Um pecado imperdoável

Geral


  • Em romance de estreia, Marcos Cardoso fica no meio do caminho

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
É impossível fazer Lite
ratura de verdade 
sem sujar as mãos. E, no entanto, a maioria dos livros publicados tropeça de modo espetacular no fardo pesado das boas intenções. Orientado pelos melhores propósitos, Marcos Cardoso quase pôs 'O anofelino solerte' a perder. Por sorte, a pulsão de vida na maior parte das páginas é tamanha, a ponto de suplantar a busca por redenção no terço final do romance.
Ao contrário do batismo infeliz deste primeiro esforço ficcional, a prosa do jornalista escorre ligeira, sem mácula de afetação. Trata-se, como foi divulgado à época do lançamento, ano passado, de um romance de formação, em termos clássicos. Mosquito, o personagem narrador, se descobre homem feito enquanto solta pipa, joga bola, bate punheta, briga, namora. Tudo isso entre Salvador, Aracaju e Atalaia Nova. Como fica claro logo no primeiro capítulo - fabuloso, aliás, o ponto alto de todo o livro -, este processo será sempre pontuado por violência.
A alegria bruta da juventude é a principal força motriz da narrativa. Em seus melhores momentos, o bando de meninos com quem Mosquito apronta e experimenta o mundo em volta goza a liberdade própria de uma inocência quase completa. Eu disse "quase"... Legítima ou não, a autoridade representada pela família e os milicos (a história se passa nos anos de chumbo) tenta pôr freio aos impulsos dos moleques, por força de castigos, humilhações e ameaças.
Ficasse por aí, Marcos Cardoso teria cometido um delicioso elogio ao sangue nas veias. O arco dramático ao qual submeteu o seu herói, no entanto, resvala em uma pieguice sem razão, chega a flertar com a filosofia barata dos volumes de auto ajuda. Mosquito sofre um acidente, perde o movimento das pernas. A história, por sua vez,  perde o pulso.
A nobreza não é atributo dos bons personagens. Afirmo isso de olhos nas lombadas na estante. Tomo um e outro, ao acaso. Dorian Gray desce ao fundo do poço, deformado pela corrupção e o crime. Em Machado de Assis, todos são mesquinhos. 'O anofelino...' fica no meio do caminho entre a realização artística e uma historinha de moral edificante. Ao transformar Mosquito em um exemplo de superação em termos tão vulgares, Marcos Cardoso aleija o próprio livro - um pecado imperdoável.

É impossível fazer Lite ratura de verdade  sem sujar as mãos. E, no entanto, a maioria dos livros publicados tropeça de modo espetacular no fardo pesado das boas intenções. Orientado pelos melhores propósitos, Marcos Cardoso quase pôs 'O anofelino solerte' a perder. Por sorte, a pulsão de vida na maior parte das páginas é tamanha, a ponto de suplantar a busca por redenção no terço final do romance.
Ao contrário do batismo infeliz deste primeiro esforço ficcional, a prosa do jornalista escorre ligeira, sem mácula de afetação. Trata-se, como foi divulgado à época do lançamento, ano passado, de um romance de formação, em termos clássicos. Mosquito, o personagem narrador, se descobre homem feito enquanto solta pipa, joga bola, bate punheta, briga, namora. Tudo isso entre Salvador, Aracaju e Atalaia Nova. Como fica claro logo no primeiro capítulo - fabuloso, aliás, o ponto alto de todo o livro -, este processo será sempre pontuado por violência.
A alegria bruta da juventude é a principal força motriz da narrativa. Em seus melhores momentos, o bando de meninos com quem Mosquito apronta e experimenta o mundo em volta goza a liberdade própria de uma inocência quase completa. Eu disse "quase"... Legítima ou não, a autoridade representada pela família e os milicos (a história se passa nos anos de chumbo) tenta pôr freio aos impulsos dos moleques, por força de castigos, humilhações e ameaças.
Ficasse por aí, Marcos Cardoso teria cometido um delicioso elogio ao sangue nas veias. O arco dramático ao qual submeteu o seu herói, no entanto, resvala em uma pieguice sem razão, chega a flertar com a filosofia barata dos volumes de auto ajuda. Mosquito sofre um acidente, perde o movimento das pernas. A história, por sua vez,  perde o pulso.
A nobreza não é atributo dos bons personagens. Afirmo isso de olhos nas lombadas na estante. Tomo um e outro, ao acaso. Dorian Gray desce ao fundo do poço, deformado pela corrupção e o crime. Em Machado de Assis, todos são mesquinhos. 'O anofelino...' fica no meio do caminho entre a realização artística e uma historinha de moral edificante. Ao transformar Mosquito em um exemplo de superação em termos tão vulgares, Marcos Cardoso aleija o próprio livro - um pecado imperdoável.

 


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