O coração pela boca

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Humor cáustico
Humor cáustico

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Publicada em 29/10/2019 às 10:15:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Na flor dos anos, qual
quer um é capaz de 
botar o coração pela boca. Prova disso, o mundo está saturado de rocks rocks ingênuos, um xarope enjoado de água com açúcar. Enumerar rimas de amor e dor é tarefa mais ou menos fácil, elas crescem feito mato nos canais FM. Inteligência para tratar do balde despejado com a ironia fina de Yves Deluc, no entanto, eu só vi antes na melhor fase de Os Mutantes.
'Fraternidade - Terror', o segundo EP da banda Cidade Dormitório, caiu na rede com o peso de uma comédia psicodélica nonsense. A atmosfera das faixas é a de uma bad sem fim. Há humor, aqui e ali, mas cáustico.
Não se trata de fazer tempestade em copo d'água, como a inflexão lombrada de Yves pode induzir um ouvinte desatento a imaginar. Mas de virar o romantismo (e, por extensão, as diferentes formas de sociabilidade) pelo avesso. Se uma geladeira quebrada pode render um blues rasgado (Os Mutantes, de novo!), o que dizer do convívio suspenso por uma porta batida? Relacionamentos são complicados. Há quem prefira viver sozinho.
Não bastasse a pegada sui generis de suas composições, Yves ainda teve a manha de reunir uma banda que nunca dá ponto sem nó. A Cidade Dormitório já passou por todas as provas de fogo da cena Serigy, encarou som ruim, turnês improvisadas e a plateia afoita dos festivais. Tudo ossos do ofício. Em 'Fraternidade - Terror', João Mario (guitarras), Lauro Francis (baixo) e Fabio Aricawa (bateria) tangenciam o post punk britânico a torto e direito, do alternativo ao prog, com uma elegância inédita por estas praias.
Yves Deluc tem a vida inteira pela frente, mas faz questão de manter os olhos bem abertos por trás dos óculos de grau. Há exagero deliberado no modo como ele relata tropeços e comenta os acidentes em volta, carregando nas tintas com o fim de acentuar os contrastes. Afora o drama do dedo podre, no entanto, sobressai em suas canções um ceticismo muito salutar, comum a todos os vencidos.

Na flor dos anos, qual quer um é capaz de  botar o coração pela boca. Prova disso, o mundo está saturado de rocks rocks ingênuos, um xarope enjoado de água com açúcar. Enumerar rimas de amor e dor é tarefa mais ou menos fácil, elas crescem feito mato nos canais FM. Inteligência para tratar do balde despejado com a ironia fina de Yves Deluc, no entanto, eu só vi antes na melhor fase de Os Mutantes.
'Fraternidade - Terror', o segundo EP da banda Cidade Dormitório, caiu na rede com o peso de uma comédia psicodélica nonsense. A atmosfera das faixas é a de uma bad sem fim. Há humor, aqui e ali, mas cáustico.
Não se trata de fazer tempestade em copo d'água, como a inflexão lombrada de Yves pode induzir um ouvinte desatento a imaginar. Mas de virar o romantismo (e, por extensão, as diferentes formas de sociabilidade) pelo avesso. Se uma geladeira quebrada pode render um blues rasgado (Os Mutantes, de novo!), o que dizer do convívio suspenso por uma porta batida? Relacionamentos são complicados. Há quem prefira viver sozinho.
Não bastasse a pegada sui generis de suas composições, Yves ainda teve a manha de reunir uma banda que nunca dá ponto sem nó. A Cidade Dormitório já passou por todas as provas de fogo da cena Serigy, encarou som ruim, turnês improvisadas e a plateia afoita dos festivais. Tudo ossos do ofício. Em 'Fraternidade - Terror', João Mario (guitarras), Lauro Francis (baixo) e Fabio Aricawa (bateria) tangenciam o post punk britânico a torto e direito, do alternativo ao prog, com uma elegância inédita por estas praias.
Yves Deluc tem a vida inteira pela frente, mas faz questão de manter os olhos bem abertos por trás dos óculos de grau. Há exagero deliberado no modo como ele relata tropeços e comenta os acidentes em volta, carregando nas tintas com o fim de acentuar os contrastes. Afora o drama do dedo podre, no entanto, sobressai em suas canções um ceticismo muito salutar, comum a todos os vencidos.