O cheiro da tangerina

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A poesia é filha do susto
A poesia é filha do susto

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Publicada em 06/11/2019 às 05:00:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Segundo Ferreira 
Gullar, a poesia nas
ce do susto. O poeta conta que dirigia o próprio carro quando o primeiro verso do poema 'O cheiro da tangerina' brotou no escuro de sua imaginação: Com raras exceções/ os minerais não têm cheiro. Foi o que bastou para ele dar meia volta e suspender o passeio com a família. Ossos do ofício. Depois de velho, cabeça branca, pouco impressionável, nunca mais uma frase lhe ocorreu por acaso, nunca mais ele deixou a praia para outro dia.
Já não me espanto. Para quem vive de amarrar uma palavra a outra, os nervos exaustos aleijam igual a uma espinha partida. Para mim, dar as costas para o palco a fim de procurar uma cadeira com encosto virou comportamento corriqueiro. Siba, Reação, The Baggios, Sandyalê, Ave Sangria, as principais atrações da Virada Cultural promovida pela Fundação Aperipê, último fim de semana, os ouvi de longe, como um eco, enquanto falava mal dos outros a uma distância segura. O amigo Antonio Passos, outro senhor de certa idade, talvez com menos disposição para entregar os pontos, é testemunha.
Eventos como a tal Virada não são promovidos para pessoas como eu, fartas de rumor e barulho. Ainda assim, foi bonito ver o Parque dos Cajueiros tomado por tanta gente, um fim de semana inteiro. Entre abraçar os mais queridos e virar o rosto para os desafetos, abancado estrategicamente bem longe do palco, a festa passou num piscar de olhos, ao sabor de muita conversa fiada. O suficiente para deixar saudades.
No Parque dos Cajueiros, vi e ouvi de tudo. O mais bonito, no entanto, foi a manifestação espontânea de um zabumbeiro anônimo, já no fim de feira. Sandyalê tinha acabado de cantar e causar, a maior artista de sua geração, para o deleite dos presentes, quando o danado atacou de Alceu Valença com o pé sujo no chão, enquanto a lona do circo era desmontada. Final feliz. Uma roda se abriu, casais se encontraram. Fosse um filme, os créditos subiriam naquela hora.
Eu renunciei ao calor da multidão, cansei do burburinho oco dos bares. Mas, em momentos assim, adivinho o delírio no sumo dos vegetais, igualzinho ao poeta de São Luís do Maranhão. Na bruma alegre das paixões que vem de dentro...

Segundo Ferreira  Gullar, a poesia nas ce do susto. O poeta conta que dirigia o próprio carro quando o primeiro verso do poema 'O cheiro da tangerina' brotou no escuro de sua imaginação: Com raras exceções/ os minerais não têm cheiro. Foi o que bastou para ele dar meia volta e suspender o passeio com a família. Ossos do ofício. Depois de velho, cabeça branca, pouco impressionável, nunca mais uma frase lhe ocorreu por acaso, nunca mais ele deixou a praia para outro dia.
Já não me espanto. Para quem vive de amarrar uma palavra a outra, os nervos exaustos aleijam igual a uma espinha partida. Para mim, dar as costas para o palco a fim de procurar uma cadeira com encosto virou comportamento corriqueiro. Siba, Reação, The Baggios, Sandyalê, Ave Sangria, as principais atrações da Virada Cultural promovida pela Fundação Aperipê, último fim de semana, os ouvi de longe, como um eco, enquanto falava mal dos outros a uma distância segura. O amigo Antonio Passos, outro senhor de certa idade, talvez com menos disposição para entregar os pontos, é testemunha.
Eventos como a tal Virada não são promovidos para pessoas como eu, fartas de rumor e barulho. Ainda assim, foi bonito ver o Parque dos Cajueiros tomado por tanta gente, um fim de semana inteiro. Entre abraçar os mais queridos e virar o rosto para os desafetos, abancado estrategicamente bem longe do palco, a festa passou num piscar de olhos, ao sabor de muita conversa fiada. O suficiente para deixar saudades.
No Parque dos Cajueiros, vi e ouvi de tudo. O mais bonito, no entanto, foi a manifestação espontânea de um zabumbeiro anônimo, já no fim de feira. Sandyalê tinha acabado de cantar e causar, a maior artista de sua geração, para o deleite dos presentes, quando o danado atacou de Alceu Valença com o pé sujo no chão, enquanto a lona do circo era desmontada. Final feliz. Uma roda se abriu, casais se encontraram. Fosse um filme, os créditos subiriam naquela hora.
Eu renunciei ao calor da multidão, cansei do burburinho oco dos bares. Mas, em momentos assim, adivinho o delírio no sumo dos vegetais, igualzinho ao poeta de São Luís do Maranhão. Na bruma alegre das paixões que vem de dentro...