A palavra nua

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Publicada em 14/10/2019 às 22:48:00

 

*Rangel Alves da Costa
O leite puro, grosso, ainda quente, esguichado do peito da vaca ainda no curral, é muito mais encorpado, mais saboroso e apetitoso. A fruta madura, pendendo nos pés de mangueira, goiabeiras e mamoeiros, é deleitosa demais à avidez do doce paladar. Comida de fogão de lenha, em panela de barro e preparada pela maestria da velha senhora, é de inigualável sabor.
Como visto, tudo na simplicidade e na originalidade, como se na raiz é que estivesse a verdadeira verdade de tudo. Depois da transformação, a autenticidade perde sabor e sentido, perde o gosto e o prazer. Do mesmo modo com relação à palavra, que deve fugir do academicismo e ser expressa apenas na pureza do próprio falar do povo, sem retoques e rebuscamentos.
Daí que prefiro a palavra matuta. Uma escrita que berre, que cacareje, que relinche alto. Prefiro essa palavra suada, encourada, de gibão e roló. Uma escrita que tenha mato e espinho, que tenha chão e mandacaru. Prefiro não ter nome de poeta ou de escritor. Apenas sertanejo. O que sempre sou.
Prefiro a palavra troncha, mal pronunciada, até errada. Uma escrita com flor de cacto e também com o queimor da urtiga e do cansanção. Prefiro a palavra no calor do sol, na dureza do barro do fundo do tanque, na desvalia de tudo. Prefiro não ser visto como poeta ou escritor. Apenas das distâncias matutas. O que sempre sou.
Prefiro a palavra pouca, miúda, quase sem falar. Uma escrita humilde, de roupa rasgada, de chapéu na cabeça e bolso vazio. Prefiro a palavra sem luxo, sem arrogância, sem petulância, sem anel dourado. Uma palavra que venha como sopro de vento e consigo traga o cheiro bom da natureza. Prefiro escrever para ser compreendido ou mesmo apenas imaginado pelo meu irmão sertanejo.
Prefiro a palavra cheirando a bolo de feira, a mungunzá, arroz-doce e doce de leite. Uma escrita doce sem ser enjoativa, temperada na panela de barro e não no vasilhame de cozinhas desconhecidas. Uma palavra que seja colocada no meio do pão, que seja tomada com café batido em pilão, que desça na garganta como um amém. Prefiro a palavra de mesa tosca e de tamborete, de rede armada e de lua maior. Um dizer bem sertanejo.
Prefiro a palavra montada em cavalo, correndo na mataria, sacolejada no lombo do animal sobre a estrada de chão. Uma escrita povoada de bicho do mato, de ninho de passarinho, de sombreado de arvoredo, de fonte d'água escondida. Prefiro a palavra oca, seca, vazia como o fundo do poço. Uma palavra que não precise de rebuscamento para ser entendida nem escrita com pontos e vírgulas para se mostrar importante. A palavra sertaneja, apenas.
Prefiro a palavra da mocinha tímida, do velho vaqueiro, da rezadeira, do curador, da benzedeira. Uma escrita milagrosa como a folha do mato, a raiz de pau e a reza mais forte. Prefiro a fé na escrita à descrença do palavreado bonito, quero mais a letra caída como gota d'água num sertão esturricado ao caderno aberto para o que jamais será lido. Uma escrita tão terna e cativante que seja como um dengo, que seja como um cafuné. Uma palavra que vingue do fundo do pote e seja bebida com a maior sede do mundo.
Prefiro a palavra fugida da tocaia e da emboscada e renascida na força de sua própria crença. Uma escrita nascida como benzimento, como prece e oração daquele que sabe o valor de um povo. Prefiro carregar minha dita no fundo do embornal e do aió, derreada na cangalha e no cantil, de modo que esteja ao meu alcance toda vez que eu deseje mostrar ao mundo como é o viver sertanejo. Em cada palavra minha não estará além do que a fundura da terra e a superfície do espinho pontudo.
Prefiro a palavra no com de pau, na loca da pedra, no tudo do mato. Escrito balançada na cabeça da lagartixa, escondida e ardilosa como cobra de beira de estrada, perigosa e voraz feito a raposa faminta. Prefiro a palavra com medo de lobisomem, bicho-papão e fogo-corredor. Uma escrita que não seja lida com dicionário nem falada com a boca torta. A fala é pra ser dita do jeito que ela. Anéis só servem para as mãos.
Prefiro a palavra preguiçosamente deitada na rede, sentadinha num tamborete, descansando por riba de um tronco de pau. Uma escrita que beba da quartinha, que venha do fundo do pote, que seja bebida como um sedento depois da cocada de frade. Escrita que seja espinhenta, pontuda, cortante, mas que seja tão cheia de si como a lua grande. Palavra que se faz pouca, mas que é tudo, que abre a boca sem medo de dizer o que quer dizer. Que compreendam ou não, mas sempre palavra.
Prefiro escrever vosmicê, oxente, vixe, cumé, adispois, munto, quarque, quartinha, estambo, prumode, perfessor, arriba, fi da peste, cabrunco, lambisgóia, mio e mió. Prefiro uma palavra assim. Escrita desconhecida da cidade grande. Uma palavra que não seja nada. Mas que seja tudo pela feição descrita da terra sertão, ou em qualquer terra cuja língua seja a língua do povo.
*Rangel Alves da Costa, advogado e escritor
Membro da Academia de letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

O leite puro, grosso, ainda quente, esguichado do peito da vaca ainda no curral, é muito mais encorpado, mais saboroso e apetitoso. A fruta madura, pendendo nos pés de mangueira, goiabeiras e mamoeiros, é deleitosa demais à avidez do doce paladar. Comida de fogão de lenha, em panela de barro e preparada pela maestria da velha senhora, é de inigualável sabor.
Como visto, tudo na simplicidade e na originalidade, como se na raiz é que estivesse a verdadeira verdade de tudo. Depois da transformação, a autenticidade perde sabor e sentido, perde o gosto e o prazer. Do mesmo modo com relação à palavra, que deve fugir do academicismo e ser expressa apenas na pureza do próprio falar do povo, sem retoques e rebuscamentos.
Daí que prefiro a palavra matuta. Uma escrita que berre, que cacareje, que relinche alto. Prefiro essa palavra suada, encourada, de gibão e roló. Uma escrita que tenha mato e espinho, que tenha chão e mandacaru. Prefiro não ter nome de poeta ou de escritor. Apenas sertanejo. O que sempre sou.
Prefiro a palavra troncha, mal pronunciada, até errada. Uma escrita com flor de cacto e também com o queimor da urtiga e do cansanção. Prefiro a palavra no calor do sol, na dureza do barro do fundo do tanque, na desvalia de tudo. Prefiro não ser visto como poeta ou escritor. Apenas das distâncias matutas. O que sempre sou.
Prefiro a palavra pouca, miúda, quase sem falar. Uma escrita humilde, de roupa rasgada, de chapéu na cabeça e bolso vazio. Prefiro a palavra sem luxo, sem arrogância, sem petulância, sem anel dourado. Uma palavra que venha como sopro de vento e consigo traga o cheiro bom da natureza. Prefiro escrever para ser compreendido ou mesmo apenas imaginado pelo meu irmão sertanejo.
Prefiro a palavra cheirando a bolo de feira, a mungunzá, arroz-doce e doce de leite. Uma escrita doce sem ser enjoativa, temperada na panela de barro e não no vasilhame de cozinhas desconhecidas. Uma palavra que seja colocada no meio do pão, que seja tomada com café batido em pilão, que desça na garganta como um amém. Prefiro a palavra de mesa tosca e de tamborete, de rede armada e de lua maior. Um dizer bem sertanejo.
Prefiro a palavra montada em cavalo, correndo na mataria, sacolejada no lombo do animal sobre a estrada de chão. Uma escrita povoada de bicho do mato, de ninho de passarinho, de sombreado de arvoredo, de fonte d'água escondida. Prefiro a palavra oca, seca, vazia como o fundo do poço. Uma palavra que não precise de rebuscamento para ser entendida nem escrita com pontos e vírgulas para se mostrar importante. A palavra sertaneja, apenas.
Prefiro a palavra da mocinha tímida, do velho vaqueiro, da rezadeira, do curador, da benzedeira. Uma escrita milagrosa como a folha do mato, a raiz de pau e a reza mais forte. Prefiro a fé na escrita à descrença do palavreado bonito, quero mais a letra caída como gota d'água num sertão esturricado ao caderno aberto para o que jamais será lido. Uma escrita tão terna e cativante que seja como um dengo, que seja como um cafuné. Uma palavra que vingue do fundo do pote e seja bebida com a maior sede do mundo.
Prefiro a palavra fugida da tocaia e da emboscada e renascida na força de sua própria crença. Uma escrita nascida como benzimento, como prece e oração daquele que sabe o valor de um povo. Prefiro carregar minha dita no fundo do embornal e do aió, derreada na cangalha e no cantil, de modo que esteja ao meu alcance toda vez que eu deseje mostrar ao mundo como é o viver sertanejo. Em cada palavra minha não estará além do que a fundura da terra e a superfície do espinho pontudo.
Prefiro a palavra no com de pau, na loca da pedra, no tudo do mato. Escrito balançada na cabeça da lagartixa, escondida e ardilosa como cobra de beira de estrada, perigosa e voraz feito a raposa faminta. Prefiro a palavra com medo de lobisomem, bicho-papão e fogo-corredor. Uma escrita que não seja lida com dicionário nem falada com a boca torta. A fala é pra ser dita do jeito que ela. Anéis só servem para as mãos.
Prefiro a palavra preguiçosamente deitada na rede, sentadinha num tamborete, descansando por riba de um tronco de pau. Uma escrita que beba da quartinha, que venha do fundo do pote, que seja bebida como um sedento depois da cocada de frade. Escrita que seja espinhenta, pontuda, cortante, mas que seja tão cheia de si como a lua grande. Palavra que se faz pouca, mas que é tudo, que abre a boca sem medo de dizer o que quer dizer. Que compreendam ou não, mas sempre palavra.
Prefiro escrever vosmicê, oxente, vixe, cumé, adispois, munto, quarque, quartinha, estambo, prumode, perfessor, arriba, fi da peste, cabrunco, lambisgóia, mio e mió. Prefiro uma palavra assim. Escrita desconhecida da cidade grande. Uma palavra que não seja nada. Mas que seja tudo pela feição descrita da terra sertão, ou em qualquer terra cuja língua seja a língua do povo.

*Rangel Alves da Costa, advogado e escritorMembro da Academia de letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com