FEC: música contra o chumbo da ditadura - IX

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Publicada em 18/10/2019 às 22:20:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Enquanto eram dados os primeiros passos 
para a efetivação do festival, na tentativa 
de se adiantar, o artista Nailton Teixeira, de nova namorada, apresentava ao público sua composição romântica "Eu Te Darei o Mundo", cujo objetivo era tornar sua canção conhecida perante os fãs. Já a cantora Arlene Teixeira, sua irmã, sentindo a chegada do novíssimo evento, de volta aos palcos, após o sucesso de sua apresentação no auditório da Rádio Esperança, então visto até pelos visitantes do Tiro de Guerra de Propriá, daria autógrafos enquanto os mesmos marchavam pelas ruas, numa forma que chamaria a atenção do público. Sem perda de tempo, Zé de Noca, o "Elvis" desejava uma "vaga" no disputado programa Prata da Casa, da rádio. Zé queria mostrar que também tinha talento, pois pretendia "mandar brasa" no FEC. 
Mas o FEC precisava de apoio. O prefeito Raimundo Silveira Souza, o Seu Raimundinho, afeito às atividades artísticas e realizando um mandato a essa altura reconhecido pela população, já nos três primeiros meses apresentava um volume de obras significativo, tendo feito restauração de jardins, calçamento de ruas, rede de esgotos, melhoria da iluminação, caixão para enterramento de pobres. Também pagou dívidas de gestores anteriores, regularizou o Salário Família dos diaristas e pôs em dia o salário do funcionalismo público. Pensando nos jardins, Raimundinho plantava os belos flamboaiãs na cidade. 
Foi nesses primeiros meses que o prefeito também comemorou o 80º aniversário do de Gilberto Amado, o escritor e embaixador estanciano que fora Membro da Comissão de Direito Internacional da ONU (Organização das Nações Unidas). Nessa solenidade esteve presente o governador Lourival Batista e sua comitiva, que juntamente com Raimundinho afixaram uma placa na casa (que já servia de sede da Lira Carlos Gomes) localizada à Rua Capitão Salomão onde nasceu o homenageado. A placa, posta na parte externa, traz a seguinte inscrição: "Nesta casa a 7 de maio de 1887 nasceu Gilberto Amado, glória da inteligência brasileira. Homenagem do governador Lourival Batista e do Prefeito Raymundo Silveira Souza". Estando com a saúde abalada, do Rio de Janeiro, Gilberto Amado agradeceu e enviou um representante. Sem retornar à sua cidade natal, morreria no Rio, em 1969, aos 82 anos.
Ao passo que o FIC (Festival Internacional da Canção Popular) ofertava ao vencedor o "Galo de Ouro", o prefeito Raimundinho daria mais um novo impulso ao futuro festival ao dizer que "Se Estância é o Jardim de Sergipe nada melhor que uma rosa para o vencedor". Assim, ao vencedor do FEC, seria instituído o prêmio Rosa de Ouro. A ideia se adaptava muito bem ao caso estanciano, posto que a cidade possuía o título de Cidade Jardim há mais de um século. O troféu simbolizaria todas as rosas de Estância. 
A título de informação, segundo a história, a Rosa de Ouro em si seria um símbolo de cunho religioso muito antigo, dado como reverência a governos ou cidades que mostrassem lealdade à Santa Sé (Igreja de Roma). Era um velho costume originado nos tempos iniciais da Idade Média. Despida da simbologia cristã, aqui ela seria dada ao compositor classificado em 1º lugar no FEC, o primeiro festival da música da história sergipana.
Enquanto a juventude debatia o FEC, Dom Coutinho, chamado por alguns de "altruísta", junto das "Senhoras da Caridade", fundava o Clube das Lavadeiras do Piauitinga, que já contava com um total de 50 integrantes. Imaginava-se construir uma grande lavanderia às margens do rio, dotada, dentre outras coisas, de uma creche. Além disso, no "Centro Social", algumas dessas profissionais tinham aulas de costura, culinária e de alfabetização. 
Agora, quem estava na crista era o festival e por isso ia envolvendo a imprensa. O jornal Diário de Pernambuco, de 2 de novembro de 1968, comentava sobre o FEC ao dizer que: "Confirmou-se para 7 de dezembro o Festival Estanciano da Canção Sergipana", embora alguns dias depois a comissão mudasse a data para dia 15. Com a proximidade do evento musical um sentimento fraterno parecia dar ao FEC o poder solucionador do momento de tensão e da repulsa porque passava o Brasil e o mundo. Era tempo de repressão às lutas sociais. De reprovação à guerra do Vietnã. De pancadas e tiro à estudante nas ruas brasileiras. Chamado por uma colunista da Folha Trabalhista de "festival do amor", a mesma rogava "que essa iniciativa juvenil possa dar sadios frutos; que tão nobre objetivo possa unir a nossa desunida juventude; que promova a paz e não a guerra". Já o jornal A Estância dizia que "o FEC compromete toda cidade e toca a todos indistintamente". Diria um outro que o FEC seria "a própria Estância em FESTIVAL". O Festival Estanciano da Canção era absoluto. Era um bem precioso. Parecia sagrado.
Mas o tempo era dos fuzis. Ditadura militar. Os estudantes, talvez temendo uma ruína ao evento por parte dos militares, fariam constar, em uma das cláusulas do regulamento do festival, o que se segue: "Será cancelada toda música considerada de protesto, cuja letra vá de encontro aos poderes públicos constituídos. (Diretamente)". A cláusula deixava a entender que esse "protesto" poderia ser feito de forma indireta, como era comum nas canções dessa época. Então, alguns dias depois, como de praxe, sempre às escuras, na noite de 13 de dezembro de 1968 o governo Costa e Silva, ao decretar o Ato Institucional-5, fecharia o Congresso, cassaria mandatos, cancelaria o direito ao habeas corpus. Tratava-se de um dos atos que se notabilizaria dos mais violentos, no qual os ditadores falavam em "completa revolução", passando daí a ocorrer perseguições, mais tortura e desaparecimento de "subversivos". Os anos de chumbo. Algo como a morte decretada pelo Estado aos "inimigos". Porém, na capital, o jornal Diário de Aracaju, de 15 de dezembro trazia em suas páginas frias que estava o "país em calma com o Ato 5 em pleno vigor" e que, na mesma cidade, "policiais guarneciam os principais pontos do centro, mas a população permaneceu inteiramente calma".
Assim se realizaria o FEC, romântico e suave, mas revolucionário. O palco seria a quadra da ETCE, e ocorreria em três eliminatórias determinadas para as noites dos dias 15, 22 e 29 de dezembro, aos domingos. Quase 60 músicas foram inscritas e 38 seriam selecionadas. Teriam sido todas compostas por artistas locais e por compositores de Aracaju e Salvador. (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância  

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Enquanto eram dados os primeiros passos  para a efetivação do festival, na tentativa  de se adiantar, o artista Nailton Teixeira, de nova namorada, apresentava ao público sua composição romântica "Eu Te Darei o Mundo", cujo objetivo era tornar sua canção conhecida perante os fãs. Já a cantora Arlene Teixeira, sua irmã, sentindo a chegada do novíssimo evento, de volta aos palcos, após o sucesso de sua apresentação no auditório da Rádio Esperança, então visto até pelos visitantes do Tiro de Guerra de Propriá, daria autógrafos enquanto os mesmos marchavam pelas ruas, numa forma que chamaria a atenção do público. Sem perda de tempo, Zé de Noca, o "Elvis" desejava uma "vaga" no disputado programa Prata da Casa, da rádio. Zé queria mostrar que também tinha talento, pois pretendia "mandar brasa" no FEC. 
Mas o FEC precisava de apoio. O prefeito Raimundo Silveira Souza, o Seu Raimundinho, afeito às atividades artísticas e realizando um mandato a essa altura reconhecido pela população, já nos três primeiros meses apresentava um volume de obras significativo, tendo feito restauração de jardins, calçamento de ruas, rede de esgotos, melhoria da iluminação, caixão para enterramento de pobres. Também pagou dívidas de gestores anteriores, regularizou o Salário Família dos diaristas e pôs em dia o salário do funcionalismo público. Pensando nos jardins, Raimundinho plantava os belos flamboaiãs na cidade. 
Foi nesses primeiros meses que o prefeito também comemorou o 80º aniversário do de Gilberto Amado, o escritor e embaixador estanciano que fora Membro da Comissão de Direito Internacional da ONU (Organização das Nações Unidas). Nessa solenidade esteve presente o governador Lourival Batista e sua comitiva, que juntamente com Raimundinho afixaram uma placa na casa (que já servia de sede da Lira Carlos Gomes) localizada à Rua Capitão Salomão onde nasceu o homenageado. A placa, posta na parte externa, traz a seguinte inscrição: "Nesta casa a 7 de maio de 1887 nasceu Gilberto Amado, glória da inteligência brasileira. Homenagem do governador Lourival Batista e do Prefeito Raymundo Silveira Souza". Estando com a saúde abalada, do Rio de Janeiro, Gilberto Amado agradeceu e enviou um representante. Sem retornar à sua cidade natal, morreria no Rio, em 1969, aos 82 anos.
Ao passo que o FIC (Festival Internacional da Canção Popular) ofertava ao vencedor o "Galo de Ouro", o prefeito Raimundinho daria mais um novo impulso ao futuro festival ao dizer que "Se Estância é o Jardim de Sergipe nada melhor que uma rosa para o vencedor". Assim, ao vencedor do FEC, seria instituído o prêmio Rosa de Ouro. A ideia se adaptava muito bem ao caso estanciano, posto que a cidade possuía o título de Cidade Jardim há mais de um século. O troféu simbolizaria todas as rosas de Estância. 
A título de informação, segundo a história, a Rosa de Ouro em si seria um símbolo de cunho religioso muito antigo, dado como reverência a governos ou cidades que mostrassem lealdade à Santa Sé (Igreja de Roma). Era um velho costume originado nos tempos iniciais da Idade Média. Despida da simbologia cristã, aqui ela seria dada ao compositor classificado em 1º lugar no FEC, o primeiro festival da música da história sergipana.
Enquanto a juventude debatia o FEC, Dom Coutinho, chamado por alguns de "altruísta", junto das "Senhoras da Caridade", fundava o Clube das Lavadeiras do Piauitinga, que já contava com um total de 50 integrantes. Imaginava-se construir uma grande lavanderia às margens do rio, dotada, dentre outras coisas, de uma creche. Além disso, no "Centro Social", algumas dessas profissionais tinham aulas de costura, culinária e de alfabetização. 
Agora, quem estava na crista era o festival e por isso ia envolvendo a imprensa. O jornal Diário de Pernambuco, de 2 de novembro de 1968, comentava sobre o FEC ao dizer que: "Confirmou-se para 7 de dezembro o Festival Estanciano da Canção Sergipana", embora alguns dias depois a comissão mudasse a data para dia 15. Com a proximidade do evento musical um sentimento fraterno parecia dar ao FEC o poder solucionador do momento de tensão e da repulsa porque passava o Brasil e o mundo. Era tempo de repressão às lutas sociais. De reprovação à guerra do Vietnã. De pancadas e tiro à estudante nas ruas brasileiras. Chamado por uma colunista da Folha Trabalhista de "festival do amor", a mesma rogava "que essa iniciativa juvenil possa dar sadios frutos; que tão nobre objetivo possa unir a nossa desunida juventude; que promova a paz e não a guerra". Já o jornal A Estância dizia que "o FEC compromete toda cidade e toca a todos indistintamente". Diria um outro que o FEC seria "a própria Estância em FESTIVAL". O Festival Estanciano da Canção era absoluto. Era um bem precioso. Parecia sagrado.
Mas o tempo era dos fuzis. Ditadura militar. Os estudantes, talvez temendo uma ruína ao evento por parte dos militares, fariam constar, em uma das cláusulas do regulamento do festival, o que se segue: "Será cancelada toda música considerada de protesto, cuja letra vá de encontro aos poderes públicos constituídos. (Diretamente)". A cláusula deixava a entender que esse "protesto" poderia ser feito de forma indireta, como era comum nas canções dessa época. Então, alguns dias depois, como de praxe, sempre às escuras, na noite de 13 de dezembro de 1968 o governo Costa e Silva, ao decretar o Ato Institucional-5, fecharia o Congresso, cassaria mandatos, cancelaria o direito ao habeas corpus. Tratava-se de um dos atos que se notabilizaria dos mais violentos, no qual os ditadores falavam em "completa revolução", passando daí a ocorrer perseguições, mais tortura e desaparecimento de "subversivos". Os anos de chumbo. Algo como a morte decretada pelo Estado aos "inimigos". Porém, na capital, o jornal Diário de Aracaju, de 15 de dezembro trazia em suas páginas frias que estava o "país em calma com o Ato 5 em pleno vigor" e que, na mesma cidade, "policiais guarneciam os principais pontos do centro, mas a população permaneceu inteiramente calma".
Assim se realizaria o FEC, romântico e suave, mas revolucionário. O palco seria a quadra da ETCE, e ocorreria em três eliminatórias determinadas para as noites dos dias 15, 22 e 29 de dezembro, aos domingos. Quase 60 músicas foram inscritas e 38 seriam selecionadas. Teriam sido todas compostas por artistas locais e por compositores de Aracaju e Salvador. (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância