Cinema, enquanto os casais se beijam sem ninguém ver.Ocorre que a repercussão dos produtos de natureza artística é muito limitada, posto que mediada por regras de mercado.Os aplausos que consagraram Kléber Mendonça ao fim da exibição de 'Aquarius', um filme belíssimo, no Festival de Cannes, por exemplo, nunca reverberaram na fila do pão.
A bem da verdade, a birra com Padilha é antiga, não tem relação com as questões de gênero e raça, evocadas a fim de justificar mais uma tentativa de cancelamento (para usar um termo em voga).Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet. Daí o escândalo ,ontem e hoje.
Faca na caveira - O Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o documentário 'Ônibus 174' é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nessa conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' apresentou a classe média maconheira das universidades ao saco.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da nossa democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Lá, os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha. 
Há quem enxergue em 'Tropa de elite' a exaltação de uma sensibilidade militarista, muito perigosa. Mas estes ignoram o páthos histórico nacional e condenam o mensageiro pela mensagem. A ascensão  de um projeto de poder miliciano, denunciado no segundo filme da série, no entanto,adverte: o inimigo é outro.

Rian Santos

José Padilha pode até  me decepcionar mais  uma vez. Até lá, no entanto, não sei qual é o problema de sua colaboração em um filme inspirado no caso Marielle Franco .It'sall business!Se há um profissional brasileiro com cacifepara transformar uma história tão cabeluda em sucesso de bilheteria, este é o diretor de 'Tropa de elite'.
Só a esquerda Bacurau acredita piamente na pureza da luta ideológica travada no escuro do Cinema, enquanto os casais se beijam sem ninguém ver.Ocorre que a repercussão dos produtos de natureza artística é muito limitada, posto que mediada por regras de mercado.Os aplausos que consagraram Kléber Mendonça ao fim da exibição de 'Aquarius', um filme belíssimo, no Festival de Cannes, por exemplo, nunca reverberaram na fila do pão.
A bem da verdade, a birra com Padilha é antiga, não tem relação com as questões de gênero e raça, evocadas a fim de justificar mais uma tentativa de cancelamento (para usar um termo em voga).Ele teve a audácia de colocar o País onde bandido bom é bandido morto diante de um espelho, sem fazer nenhuma concessão às sociologias de araque. Uma posição política legítima, alheia ao código binário que anima a militância da internet. Daí o escândalo ,ontem e hoje.

Faca na caveira - O Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura é, sem nenhum exagero, dos personagens mais fortes, ambivalentes e incômodos do cinema nacional. Há, no maior sucesso comercial de Padilha (o documentário 'Ônibus 174' é um trabalho de méritos reconhecidos, mas não entra nessa conta), um dado de violência doendo na pele dos pretos e pobres à margem. O resto do País só sabia dos abusos policiais por "ouvir dizer". 'Tropa de elite' apresentou a classe média maconheira das universidades ao saco.
A verdade peca muita vezes por inconveniente. A sentença vale para o aquecimento global e para as fraturas expostas da nossa democracia racial, também. A violência de Estado, criminosa, as suas razões e estratégias, estão perfeitamente materializadas no Caveirão, o blindado utilizado pela polícia militar do Rio de Janeiro para entrar na favela. O filme de Padilha não o rechaça em nenhum momento. Lá, os soldados do Bope, treinados para a guerra, torturam e matam, mas jamais adquirem a feição de monstros. E isso, a esquerda religiosa, do bem contra o mal, jamais perdoará a Padilha. 
Há quem enxergue em 'Tropa de elite' a exaltação de uma sensibilidade militarista, muito perigosa. Mas estes ignoram o páthos histórico nacional e condenam o mensageiro pela mensagem. A ascensão  de um projeto de poder miliciano, denunciado no segundo filme da série, no entanto,adverte: o inimigo é outro.

 


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