Muito barulho por nada

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Publicada em 07/10/2019 às 23:14:00

 

* Ryan Victor Santana Silva
A cidade onde vivo, Nossa Senhora da Glória, em Sergipe, tem grande importância na região, por isso foi contemplada com uma escola de ensino médio de tempo integral que atende a jovens de vários municípios. Estudo nessa escola e nossa rotina não é fácil: enfrentamos nove aulas diárias, provas semanais, e isso é muito cansativo. Porém há um aluno que, com sua página de humor no Instagram, tem a capacidade de converter esse cansaço em algo divertido. No mês de junho, ele criou um meme sobre uma possível festa junina que aconteceria no colégio. Nele divulgava um show com o cantor Pepe Moreno, um bingo de um carneiro, paredões nos intervalos e um sorteio de um smartphone caríssimo, tudo por apenas três reais. A postagem bem-humorada viralizou, muitos a compartilharam, inclusive eu. Após sua repercussão, seu criador foi punido pela escola e suspenso por um dia. 
O fato gerou polêmica e dividiu opiniões. O diretor acredita que a punição foi adequada, pois alega que o estudante usou o nome da escola sem consentimento e criou uma propaganda enganosa que pode comprometer a imagem da unidade de ensino. Alguns professores e alunos acharam a medida punitiva desproporcional, pois se tratava apenas de uma brincadeira. Tenho plena convicção de que o castigo foi exagerado. 
Interpretar exige uma série de conhecimentos, para que possamos compreender sentidos subentendidos, é o que diz o educador Paulo Freire. O meme já é considerado por muitos estudiosos um gênero textual da era digital e, por isso, exige novos saberes, para que haja plena compreensão. Aqueles que possuem essa bagagem conseguiram decodificar o humor por trás da criação desse aluno. Inclusive, estudantes de outra escola da cidade, habituados com essa linguagem, também entenderam a brincadeira e criaram um meme parecido, só que utilizando o nome da escola deles. 
Embora os motivos apresentados pela equipe gestora para a suspensão sejam pertinentes, o castigo foi inadequado, pois eles não conseguiram compreender a intenção do meme. Certamente, a postagem não poderia ser uma propaganda enganosa, pois seu conteúdo é absurdo e exagerado. Quem acreditaria em paredões entre os intervalos das aulas? E o show, o smartphone, tudo por três reais? Pense bem, se fosse realmente uma propaganda enganosa, o que levaria tantos outros alunos a repostarem? Será que todos queriam difamar o colégio? Além disso, não é de hoje que lutamos por liberdade de expressão em nosso país. Será que devemos abrir mão dessa conquista e aceitar ter que pedir autorização para nos expressar? 
Não culpo a gestão por não ter interpretado corretamente, culpo-a por não querer entender. Diversas vezes, esse aluno tentou explicar o intuito de sua criação, e, mesmo assim, seus argumentos não foram considerados. 
O poder censura. No ambiente escolar existe uma hierarquia. A base de tudo são os alunos, que sustentam os funcionários, os professores e o diretor. Entretanto, quando se trata de uma relação de poder, essa sequência muda. Apesar de sustentarmos todas as outras posições, somos a categoria mais frágil, e a corda sempre arrebenta desse lado. Somos obrigados a aceitar tudo o que nos é imposto e essa aceitação acaba nos silenciando sob a crença de que o mais sensato sempre é obedecer. Essa obediência à hierarquia pode provocar consequências futuras que terão um reflexo na sociedade. 
Esse aluno censurado de hoje será o adulto passivo de amanhã. E ele foi sim censurado. De certo modo, essa suspensão, por mais banal que seja agora, acaba coagindo o cidadão que ele será: alguém que, por medo de sofrer retaliações, opta por não expressar sua opinião. É um medo que não fica apenas na esfera escolar, perpassa e reflete na sociedade. Isso é tudo o que um governo autoritário quer. 
A gestão fez muito barulho para solucionar um problema simples, e isso pode afetar o futuro do jovem. O correto seria ter resolvido o conflito por meio do diálogo e procurado soluções que não o censurassem. A escola deveria estimular essa habilidade que o aluno tem adaptando-se a esse novo gênero e o utilizando para a aprendizagem. Assim, nossa geração não seria tão passiva diante das péssimas decisões políticas que nosso país vem tomando.
* Ryan Victor Santana Silva, 3º Ano B do Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa

* Ryan Victor Santana Silva

A cidade onde vivo, Nossa Senhora da Glória, em Sergipe, tem grande importância na região, por isso foi contemplada com uma escola de ensino médio de tempo integral que atende a jovens de vários municípios. Estudo nessa escola e nossa rotina não é fácil: enfrentamos nove aulas diárias, provas semanais, e isso é muito cansativo. Porém há um aluno que, com sua página de humor no Instagram, tem a capacidade de converter esse cansaço em algo divertido. No mês de junho, ele criou um meme sobre uma possível festa junina que aconteceria no colégio. Nele divulgava um show com o cantor Pepe Moreno, um bingo de um carneiro, paredões nos intervalos e um sorteio de um smartphone caríssimo, tudo por apenas três reais. A postagem bem-humorada viralizou, muitos a compartilharam, inclusive eu. Após sua repercussão, seu criador foi punido pela escola e suspenso por um dia. 
O fato gerou polêmica e dividiu opiniões. O diretor acredita que a punição foi adequada, pois alega que o estudante usou o nome da escola sem consentimento e criou uma propaganda enganosa que pode comprometer a imagem da unidade de ensino. Alguns professores e alunos acharam a medida punitiva desproporcional, pois se tratava apenas de uma brincadeira. Tenho plena convicção de que o castigo foi exagerado. 
Interpretar exige uma série de conhecimentos, para que possamos compreender sentidos subentendidos, é o que diz o educador Paulo Freire. O meme já é considerado por muitos estudiosos um gênero textual da era digital e, por isso, exige novos saberes, para que haja plena compreensão. Aqueles que possuem essa bagagem conseguiram decodificar o humor por trás da criação desse aluno. Inclusive, estudantes de outra escola da cidade, habituados com essa linguagem, também entenderam a brincadeira e criaram um meme parecido, só que utilizando o nome da escola deles. 
Embora os motivos apresentados pela equipe gestora para a suspensão sejam pertinentes, o castigo foi inadequado, pois eles não conseguiram compreender a intenção do meme. Certamente, a postagem não poderia ser uma propaganda enganosa, pois seu conteúdo é absurdo e exagerado. Quem acreditaria em paredões entre os intervalos das aulas? E o show, o smartphone, tudo por três reais? Pense bem, se fosse realmente uma propaganda enganosa, o que levaria tantos outros alunos a repostarem? Será que todos queriam difamar o colégio? Além disso, não é de hoje que lutamos por liberdade de expressão em nosso país. Será que devemos abrir mão dessa conquista e aceitar ter que pedir autorização para nos expressar? 
Não culpo a gestão por não ter interpretado corretamente, culpo-a por não querer entender. Diversas vezes, esse aluno tentou explicar o intuito de sua criação, e, mesmo assim, seus argumentos não foram considerados. 
O poder censura. No ambiente escolar existe uma hierarquia. A base de tudo são os alunos, que sustentam os funcionários, os professores e o diretor. Entretanto, quando se trata de uma relação de poder, essa sequência muda. Apesar de sustentarmos todas as outras posições, somos a categoria mais frágil, e a corda sempre arrebenta desse lado. Somos obrigados a aceitar tudo o que nos é imposto e essa aceitação acaba nos silenciando sob a crença de que o mais sensato sempre é obedecer. Essa obediência à hierarquia pode provocar consequências futuras que terão um reflexo na sociedade. 
Esse aluno censurado de hoje será o adulto passivo de amanhã. E ele foi sim censurado. De certo modo, essa suspensão, por mais banal que seja agora, acaba coagindo o cidadão que ele será: alguém que, por medo de sofrer retaliações, opta por não expressar sua opinião. É um medo que não fica apenas na esfera escolar, perpassa e reflete na sociedade. Isso é tudo o que um governo autoritário quer. 
A gestão fez muito barulho para solucionar um problema simples, e isso pode afetar o futuro do jovem. O correto seria ter resolvido o conflito por meio do diálogo e procurado soluções que não o censurassem. A escola deveria estimular essa habilidade que o aluno tem adaptando-se a esse novo gênero e o utilizando para a aprendizagem. Assim, nossa geração não seria tão passiva diante das péssimas decisões políticas que nosso país vem tomando.

* Ryan Victor Santana Silva, 3º Ano B do Centro de Excelência Manoel Messias Feitosa