Grito de piedade: travestis seguem ocupando o centro de Aracaju em busca de renda

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Madona no centro de Aracaju: imagem para documentário
Madona no centro de Aracaju: imagem para documentário

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Publicada em 21/10/2019 às 13:13:00

 

Milton Alves Júnior 
Nome social: Tatyana 
?Schneider da Luz; 
na identidade real: E.G.D.S., 33 anos. Nascida em um bairro da zona Norte da capital sergipana, a orientação sexual, paralelo à falta de nível avançado de escolaridade, e a constante ausência de oportunidades trabalhistas, a conduziram para a venda - ou emprésimo do corpo, como ela costuma dizer. Submetida à agressões verbais e morais, físicas e psicológicas, desde outubro de 2009 tem buscado na prostituição a oportunidade de obter alimentação, renda para pagar aluguel e beber uma cerveja nos momentos de lazer. Questionada sobre as dificuldades da maratona diária, a resposta impactante vem depois de um sorriso maroto, acompanhado de lágrimas que não deixam esconder o medo do segundo seguinte.
No primeiro momento nitidamente assustada pela abordagem do JORNAL DO DIA, mas depois se deixando levar pelo impulso da emoção, Taty Luz fez um panorama do cenário hoje vivenciado sobretudo por travestis que buscam o prazer na calada da noite de Aracaju. Se o passado o índice de vulnerabilidade era constante, ao longo dos ultimos dez meses o índice de ataques violentos tem aumentado ao ponto de forçar dezenas de 'colegas' a buscarem outros caminhos. Sem querer entrar no mérito político, a fim de, possivelmente, não gerar suposições equivocadas por parte do leitor, a personagem inicial dessa reportagem garante que a onda de ódio contra os homossexuais tem se multiplicado em larga escala.
 "Esse presidente [Jair Messias Bolsonaro - PSL] que aí está, e não merece ter o nome citado da minha língua, tem contribuído para aquele rancor e ódio armazenado no coração de homofóbicos acabe aflorando. Já foi o tempo que vivíamos lutando para ver qual das meninas conseguiam melhor resultado financeiro na noitada. Hoje a gente luta contra tentativas de ataques físicos mesmo. Se antes o máximo que estávamos submetidas era a pedradas e jatos de extintor de carro na cara, a realidade atual é que precisamos se proteger de pauladas e tiros", declarou Taty.  Sobre a decisão em conversar com o JD, ela revelou o que ocorria no momento:
 "Primeiro: antes de eu chegar até você analisei seu carro, se você estava acompanhado e o seu papo; segundo: nós estamos cercados de colegas minhas, travestis e outra mulheres prostitutas, que estão o tempo todo de olho na gente. Por mais que você perceba, aqui, agora, parece um 'reality show'. Qualquer grito de socorro, muitas se unem e vêm aqui para me salvar. Essa é a nossa realidade. Se a situação antes era difícil, agora está pior. No quesito dinheiro, renda, continua quase a mesma coisa; pegando uns casados que costumam pagar mais, mas também de olho naqueles solteiros que estão dispostos a pagar pouco, mas ao menos é um dinheiro que entra. Pior é voltar para casa sem nada."
A realidade atual, por mais que esteja em ritmo agravante conforme avalaiado por Tatyana ?Schneider, acaba se confundindo com um passado não muito distante. Registrado, inclusive na edição de ontem do JORNAL DO DIA, este sábado, 19 de outubro de 2019, completou exatos sete anos do homicídio sofrido por Amós de Lima Chagas. Figura folclórica que costumava transitar pelas ruas do centro de Aracaju, Madonna - como era popularmente conhecida - possuía 39 anos de idade quando foi barbaramente golpeada por pedaços de madeiras e pedras até a morte. Com um histórico de conflitos verbais e embates físicos protagonizado com comerciantes, os relatos da Polícia Civil indicam ainda o comércio ilegal de entorpecentes como possível motivação do crime.
Para Maryanny Melo, autodeclarada travesti de 29 anos, a ocorrência vivenciada por Madonna reflete com riqueza de detalhes a situação hoje vivenciada por um grupo representativo de cidadãs as quais buscam nas ruas o meio de subsistência. Recém inserida no mercado paralelo, no segundo semestre de 2012 sequer havia completado um ano de prostituição quando foi informada da morte de Madonna. Mesmo diante do medo que a perseguia todas as vezes que saia de casa para trabalhar, enfrentar o perigo foi para a ela a única forma de não se entregar ao abismo psicológico. Prestes a completar o ensino médio por meio de supletivo, Mary diz sonhar com o dia que se aposentará das ruas.
"Se vocês acham que o perigo está apenas na hora que o cliente chega, estão muito enganados. São nas quatro paredes, ou memso dentro do carro que sofremos agressões como se a gente fosse um saco de boxe ou aqueles bonecos de posto que flutuam com ar. Quando a Madonna morreu assassinada, eu e muitas pensamos em deixar esse ramo; o problema que até hoje a gente enfrenta é que não se tem outras oportunidades, saídas. Estou finalmente concluindo o segundo grau escolar para ver se consigo um emprego menos perigoso e saio dessa vida que não desejo a ninguém. Aqui a gente sabe que chega viva, mas nunca sabe se voltaremos pra casa sem nenhum ematoma", revelou.
Acolhimento - Ainda sobre o crime sofrido por Amós de Lima Chagas, a vítima chegou a ser encaminhada para o setor de traumas do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde ficou internada por quatro dias, mas não suportou aos ferimentos e faleceu. Apesar de pesquisa minunciosa, o JD não identificou nos registros policiais a prisão e condenação dos autores do crime. Para Marcelo Lima, representante da Associação de Defesa Homossexual de Sergipe (Adhons), por mais que se busque conscientizar as pessoas para com o respeito ao próximo, casos de agressões seguem sendo registradas ao longo dos anos. 

Milton Alves Júnior 

Nome social: Tatyana  ?Schneider da Luz;  na identidade real: E.G.D.S., 33 anos. Nascida em um bairro da zona Norte da capital sergipana, a orientação sexual, paralelo à falta de nível avançado de escolaridade, e a constante ausência de oportunidades trabalhistas, a conduziram para a venda - ou emprésimo do corpo, como ela costuma dizer. Submetida à agressões verbais e morais, físicas e psicológicas, desde outubro de 2009 tem buscado na prostituição a oportunidade de obter alimentação, renda para pagar aluguel e beber uma cerveja nos momentos de lazer. Questionada sobre as dificuldades da maratona diária, a resposta impactante vem depois de um sorriso maroto, acompanhado de lágrimas que não deixam esconder o medo do segundo seguinte.
No primeiro momento nitidamente assustada pela abordagem do JORNAL DO DIA, mas depois se deixando levar pelo impulso da emoção, Taty Luz fez um panorama do cenário hoje vivenciado sobretudo por travestis que buscam o prazer na calada da noite de Aracaju. Se o passado o índice de vulnerabilidade era constante, ao longo dos ultimos dez meses o índice de ataques violentos tem aumentado ao ponto de forçar dezenas de 'colegas' a buscarem outros caminhos. Sem querer entrar no mérito político, a fim de, possivelmente, não gerar suposições equivocadas por parte do leitor, a personagem inicial dessa reportagem garante que a onda de ódio contra os homossexuais tem se multiplicado em larga escala.
 "Esse presidente [Jair Messias Bolsonaro - PSL] que aí está, e não merece ter o nome citado da minha língua, tem contribuído para aquele rancor e ódio armazenado no coração de homofóbicos acabe aflorando. Já foi o tempo que vivíamos lutando para ver qual das meninas conseguiam melhor resultado financeiro na noitada. Hoje a gente luta contra tentativas de ataques físicos mesmo. Se antes o máximo que estávamos submetidas era a pedradas e jatos de extintor de carro na cara, a realidade atual é que precisamos se proteger de pauladas e tiros", declarou Taty.  Sobre a decisão em conversar com o JD, ela revelou o que ocorria no momento:
 "Primeiro: antes de eu chegar até você analisei seu carro, se você estava acompanhado e o seu papo; segundo: nós estamos cercados de colegas minhas, travestis e outra mulheres prostitutas, que estão o tempo todo de olho na gente. Por mais que você perceba, aqui, agora, parece um 'reality show'. Qualquer grito de socorro, muitas se unem e vêm aqui para me salvar. Essa é a nossa realidade. Se a situação antes era difícil, agora está pior. No quesito dinheiro, renda, continua quase a mesma coisa; pegando uns casados que costumam pagar mais, mas também de olho naqueles solteiros que estão dispostos a pagar pouco, mas ao menos é um dinheiro que entra. Pior é voltar para casa sem nada."
A realidade atual, por mais que esteja em ritmo agravante conforme avalaiado por Tatyana ?Schneider, acaba se confundindo com um passado não muito distante. Registrado, inclusive na edição de ontem do JORNAL DO DIA, este sábado, 19 de outubro de 2019, completou exatos sete anos do homicídio sofrido por Amós de Lima Chagas. Figura folclórica que costumava transitar pelas ruas do centro de Aracaju, Madonna - como era popularmente conhecida - possuía 39 anos de idade quando foi barbaramente golpeada por pedaços de madeiras e pedras até a morte. Com um histórico de conflitos verbais e embates físicos protagonizado com comerciantes, os relatos da Polícia Civil indicam ainda o comércio ilegal de entorpecentes como possível motivação do crime.
Para Maryanny Melo, autodeclarada travesti de 29 anos, a ocorrência vivenciada por Madonna reflete com riqueza de detalhes a situação hoje vivenciada por um grupo representativo de cidadãs as quais buscam nas ruas o meio de subsistência. Recém inserida no mercado paralelo, no segundo semestre de 2012 sequer havia completado um ano de prostituição quando foi informada da morte de Madonna. Mesmo diante do medo que a perseguia todas as vezes que saia de casa para trabalhar, enfrentar o perigo foi para a ela a única forma de não se entregar ao abismo psicológico. Prestes a completar o ensino médio por meio de supletivo, Mary diz sonhar com o dia que se aposentará das ruas.
"Se vocês acham que o perigo está apenas na hora que o cliente chega, estão muito enganados. São nas quatro paredes, ou memso dentro do carro que sofremos agressões como se a gente fosse um saco de boxe ou aqueles bonecos de posto que flutuam com ar. Quando a Madonna morreu assassinada, eu e muitas pensamos em deixar esse ramo; o problema que até hoje a gente enfrenta é que não se tem outras oportunidades, saídas. Estou finalmente concluindo o segundo grau escolar para ver se consigo um emprego menos perigoso e saio dessa vida que não desejo a ninguém. Aqui a gente sabe que chega viva, mas nunca sabe se voltaremos pra casa sem nenhum ematoma", revelou.

Acolhimento - Ainda sobre o crime sofrido por Amós de Lima Chagas, a vítima chegou a ser encaminhada para o setor de traumas do Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde ficou internada por quatro dias, mas não suportou aos ferimentos e faleceu. Apesar de pesquisa minunciosa, o JD não identificou nos registros policiais a prisão e condenação dos autores do crime. Para Marcelo Lima, representante da Associação de Defesa Homossexual de Sergipe (Adhons), por mais que se busque conscientizar as pessoas para com o respeito ao próximo, casos de agressões seguem sendo registradas ao longo dos anos.