JANOT E AS QUESTÕES ENIGMÁTICAS

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Publicada em 06/10/2019 às 11:16:00

 

 * Lelê Teles
RODRIGO JANOT adentra o recinto, silencioso como um fantasma. De costas, à sua frente, está o seu desafeto, GILMAR MENDES. Janot põe a mão na cintura, afagando a pistola.
As mãos, frias, começam a suar, os lábios estão secos e crispados, a testa úmida; ele tenta engolir, com dificuldade.
À sua frente, Mendes, indiferente à presença do colega, despeja açúcar na xícara e mexe o café, sem pressa.
Janot, então, tenta sacar a arma, mas uma força misteriosa o impede. Determinado, ele a arranca de um solavanco, aponta pra nuca do juiz... porém, o seu dedo petrifica-se e o gatilho não é acionado.
Mesmo sendo destro, ele pega a arma com a canhota mas, desgraçadamente, o dedo esquerdo também permanece imóvel. Janot, com os pelos do corpo eriçados, sente que uma entidade divina, talvez a própria mão invisível de Deus, o refreara. Ele, então, devolve a pistola para a cinta e se retira em silêncio, fantasmagoricamente, transformando um ato de bravura numa vexosa e covarde inação.
Esse fragmento de estória, recém-contada por Janot, me deixou até agora com uma pulga atrás da orelha.
Sou um perdigueiro, e além do mais sou um storyteller, sinto o faro de fuleiragem de longe quando ouço uma lorota.
Não tem erro, quando um sujeito invoca Deus ou qualquer ser invisível para dar molho à sua trama, a prosopopeia ganha ares fabulescos.
Ainda mais se a criatura do além é usada como um Deus Ex-Machina, um personagem que surge do nada com o intuito de dar uma resolução a uma trama mal contada; truque bastante manjado no antigo teatro grego e hoje só utilizado por amadores.
Digo tudo isso para fazer uma pergunta que já deveria ter sido feita: e se Janot inventou essa conversa mole como um marketing macabro para vender livros?
Olhando por essa perspectiva, o homicídio, seguido de suicídio, tentado e destentado seria apenas uma horrenda peça de propaganda.
Porém, eficiente.
"O que levaria um cidadão com tamanha responsabilidade institucional a uma situação limite como essa?" perguntar-se-ia um potencial leitor, sedento por desvendar uma intriga intrigante.
A estória é chocante, instigante, polêmica, novelesca e catártica.
O cenário é inusitado, os personagens também, a resolução culminaria em dois corpos banhados de sangue; um crime perfeito, o assassino não poderia ser preso.
Porém, colocarei uma colherzinha de açúcar nesse cafezinho amargo.
Soubemos a pouco que Janot é chegado num remedinho, foi visto várias vezes sentado numa distribuidora de bebidas, cercado de engradado de cervejas.
Chegou a montar sua distribuidora particular no gabinete da PGR, que chamava eufemisticamente de farmacinha; lá ele guardava o profilático e santo remédio.
Todos sabemos, ébrios e abstêmios, que o bêbado é antes de tudo um gabola, um compulsivo e irrefreável contador de lorotas.
Nunca saberemos se Janot disse o que disse sob o efeito de algum fármaco feito de vinho, cana de açúcar ou puro malte.
O sujeito chegou a dizer que só não matou Mendes porque a mão de Deus tocou o seu ombro e disse: "não!".
Ora, ora, ora.
Nunca vi uma mão falar, mesmo que seja uma mão etérea; a não ser que o intrépido espírito fosse versado em libras.
Esse lance de mão de Deus, força espiritual e outras digressões metafísicas acabou por estragar a história. O cabra até que tava indo bem.
Porque, você sabe diligente internauta, não que o corpo e a mente de um indivíduo não possam ser sequestrados por alguma potestade que o manipule para fazer o bem ou o mal.
Há legiões de espírito pairando por aí.
Inclusive há um espírito muito manjado que costuma se apossar dos corpos de bêbados e afins.
É o famoso Espírito de Porco.
E tudo nessa estória nos leva a crer que se trata, de facto, dessa suínica entidade.
Todos sabemos que fora revelado a pouco que no dia fatídico, 11 de maio de 2017, Rodrigo Janot não estava em Brasília.
Ou seja, no dia em que disse que, em Brasília, mataria o outro e depois se mataria, o ex-PGRS se encontrava em Minas Gerais, saboreando umas costelinhas de porco fritas e bebericando uma legítima cachacinha.
Como mil diabos, dirá o leitor mais atento.
Mas, atente para esse desdobramento enigmático que tornou a estória ainda mais fantástica e Ágatha Chrístieca:
Se Janot não estava em Brasília no dia do fatídico homicídio, tudo leva a crer que quem agiu naquela casa soturna foi o ectoplasma do PGR.
Ou seja, quem agiria naquela manhã manhosa seria não Janot, mas um espírito janótico.
Janótico, mentiroso... e covarde.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário

 * Lelê Teles

RODRIGO JANOT adentra o recinto, silencioso como um fantasma. De costas, à sua frente, está o seu desafeto, GILMAR MENDES. Janot põe a mão na cintura, afagando a pistola.
As mãos, frias, começam a suar, os lábios estão secos e crispados, a testa úmida; ele tenta engolir, com dificuldade.
À sua frente, Mendes, indiferente à presença do colega, despeja açúcar na xícara e mexe o café, sem pressa.
Janot, então, tenta sacar a arma, mas uma força misteriosa o impede. Determinado, ele a arranca de um solavanco, aponta pra nuca do juiz... porém, o seu dedo petrifica-se e o gatilho não é acionado.
Mesmo sendo destro, ele pega a arma com a canhota mas, desgraçadamente, o dedo esquerdo também permanece imóvel. Janot, com os pelos do corpo eriçados, sente que uma entidade divina, talvez a própria mão invisível de Deus, o refreara. Ele, então, devolve a pistola para a cinta e se retira em silêncio, fantasmagoricamente, transformando um ato de bravura numa vexosa e covarde inação.
Esse fragmento de estória, recém-contada por Janot, me deixou até agora com uma pulga atrás da orelha.
Sou um perdigueiro, e além do mais sou um storyteller, sinto o faro de fuleiragem de longe quando ouço uma lorota.
Não tem erro, quando um sujeito invoca Deus ou qualquer ser invisível para dar molho à sua trama, a prosopopeia ganha ares fabulescos.
Ainda mais se a criatura do além é usada como um Deus Ex-Machina, um personagem que surge do nada com o intuito de dar uma resolução a uma trama mal contada; truque bastante manjado no antigo teatro grego e hoje só utilizado por amadores.
Digo tudo isso para fazer uma pergunta que já deveria ter sido feita: e se Janot inventou essa conversa mole como um marketing macabro para vender livros?
Olhando por essa perspectiva, o homicídio, seguido de suicídio, tentado e destentado seria apenas uma horrenda peça de propaganda.
Porém, eficiente.
"O que levaria um cidadão com tamanha responsabilidade institucional a uma situação limite como essa?" perguntar-se-ia um potencial leitor, sedento por desvendar uma intriga intrigante.
A estória é chocante, instigante, polêmica, novelesca e catártica.
O cenário é inusitado, os personagens também, a resolução culminaria em dois corpos banhados de sangue; um crime perfeito, o assassino não poderia ser preso.
Porém, colocarei uma colherzinha de açúcar nesse cafezinho amargo.
Soubemos a pouco que Janot é chegado num remedinho, foi visto várias vezes sentado numa distribuidora de bebidas, cercado de engradado de cervejas.
Chegou a montar sua distribuidora particular no gabinete da PGR, que chamava eufemisticamente de farmacinha; lá ele guardava o profilático e santo remédio.
Todos sabemos, ébrios e abstêmios, que o bêbado é antes de tudo um gabola, um compulsivo e irrefreável contador de lorotas.
Nunca saberemos se Janot disse o que disse sob o efeito de algum fármaco feito de vinho, cana de açúcar ou puro malte.
O sujeito chegou a dizer que só não matou Mendes porque a mão de Deus tocou o seu ombro e disse: "não!".
Ora, ora, ora.
Nunca vi uma mão falar, mesmo que seja uma mão etérea; a não ser que o intrépido espírito fosse versado em libras.
Esse lance de mão de Deus, força espiritual e outras digressões metafísicas acabou por estragar a história. O cabra até que tava indo bem.
Porque, você sabe diligente internauta, não que o corpo e a mente de um indivíduo não possam ser sequestrados por alguma potestade que o manipule para fazer o bem ou o mal.
Há legiões de espírito pairando por aí.
Inclusive há um espírito muito manjado que costuma se apossar dos corpos de bêbados e afins.
É o famoso Espírito de Porco.
E tudo nessa estória nos leva a crer que se trata, de facto, dessa suínica entidade.
Todos sabemos que fora revelado a pouco que no dia fatídico, 11 de maio de 2017, Rodrigo Janot não estava em Brasília.
Ou seja, no dia em que disse que, em Brasília, mataria o outro e depois se mataria, o ex-PGRS se encontrava em Minas Gerais, saboreando umas costelinhas de porco fritas e bebericando uma legítima cachacinha.
Como mil diabos, dirá o leitor mais atento.
Mas, atente para esse desdobramento enigmático que tornou a estória ainda mais fantástica e Ágatha Chrístieca:
Se Janot não estava em Brasília no dia do fatídico homicídio, tudo leva a crer que quem agiu naquela casa soturna foi o ectoplasma do PGR.
Ou seja, quem agiria naquela manhã manhosa seria não Janot, mas um espírito janótico.
Janótico, mentiroso... e covarde.
Palavra da salvação.
* Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário