Em pedra dura

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto
Cirulo - prenome cunhado na própria ancestralidade
Cirulo - prenome cunhado na própria ancestralidade

Clique nas imagens para ampliar

Publicada em 08/11/2019 às 21:47:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Próxima terça-feira, o 
Corredor Cultural Ir-
mão abriga uma exposição coletiva, alusiva ao Mês da Consciência Negra. A julgar pelos artistas reunidos sob tal pretexto, a mostra promovido pela Fundação Aperipê certamente tem lá o seu valor. Mas peca por ao menos uma ausência notável: Cirulo é prenome cunhado na própria ancestralidade.
A adoção de um nome artístico resvala quase sempre em misticismo ou pieguice. Não é o caso de Cirulo. Sugerida pelo seu avô, desde sempre contrário ao nome próprio pelo qual nunca chamou o menino, a assinatura do artista colabora com as implicações étnicas e culturais latentes nos talhos de tinta spray gravados em pedra dura, nos muros de Aracaju.
"Uma rosa é uma rosa é uma rosa". Embora o graffite carregue significado em si mesmo, a linguagem refletindo a sensibilidade natural dos centros urbanos, a experiência de Cirulo extrapola a expressão pura e simples. A coerência evidente na insistência em determinados temas e motivos, além dos aspectos estritamente visuais do trabalho, sugerem reflexão, consciência e pesquisa. Há, como sempre, investimento no apelo gráfico da composição, derivado da aproximação entre xilogravura e pixo. No entanto, o desenvolvimento de uma poética visual sobressai como a principal valia do traço simplificado.
Um exercício atravessado pelo ambiente. Se no emaranhado das ruas, seu habitat natural, Cirulo entra em contato com a textura áspera da cidade e absorve todo tipo de informação, incorporando as imperfeições do suporte, no espaço controlado da galeria ele pode finalmente produzir algum desconforto e transformar a função do recinto, usualmente consagrado à contemplação passiva. Ficou provado na primeira mostra coletiva do extinto Fórum de Artes Visuais de Sergipe (Favs), quando fixou uma espécie de auto retrato deformado no piso do cubo branco, obrigando os visitantes a olhar duas vezes onde pisavam. O motim, antes da institucionalização. Ali, afeito ao ruído, Cirulo se afirmou publicamente como um artista degenerado.
Do graffite, a estratégia da reiteração. Na gravura, um aceno desnaturado ao uso consagrado. No meio do caminho entre Mário Jorge e Basquiat, Cirulo surpreende pelo emprego poético da palavra e a intersecção promovida entre ruptura e tradição. Quando a linguagem transborda o meio e deságua na mensagem.

Próxima terça-feira, o  Corredor Cultural Ir- mão abriga uma exposição coletiva, alusiva ao Mês da Consciência Negra. A julgar pelos artistas reunidos sob tal pretexto, a mostra promovido pela Fundação Aperipê certamente tem lá o seu valor. Mas peca por ao menos uma ausência notável: Cirulo é prenome cunhado na própria ancestralidade.
A adoção de um nome artístico resvala quase sempre em misticismo ou pieguice. Não é o caso de Cirulo. Sugerida pelo seu avô, desde sempre contrário ao nome próprio pelo qual nunca chamou o menino, a assinatura do artista colabora com as implicações étnicas e culturais latentes nos talhos de tinta spray gravados em pedra dura, nos muros de Aracaju.
"Uma rosa é uma rosa é uma rosa". Embora o graffite carregue significado em si mesmo, a linguagem refletindo a sensibilidade natural dos centros urbanos, a experiência de Cirulo extrapola a expressão pura e simples. A coerência evidente na insistência em determinados temas e motivos, além dos aspectos estritamente visuais do trabalho, sugerem reflexão, consciência e pesquisa. Há, como sempre, investimento no apelo gráfico da composição, derivado da aproximação entre xilogravura e pixo. No entanto, o desenvolvimento de uma poética visual sobressai como a principal valia do traço simplificado.
Um exercício atravessado pelo ambiente. Se no emaranhado das ruas, seu habitat natural, Cirulo entra em contato com a textura áspera da cidade e absorve todo tipo de informação, incorporando as imperfeições do suporte, no espaço controlado da galeria ele pode finalmente produzir algum desconforto e transformar a função do recinto, usualmente consagrado à contemplação passiva. Ficou provado na primeira mostra coletiva do extinto Fórum de Artes Visuais de Sergipe (Favs), quando fixou uma espécie de auto retrato deformado no piso do cubo branco, obrigando os visitantes a olhar duas vezes onde pisavam. O motim, antes da institucionalização. Ali, afeito ao ruído, Cirulo se afirmou publicamente como um artista degenerado.
Do graffite, a estratégia da reiteração. Na gravura, um aceno desnaturado ao uso consagrado. No meio do caminho entre Mário Jorge e Basquiat, Cirulo surpreende pelo emprego poético da palavra e a intersecção promovida entre ruptura e tradição. Quando a linguagem transborda o meio e deságua na mensagem.