Quando a culpa é dos pais

Compartilhar:
Imprimir Aumentar Texto Diminuir Texto

Publicada em 06/10/2019 às 11:18:00

 

*Rangel Alves da Costa
A culpa dessa meninada que desde cedo acostuma com os maus costumes é dos pais que não se comportam mais como pais, que não cuidam dos filhos como deveriam zelar, que gestam os filhos e depois entregam ao mundo. E a culpa maior ainda quando depois lavam as mãos perante os erros e os desatinos, como a dizer que fiz a minha parte e agora que se vire. Ao olhar pra trás, certamente avistarão pais omissos, descuidados, insensíveis, maus exemplos para os filhos. Nem sempre, mas muito ocorre assim.
Que pais são estes que não mais educam seus filhos, que desde cedo não ensinam o que é certo e o que é errado, que não estão nem aí para que façam ou que deixem de fazer? Filho é muito diferente de só fazer, como diz o outro. Filho é reponsabilidade, é cuidado, é colocar na rédea para que a espanação do mal não chegue primeiro. Pai que não cuida de sua criança ou do filho adolescente, mais tarde não pode tá reclamando do erro por ele cometido. Certo que filho não é bicho pra ser domado na rédea, mas também não é cria que deva ser relegada ao mundo.
Então que se repita: A culpa dessa meninada que desde cedo acostuma com os maus costumes é dos pais que parece só saber fazer e depois deixar tudo num tanto faz. Não pode ser assim de jeito nenhum. Como o seio deve ser levado à boca do filho para amamentação, como a mamadeira deve ser feita para ser cuidadosamente servida, como o mingau deve ser levado à boca do filho, como os pais devem ensinar ao pequenino como sozinho se alimentar, bem assim deve acontecer em muitas situações da infância. A criança vai aprendendo pelos pais, toma conhecimento das coisas pela imitação, e tal cuidado deve ser prorrogado indefinidamente. Ora, os verdadeiros pais nunca emancipam seus filhos. Cada filho, ainda que adulto ou já envelhecido, sempre será o menino ou menina da mãe e do pai.
Mas não, o que se vê é uma meninada já nascida sem chance de ser criança. Esta, desde o nascimento, passa a viver em dois mundos: o seu e aquele que a rodeia. Interiormente, apenas a ilusão existencial, vez que sem noção de certo ou errado, sem conhecimento do que está certo ou não fazer, tão somente obedecendo aos impulsos. Pode chorar quando quiser, pode sujar a fralda quando quiser, pode estender a mão e derrubar tudo adiante, pode fazer o que quiser. Sua idade permite, pois ainda em formação. E por estar em formação é que deve ser observada, cuidada e aprimorada em suas atitudes, desde muito cedo. Cabe aos pais e familiares principiar outros ensinamentos.
Pais existem que logo dizem "faça assim não!". Ainda que a criança sequer entenda o que seja o "faça assim não!", tal atitude já demonstra, por si mesma, compromisso e responsabilidade para com o seu: não quer que erre. Contudo, pais também existem que imaginam que a criança já conhece o certo e o errado desde cedo e, por isso mesmo, entrega sua cria à própria sorte. O filho pode errar e repetir o erro que ninguém diz nada. A criança pode acostumar em encher a boca do barro da parede e os pais acham tudo normal. O pequenino pode ir rastejando e sair pela porta que os pais não estão nem aí. E o pior: muitos dizem que aprendem a viver assim. Ledo engano. A criança deve aprender a viver pelo acerto, fazendo coisas que não a desvirtue desde suas primeiras fases de vida.
Noutros tempos - e de idade não muito distante -, eram os costumes, além dos pais, que guiavam a criança ao mundo. Em muitos contextos, sem os chamados nefastos das inovações tecnológicas, tudo ao redor era um parque de diversão e toda presença familiar um livro de lição. Ora, não havia o dizer de que a meninada não podia sequer se molhar por causa das viroses, das gripes, das doenças que se alastram pela fragilidade orgânica. Criança tomava banho de chuva, espanava feliz embaixo de biqueiras, corria na rua lamacenta, jogava seu corpo nas calçadas molhadas e até nas águas juntadas pela chuvarada. Ia caçar passarinho, brincar de cavalo de pau, pentear cabelo de boneca de pano, varrer calçada de casinha de boneca, jogar bola de gude e correr atrás de bola de meia. E com pés descalços.
Quando os pais se arvoravam do dever e direito de ser verdadeiros pais, perante os mínimos erros chamavam os seus ao aconselhamento, ensinavam acerca dos perigos do mundo depois da porta de casa, preocupavam-se com as condutas e com as amizades, muitos não dormiam até que o filho retornasse. Mas hoje, como dito, tudo parece revirado. Muitas vezes o filho opta brinquedo tecnológico ou pelos modismos, unicamente pelo fato de que os pais não lhe apresenta qualquer opção mais saudável. Tanto assim que atualmente a criança não sabe mais brincar. Conhece apenas o site, o atalho, o link, o jogo virtual.
E não há que se dizer que nada pode ser feito para mudar. Tudo pode mudar sim, mas a partir da conduta dos pais. Ou estes se responsabilizam pelo que querem ter como filho ou amargão as angústias de um mundo que não perdoa.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

A culpa dessa meninada que desde cedo acostuma com os maus costumes é dos pais que não se comportam mais como pais, que não cuidam dos filhos como deveriam zelar, que gestam os filhos e depois entregam ao mundo. E a culpa maior ainda quando depois lavam as mãos perante os erros e os desatinos, como a dizer que fiz a minha parte e agora que se vire. Ao olhar pra trás, certamente avistarão pais omissos, descuidados, insensíveis, maus exemplos para os filhos. Nem sempre, mas muito ocorre assim.
Que pais são estes que não mais educam seus filhos, que desde cedo não ensinam o que é certo e o que é errado, que não estão nem aí para que façam ou que deixem de fazer? Filho é muito diferente de só fazer, como diz o outro. Filho é reponsabilidade, é cuidado, é colocar na rédea para que a espanação do mal não chegue primeiro. Pai que não cuida de sua criança ou do filho adolescente, mais tarde não pode tá reclamando do erro por ele cometido. Certo que filho não é bicho pra ser domado na rédea, mas também não é cria que deva ser relegada ao mundo.
Então que se repita: A culpa dessa meninada que desde cedo acostuma com os maus costumes é dos pais que parece só saber fazer e depois deixar tudo num tanto faz. Não pode ser assim de jeito nenhum. Como o seio deve ser levado à boca do filho para amamentação, como a mamadeira deve ser feita para ser cuidadosamente servida, como o mingau deve ser levado à boca do filho, como os pais devem ensinar ao pequenino como sozinho se alimentar, bem assim deve acontecer em muitas situações da infância. A criança vai aprendendo pelos pais, toma conhecimento das coisas pela imitação, e tal cuidado deve ser prorrogado indefinidamente. Ora, os verdadeiros pais nunca emancipam seus filhos. Cada filho, ainda que adulto ou já envelhecido, sempre será o menino ou menina da mãe e do pai.
Mas não, o que se vê é uma meninada já nascida sem chance de ser criança. Esta, desde o nascimento, passa a viver em dois mundos: o seu e aquele que a rodeia. Interiormente, apenas a ilusão existencial, vez que sem noção de certo ou errado, sem conhecimento do que está certo ou não fazer, tão somente obedecendo aos impulsos. Pode chorar quando quiser, pode sujar a fralda quando quiser, pode estender a mão e derrubar tudo adiante, pode fazer o que quiser. Sua idade permite, pois ainda em formação. E por estar em formação é que deve ser observada, cuidada e aprimorada em suas atitudes, desde muito cedo. Cabe aos pais e familiares principiar outros ensinamentos.
Pais existem que logo dizem "faça assim não!". Ainda que a criança sequer entenda o que seja o "faça assim não!", tal atitude já demonstra, por si mesma, compromisso e responsabilidade para com o seu: não quer que erre. Contudo, pais também existem que imaginam que a criança já conhece o certo e o errado desde cedo e, por isso mesmo, entrega sua cria à própria sorte. O filho pode errar e repetir o erro que ninguém diz nada. A criança pode acostumar em encher a boca do barro da parede e os pais acham tudo normal. O pequenino pode ir rastejando e sair pela porta que os pais não estão nem aí. E o pior: muitos dizem que aprendem a viver assim. Ledo engano. A criança deve aprender a viver pelo acerto, fazendo coisas que não a desvirtue desde suas primeiras fases de vida.
Noutros tempos - e de idade não muito distante -, eram os costumes, além dos pais, que guiavam a criança ao mundo. Em muitos contextos, sem os chamados nefastos das inovações tecnológicas, tudo ao redor era um parque de diversão e toda presença familiar um livro de lição. Ora, não havia o dizer de que a meninada não podia sequer se molhar por causa das viroses, das gripes, das doenças que se alastram pela fragilidade orgânica. Criança tomava banho de chuva, espanava feliz embaixo de biqueiras, corria na rua lamacenta, jogava seu corpo nas calçadas molhadas e até nas águas juntadas pela chuvarada. Ia caçar passarinho, brincar de cavalo de pau, pentear cabelo de boneca de pano, varrer calçada de casinha de boneca, jogar bola de gude e correr atrás de bola de meia. E com pés descalços.
Quando os pais se arvoravam do dever e direito de ser verdadeiros pais, perante os mínimos erros chamavam os seus ao aconselhamento, ensinavam acerca dos perigos do mundo depois da porta de casa, preocupavam-se com as condutas e com as amizades, muitos não dormiam até que o filho retornasse. Mas hoje, como dito, tudo parece revirado. Muitas vezes o filho opta brinquedo tecnológico ou pelos modismos, unicamente pelo fato de que os pais não lhe apresenta qualquer opção mais saudável. Tanto assim que atualmente a criança não sabe mais brincar. Conhece apenas o site, o atalho, o link, o jogo virtual.
E não há que se dizer que nada pode ser feito para mudar. Tudo pode mudar sim, mas a partir da conduta dos pais. Ou estes se responsabilizam pelo que querem ter como filho ou amargão as angústias de um mundo que não perdoa.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com