Ostentar para esconder

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Publicada em 06/11/2019 às 05:29:00

 

* Antonio Passos
Há uma campanha contra ladrões. Divulga-se de modo bastante intenso que quase todos os males que afligem a sociedade decorrem das subtrações realizadas por meio de ladroagem. Porém, paradoxalmente, a memória remota e recente mostram essa prática, amiúde vista como daninha, muito presente na ocupação do estado por tradicionais grupos detentores de poder - as poucas rupturas foram sempre esmagadas com violência. Como então lidar com isso, do ponto de vista dos que mais governaram ou governam: saquear e, ao mesmo tempo, dizer-se contra a sangria?
Se essa prática perdura e predomina - não sem protestos, revoltas e luta política contrária - é razoável supor que para mantê-la assim, tão resistente, seus beneficiários já tenham lançado mão de diversas estratégias. Descrever todos esses truques não seria tarefa cabível para um reles texto de jornal. Quiçá um dia venha a ser resultado de um laborioso empenho de historiadores. De imediato, talvez seja somente possível o espanto, o pranto ou até mesmo o riso diante de alguns lances que escapam por alguma fresta, para a visibilidade pública.
Lembrei-me agora da letra de uma canção da banda Ira!, "Receita para se fazer um herói", lançada no LP "Psicoacústica", em 1988: "Toma-se um homem / Feito de nada como nós / Em tamanho natural / Embebe-se-lhe a carne / De um jeito irracional / Com a fome, com o ódio / Depois, perto do fim / Levanta-se o pendão / E toca-se o clarim / Serve-se morto…". Como diz a letra, o heroico aparece no fim. No decorrer o que é exposto é o facínora, o inimigo público…
Pois bem, encontrei recentemente nas linhas de um desses formidáveis escritores, aos quais nos insinuamos como amigos em conversas póstumas, a seguinte frase: "os atos costumam caluniar os homens. Alguém pode roubar e não ser ladrão, matar e não ser assassino" - trecho esse que, penso, corresponde ao entendimento de que os atos estão sempre vinculados às circunstâncias. Então, há o roubo praticado pelo não ladrão? Há mais: há o acuado furtador apresentado como hediondo, há o poderoso saqueador inocentado, há o benfeitor difamado… As possibilidades são infinitas na abordagem retórica.
Em épocas e lugares variados chega-se ao que parece o extremo da perversão: os vendilhões do templo, o poderoso hipócrita que impõe uma moral para manter privilégios, a difamação de ambientalistas para facilitar a destruição da natureza, "O Espantoso Redentor Lazarus Morell", a crucificação de bodes expiatórios para simular o combate a alguma atividade danosa… Enfim, uma estratégia bem sofisticada: acusar outro de ter praticado um ato que o próprio acusador pratica ou pretende praticar, levando a uma exposição desviada e intensa para tornar algo invisível.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Há uma campanha contra ladrões. Divulga-se de modo bastante intenso que quase todos os males que afligem a sociedade decorrem das subtrações realizadas por meio de ladroagem. Porém, paradoxalmente, a memória remota e recente mostram essa prática, amiúde vista como daninha, muito presente na ocupação do estado por tradicionais grupos detentores de poder - as poucas rupturas foram sempre esmagadas com violência. Como então lidar com isso, do ponto de vista dos que mais governaram ou governam: saquear e, ao mesmo tempo, dizer-se contra a sangria?
Se essa prática perdura e predomina - não sem protestos, revoltas e luta política contrária - é razoável supor que para mantê-la assim, tão resistente, seus beneficiários já tenham lançado mão de diversas estratégias. Descrever todos esses truques não seria tarefa cabível para um reles texto de jornal. Quiçá um dia venha a ser resultado de um laborioso empenho de historiadores. De imediato, talvez seja somente possível o espanto, o pranto ou até mesmo o riso diante de alguns lances que escapam por alguma fresta, para a visibilidade pública.
Lembrei-me agora da letra de uma canção da banda Ira!, "Receita para se fazer um herói", lançada no LP "Psicoacústica", em 1988: "Toma-se um homem / Feito de nada como nós / Em tamanho natural / Embebe-se-lhe a carne / De um jeito irracional / Com a fome, com o ódio / Depois, perto do fim / Levanta-se o pendão / E toca-se o clarim / Serve-se morto…". Como diz a letra, o heroico aparece no fim. No decorrer o que é exposto é o facínora, o inimigo público…
Pois bem, encontrei recentemente nas linhas de um desses formidáveis escritores, aos quais nos insinuamos como amigos em conversas póstumas, a seguinte frase: "os atos costumam caluniar os homens. Alguém pode roubar e não ser ladrão, matar e não ser assassino" - trecho esse que, penso, corresponde ao entendimento de que os atos estão sempre vinculados às circunstâncias. Então, há o roubo praticado pelo não ladrão? Há mais: há o acuado furtador apresentado como hediondo, há o poderoso saqueador inocentado, há o benfeitor difamado… As possibilidades são infinitas na abordagem retórica.
Em épocas e lugares variados chega-se ao que parece o extremo da perversão: os vendilhões do templo, o poderoso hipócrita que impõe uma moral para manter privilégios, a difamação de ambientalistas para facilitar a destruição da natureza, "O Espantoso Redentor Lazarus Morell", a crucificação de bodes expiatórios para simular o combate a alguma atividade danosa… Enfim, uma estratégia bem sofisticada: acusar outro de ter praticado um ato que o próprio acusador pratica ou pretende praticar, levando a uma exposição desviada e intensa para tornar algo invisível.

* Antonio Passos é jornalista