Frida Kahlo virou Barbie

Rian Santos


  • A forma esvaziada

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Eu tenho um retrato 
de Frida Kahlo pen
durado na parede. Gabi bateu o pé e eu tive de aceitar o rosto feio, de sobrancelhas unidas e expressão dura, lançando afrontas visuais dentro de casa. Mais do que a figura com cara de poucos amigos, no entanto, me incomoda ainda o status vulgar do produto, incompatível com o nosso acervo. A mulher e toda a tinta derramada ao longo de uma vida extraordinária rebaixada num produto de feira.
Outro dia, uma amiga confessou, depois de algumas cervejas: a admiração por Frida Kahlo, tatuada na batata da perna, não deriva da grandeza de sua obra. A artista, para ela, é só uma personagem, carrega nos próprios traços uma força simbólica. Eu entendi ali que o surrealismo mexicano havia sido definitivamente assimilado pela cultura de massas. Para o bem e para o mal, a artista foi alienada do próprio trabalho (e, nesse caso, com uma boa dose de ironia), feito o Che Guevara das camisetas baratas.
Eu soube depois que Frida Kahlo virou Barbie. Literalmente. Lançada anos atrás, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a coleção 'Barbie Mulheres Inspiradoras' fazia alusão a14 personagens femininas que se destacaram em suas áreas de conhecimento. Além da artista mexicana, a aviadora Amelia Earhart e a cientista da NASA Katherine Johnson ganharam as formas impossíveis das bonecas conhecidas por disseminar um ideal de beleza sem nenhuma conexão com o mundo real e as mulheres de carne e osso. Idênticas a toda Barbie, conservaram de seu apenas o figurino e o penteado.
Eis o perigo das datas celebradas sob forte apelo comercial. O capitalismo malvadão, a máquina de moer trabalhadores dos panfletos engajados, sempre esteve atento à economia das trocas sensíveis. Se "Tudo o que é sólido desmancha no ar", também o ideal pode virar produto, um bem de consumo. A Barbie da Frida Kahlo martela mais um prego no caixão da artista, sucede as gravuras das feiras, as tatuagens nas pernas bronzeadas das meninas. Nas prateleiras infantis, Frida Kahlo não verte lágrimas, mudada em forma esvaziada.

Rian Santos

Eu tenho um retrato  de Frida Kahlo pen durado na parede. Gabi bateu o pé e eu tive de aceitar o rosto feio, de sobrancelhas unidas e expressão dura, lançando afrontas visuais dentro de casa. Mais do que a figura com cara de poucos amigos, no entanto, me incomoda ainda o status vulgar do produto, incompatível com o nosso acervo. A mulher e toda a tinta derramada ao longo de uma vida extraordinária rebaixada num produto de feira.
Outro dia, uma amiga confessou, depois de algumas cervejas: a admiração por Frida Kahlo, tatuada na batata da perna, não deriva da grandeza de sua obra. A artista, para ela, é só uma personagem, carrega nos próprios traços uma força simbólica. Eu entendi ali que o surrealismo mexicano havia sido definitivamente assimilado pela cultura de massas. Para o bem e para o mal, a artista foi alienada do próprio trabalho (e, nesse caso, com uma boa dose de ironia), feito o Che Guevara das camisetas baratas.
Eu soube depois que Frida Kahlo virou Barbie. Literalmente. Lançada anos atrás, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a coleção 'Barbie Mulheres Inspiradoras' fazia alusão a14 personagens femininas que se destacaram em suas áreas de conhecimento. Além da artista mexicana, a aviadora Amelia Earhart e a cientista da NASA Katherine Johnson ganharam as formas impossíveis das bonecas conhecidas por disseminar um ideal de beleza sem nenhuma conexão com o mundo real e as mulheres de carne e osso. Idênticas a toda Barbie, conservaram de seu apenas o figurino e o penteado.
Eis o perigo das datas celebradas sob forte apelo comercial. O capitalismo malvadão, a máquina de moer trabalhadores dos panfletos engajados, sempre esteve atento à economia das trocas sensíveis. Se "Tudo o que é sólido desmancha no ar", também o ideal pode virar produto, um bem de consumo. A Barbie da Frida Kahlo martela mais um prego no caixão da artista, sucede as gravuras das feiras, as tatuagens nas pernas bronzeadas das meninas. Nas prateleiras infantis, Frida Kahlo não verte lágrimas, mudada em forma esvaziada.

 


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