Correntezas do mundo

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Publicada em 17/10/2019 às 00:09:00

 

* Antonio Passos
Meu pai não demonstrava corriqueiro interesse por arte. Uma das poucas manifestações artísticas que lembro ter sido apreciada por ele foram as canções populares da chamada "época de ouro do rádio" - já objetos de uma cultura industrial de massa. Na companhia dele, ao pé do rádio, tive a oportunidade de ouvir vozes que o agradavam, entre as quais, fixaram-se mais na minha memória as de Orlando Silva e Carlos Galhardo.
Quando comecei a sentir em mim a formação de um gosto musical que me parecia próprio, tentei continuar o diálogo mostrando ao meu pai os artistas que passaram a me encantar: Caetano Veloso, Chico Buarque… Porém, ele não aparentou apreço por aquela nova música surgida a partir da década de 1960.
A apegação exclusiva do meu pai a uma música que fora (digamos) do tempo dele e a dificuldade de continuar interessando-se por novas musicalidades que apareceram, me colocou a seguinte questão: será assim também comigo? Em algum momento futuro perderia eu o interesse por novas músicas e meu gosto restaria atrelado a um conjunto de artistas e canções de um tempo passado?
Não acredito em uma mesma resposta para todas as individualidades humanas. O passar do tempo me mostra inumeráveis atitudes, frente às questões que coloquei para mim no passado. Contudo, tenho hoje o sentimento de que envelhecer é, entre outras coisas, assistir ao apagamento de um mundo que me parecia mais "meu" do que me parecem as novas realidades. Essa sensação toca mais forte em alguns momentos. A recente morte de João Gilberto foi - todas em alguma medida o são - um desses instantes de clareza do adeus de um mundo.
O que estamos sempre a testemunhar são mudanças. Ninguém poderá dizer que assistiu à plenitude do nascimento ou da morte de um mundo. Assim, também eu não saberei precisar quando tudo isso começou e nem como acabará, percebo, entretanto, a ênfase do mundo que se agiganta sobre a realidade. O que hoje está estabelecido e predomina é um mundo de superofertas. Temos a promessa ou a realização de abundantes ofertas de tudo ou quase tudo.
Um novo mundo forja novas culturas. No mundo das superofertas esvai-se, por exemplo, a importância específica de pensamentos registrados no decorrer da história. Agora o que domina o interesse não é tanto aprofundar diálogos, mas, abarcar todas as novidades que não cessam de ser lançadas aos borbotões para o consumo.
Disse, faz poucos dias, a uma doutora em arte que considerei rica uma leitura recente que fiz de um pequeno livro de Jean-Jacques Roubine, publicado originalmente na França em 1985 e traduzido no Brasil sob o título "A Arte do Ator". Laconicamente a doutora comentou que se trata de um texto considerado ultrapassado nos meios acadêmicos. No caso específico não consigo entender o sentido da sugerida ultrapassagem, ainda mais porque é um livro rico em registros e reflexões, sem prescrições. Divagando, me pergunto: será que a parada de sucesso do pensamento contemporâneo, criada pela mídia, ultrapassou e dispensa o acervo disponível de ciência, filosofia e arte?
Outro dia, comprei a um amigo um computador usado e resolvi desinstalar programas que não eram do meu interesse. O amigo ficou pasmo, quando falei que dispensaria o iTunes, e retrucou: - Milhões de músicas! Você vai abrir mão de milhões de músicas? Respondi que mesmo vindo a ser longevo e dedicando todo o meu tempo a ouvir músicas, muito dificilmente eu viria a escutar milhões de músicas… Contudo, não posso deixar de reconhecer o fascínio que o mundo das superofertas exerce sobre quase todos.
Restam esperanças. Como diz minha mãe, apelando para a coleção dela de sabedoria popular comprimida em frases curtas: "não há mal que não traga um bem" (e vice-versa, acrescento). Como a transformação tem sido a única permanência - afora o nascimento e a morte - também o mundo das superofertas e as culturas a ele articuladas, entre as quais a cultura do açodamento e ainda o amontoado de descartáveis que aí estão, todos… Também passarão…
* Antonio Passos é jornalista

A apegação exclusiva do meu pai a uma música que fora (digamos) do tempo dele e a dificuldade de continuar interessando-se por novas musicalidades que apareceram, me colocou a seguinte questão: será assim também comigo?

* Antonio Passos

Meu pai não demonstrava corriqueiro interesse por arte. Uma das poucas manifestações artísticas que lembro ter sido apreciada por ele foram as canções populares da chamada "época de ouro do rádio" - já objetos de uma cultura industrial de massa. Na companhia dele, ao pé do rádio, tive a oportunidade de ouvir vozes que o agradavam, entre as quais, fixaram-se mais na minha memória as de Orlando Silva e Carlos Galhardo.
Quando comecei a sentir em mim a formação de um gosto musical que me parecia próprio, tentei continuar o diálogo mostrando ao meu pai os artistas que passaram a me encantar: Caetano Veloso, Chico Buarque… Porém, ele não aparentou apreço por aquela nova música surgida a partir da década de 1960.
A apegação exclusiva do meu pai a uma música que fora (digamos) do tempo dele e a dificuldade de continuar interessando-se por novas musicalidades que apareceram, me colocou a seguinte questão: será assim também comigo? Em algum momento futuro perderia eu o interesse por novas músicas e meu gosto restaria atrelado a um conjunto de artistas e canções de um tempo passado?
Não acredito em uma mesma resposta para todas as individualidades humanas. O passar do tempo me mostra inumeráveis atitudes, frente às questões que coloquei para mim no passado. Contudo, tenho hoje o sentimento de que envelhecer é, entre outras coisas, assistir ao apagamento de um mundo que me parecia mais "meu" do que me parecem as novas realidades. Essa sensação toca mais forte em alguns momentos. A recente morte de João Gilberto foi - todas em alguma medida o são - um desses instantes de clareza do adeus de um mundo.
O que estamos sempre a testemunhar são mudanças. Ninguém poderá dizer que assistiu à plenitude do nascimento ou da morte de um mundo. Assim, também eu não saberei precisar quando tudo isso começou e nem como acabará, percebo, entretanto, a ênfase do mundo que se agiganta sobre a realidade. O que hoje está estabelecido e predomina é um mundo de superofertas. Temos a promessa ou a realização de abundantes ofertas de tudo ou quase tudo.
Um novo mundo forja novas culturas. No mundo das superofertas esvai-se, por exemplo, a importância específica de pensamentos registrados no decorrer da história. Agora o que domina o interesse não é tanto aprofundar diálogos, mas, abarcar todas as novidades que não cessam de ser lançadas aos borbotões para o consumo.
Disse, faz poucos dias, a uma doutora em arte que considerei rica uma leitura recente que fiz de um pequeno livro de Jean-Jacques Roubine, publicado originalmente na França em 1985 e traduzido no Brasil sob o título "A Arte do Ator". Laconicamente a doutora comentou que se trata de um texto considerado ultrapassado nos meios acadêmicos. No caso específico não consigo entender o sentido da sugerida ultrapassagem, ainda mais porque é um livro rico em registros e reflexões, sem prescrições. Divagando, me pergunto: será que a parada de sucesso do pensamento contemporâneo, criada pela mídia, ultrapassou e dispensa o acervo disponível de ciência, filosofia e arte?
Outro dia, comprei a um amigo um computador usado e resolvi desinstalar programas que não eram do meu interesse. O amigo ficou pasmo, quando falei que dispensaria o iTunes, e retrucou: - Milhões de músicas! Você vai abrir mão de milhões de músicas? Respondi que mesmo vindo a ser longevo e dedicando todo o meu tempo a ouvir músicas, muito dificilmente eu viria a escutar milhões de músicas… Contudo, não posso deixar de reconhecer o fascínio que o mundo das superofertas exerce sobre quase todos.
Restam esperanças. Como diz minha mãe, apelando para a coleção dela de sabedoria popular comprimida em frases curtas: "não há mal que não traga um bem" (e vice-versa, acrescento). Como a transformação tem sido a única permanência - afora o nascimento e a morte - também o mundo das superofertas e as culturas a ele articuladas, entre as quais a cultura do açodamento e ainda o amontoado de descartáveis que aí estão, todos… Também passarão…

* Antonio Passos é jornalista