FEC: música contra o chumbo da ditadura - VIII

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Publicada em 04/10/2019 às 23:03:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Enquanto emergia a truculência militar surgiria, nos meados de 1960, os festivais da música brasileira. Iniciado na televisão os festivais passariam a marcar época no Brasil fazendo despontar nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Geraldo Vandré dentre tantos outros. Um importante meio de se contrapor a recém-instaurada ditadura, que usaria de todos os meios para tentar subverter a democracia brasileira. Anos depois, em meio à carestia, os estancianos também embarcariam na onda dos festivais, mas sem abrir mão das reais transformações pelas quais deveriam passar sua cidade.
Além da esperada estrada dos Abaís, em 1968 também se intensifica em Estância a cobrança da construção de uma rodoviária ao governo estadual. Por ser a localidade mais desenvolvida da região começava a aumentar o tráfego de ônibus de outras cidades, assim como as viagens à capital. Quanto à localização da dita rodoviária sairia na frente a Folha Trabalhista ao realizar uma enquete a fim de decidir o melhor local. Teve gente que preferia sua construção no Parque Velho (Jardim Velho), sendo um deles o poeta e intelectual Elísio Matos. Por enquanto, naqueles anos, a chegada e a saída dos ônibus continuava se dando na Rua Capitão Salomão.
Mas Estância queria mais. Havendo se iniciado na capital as obras do Estádio Batistão e com a política do governo Lourival Batista de interiorizar os estádios - que pretendia construir um em Lagarto e outro em Itabaiana - sua gestão passaria a ser cobrada também na imprensa escrita local pela construção de um estádio, já que a cidade possuía dois dos melhores clubes do interior sergipano e, no entanto, só jogavam em campos particulares (do Santa Cruz, no bairro de mesmo nome e do José Pequeno, no Bomfim).  
Ainda nessa busca por novos incrementos para a cidade, havia uma expectativa a mais por parte dos estancianos, pois Dom Coutinho lutava para a instalação de uma rádio diocesana. Nesses anos muitos sonhos e desventuras rondavam o ideário estanciano. Era a cidade querendo romper o atraso.
No mesmo ano de 68, no mês de julho, a Rádio Esperança - que continuaria obtendo muito sucesso com programas de auditório, tendo à frente o apresentador Sivaldo, um dos radialistas mais marcantes da radiofonia estanciana - lançaria o interessante concurso "a Mais Bela Voz do Nordeste". Contando com a concorrência de doze participantes, na triagem, representariam a cidade Edmundo Morais, Geruza Nascimento, Sônia Cardoso e Denilza Miranda. Os demais concorrentes seriam de Aracaju. A plateia, que via Denilza Miranda como insuperável, de acordo com o júri, não esteve bem perdendo para uma concorrente da capital, o que desagradou os presentes. Por alguns, tido como "retumbante sucesso" e por outros, tachado como um concurso de "marmelada", o certo é que o evento movimentaria muita gente da área musical. 
Esses encontros musicais fariam alguns jovens estancianos pensar em algo expressivo e pelas ruas começaria a se ventilar a realização de um festival. Refletindo sobre o concurso "A Mais Bela Voz do Nordeste", o colunista Geovani, do jornal A Estância, assim se expressou: "em que pese ter um final dos mais desagradáveis, achamos por bem aproveitando observações de amigos, sugerir a pessoas credenciadas da cidade, no caso a direção da Rádio Esperança, em instituir um concurso, idêntico àquele que, por certo, movimentará a cidade. Daremos o nome Festival Estanciano da Canção" (18.08.1968).
A ideia do festival tomava corpo e pelas ruas, já em setembro, circulavam notas informativas sobre o evento que estava por vir. O jornalista Carlos Tadeu, um dos grandes incentivadores, dava voz ao futuro festival através da imprensa escrita. No referido mês foi montada uma comissão, que segundo o colunista Vanderlei Silva, figurava os nomes de muitos estudantes, dentre eles Beto Cruz, Eraldo Lima, Antônio Carlos (Tonho da Vila), Valter Batista, Alexandre Morais, Chiquinho. Este, um jovem que a época contava 18 anos incompletos, seria uma peça chave. Mais adiante refletiremos um pouco sobre sua importância.
Diante de muita expectativa os comissionados decidiram escolher as inscrições para o dia 7 de outubro, ao preço de NCr$ 0,50 (cinquenta centavos de cruzeiros novos) destinado ao "custeio de despesas". Interessante que os estudantes, em comissão, decidiram dar um caráter filantrópico ao festival: toda a renda obtida seria revertida para a Lira Carlos Gomes. No entanto, a renda oriunda dos shows das dez músicas classificadas seriam todos revertidos em prol da pobreza da cidade. Uma atitude acima de tudo socialista da classe estudantil. 
Quando a notícia chegou ao conhecimento do prefeito Raimundinho, o mesmo exclamaria: "o que for preciso fazer e o que estiver ao alcance da Prefeitura Municipal, será feito em benefício do Festival Estanciano da Canção!" Isso daria fôlego à comissão, pois ainda lamentava a impossibilidade da transmissão do evento pela Rádio Esperança, a recente emissora local.
Entretanto, era impossível fazer a juventude parar. O rádio seria um detalhe. À medida que se passavam os dias o Festival Estanciano da Canção (FEC) atraía apoio de mais gente. João Bonifácio, natural de Itabaianinha, então maestro da Lira Carlos Gomes e importante nome da música na cidade, se colocaria à disposição pelo setor musical do FEC. O cearense Dom Coutinho, o primeiro bispo de Estância, garantia aos jornais que daria "todo apoio ao Festival Estanciano da Canção, sobretudo por que se trata de um movimento sócio-recreativo-cultural que merece destaque". O distinto prelado não negava em admirar "a música e a arte de cantar", reafirmando, nesse ínterim, estar "plenamente satisfeito em declarar que meu apoio será dado ao FEC e com todo ardor de minha alma". Comprometeu-se em reservar o auditório do Instituto Diocesano para ensaio dos artistas. O evento começava a abrir as portas. As emissoras de Aracaju anunciavam com alarde o evento musical. Afinal, o FEC seria o Primeiro Festival da Canção de Sergipe. O festival, que teve repercussão nacional, faria o Estado inteiro entrar na magia da música! (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Enquanto emergia a truculência militar surgiria, nos meados de 1960, os festivais da música brasileira. Iniciado na televisão os festivais passariam a marcar época no Brasil fazendo despontar nomes como Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, Geraldo Vandré dentre tantos outros. Um importante meio de se contrapor a recém-instaurada ditadura, que usaria de todos os meios para tentar subverter a democracia brasileira. Anos depois, em meio à carestia, os estancianos também embarcariam na onda dos festivais, mas sem abrir mão das reais transformações pelas quais deveriam passar sua cidade.
Além da esperada estrada dos Abaís, em 1968 também se intensifica em Estância a cobrança da construção de uma rodoviária ao governo estadual. Por ser a localidade mais desenvolvida da região começava a aumentar o tráfego de ônibus de outras cidades, assim como as viagens à capital. Quanto à localização da dita rodoviária sairia na frente a Folha Trabalhista ao realizar uma enquete a fim de decidir o melhor local. Teve gente que preferia sua construção no Parque Velho (Jardim Velho), sendo um deles o poeta e intelectual Elísio Matos. Por enquanto, naqueles anos, a chegada e a saída dos ônibus continuava se dando na Rua Capitão Salomão.
Mas Estância queria mais. Havendo se iniciado na capital as obras do Estádio Batistão e com a política do governo Lourival Batista de interiorizar os estádios - que pretendia construir um em Lagarto e outro em Itabaiana - sua gestão passaria a ser cobrada também na imprensa escrita local pela construção de um estádio, já que a cidade possuía dois dos melhores clubes do interior sergipano e, no entanto, só jogavam em campos particulares (do Santa Cruz, no bairro de mesmo nome e do José Pequeno, no Bomfim).  
Ainda nessa busca por novos incrementos para a cidade, havia uma expectativa a mais por parte dos estancianos, pois Dom Coutinho lutava para a instalação de uma rádio diocesana. Nesses anos muitos sonhos e desventuras rondavam o ideário estanciano. Era a cidade querendo romper o atraso.
No mesmo ano de 68, no mês de julho, a Rádio Esperança - que continuaria obtendo muito sucesso com programas de auditório, tendo à frente o apresentador Sivaldo, um dos radialistas mais marcantes da radiofonia estanciana - lançaria o interessante concurso "a Mais Bela Voz do Nordeste". Contando com a concorrência de doze participantes, na triagem, representariam a cidade Edmundo Morais, Geruza Nascimento, Sônia Cardoso e Denilza Miranda. Os demais concorrentes seriam de Aracaju. A plateia, que via Denilza Miranda como insuperável, de acordo com o júri, não esteve bem perdendo para uma concorrente da capital, o que desagradou os presentes. Por alguns, tido como "retumbante sucesso" e por outros, tachado como um concurso de "marmelada", o certo é que o evento movimentaria muita gente da área musical. 
Esses encontros musicais fariam alguns jovens estancianos pensar em algo expressivo e pelas ruas começaria a se ventilar a realização de um festival. Refletindo sobre o concurso "A Mais Bela Voz do Nordeste", o colunista Geovani, do jornal A Estância, assim se expressou: "em que pese ter um final dos mais desagradáveis, achamos por bem aproveitando observações de amigos, sugerir a pessoas credenciadas da cidade, no caso a direção da Rádio Esperança, em instituir um concurso, idêntico àquele que, por certo, movimentará a cidade. Daremos o nome Festival Estanciano da Canção" (18.08.1968).
A ideia do festival tomava corpo e pelas ruas, já em setembro, circulavam notas informativas sobre o evento que estava por vir. O jornalista Carlos Tadeu, um dos grandes incentivadores, dava voz ao futuro festival através da imprensa escrita. No referido mês foi montada uma comissão, que segundo o colunista Vanderlei Silva, figurava os nomes de muitos estudantes, dentre eles Beto Cruz, Eraldo Lima, Antônio Carlos (Tonho da Vila), Valter Batista, Alexandre Morais, Chiquinho. Este, um jovem que a época contava 18 anos incompletos, seria uma peça chave. Mais adiante refletiremos um pouco sobre sua importância.
Diante de muita expectativa os comissionados decidiram escolher as inscrições para o dia 7 de outubro, ao preço de NCr$ 0,50 (cinquenta centavos de cruzeiros novos) destinado ao "custeio de despesas". Interessante que os estudantes, em comissão, decidiram dar um caráter filantrópico ao festival: toda a renda obtida seria revertida para a Lira Carlos Gomes. No entanto, a renda oriunda dos shows das dez músicas classificadas seriam todos revertidos em prol da pobreza da cidade. Uma atitude acima de tudo socialista da classe estudantil. 
Quando a notícia chegou ao conhecimento do prefeito Raimundinho, o mesmo exclamaria: "o que for preciso fazer e o que estiver ao alcance da Prefeitura Municipal, será feito em benefício do Festival Estanciano da Canção!" Isso daria fôlego à comissão, pois ainda lamentava a impossibilidade da transmissão do evento pela Rádio Esperança, a recente emissora local.
Entretanto, era impossível fazer a juventude parar. O rádio seria um detalhe. À medida que se passavam os dias o Festival Estanciano da Canção (FEC) atraía apoio de mais gente. João Bonifácio, natural de Itabaianinha, então maestro da Lira Carlos Gomes e importante nome da música na cidade, se colocaria à disposição pelo setor musical do FEC. O cearense Dom Coutinho, o primeiro bispo de Estância, garantia aos jornais que daria "todo apoio ao Festival Estanciano da Canção, sobretudo por que se trata de um movimento sócio-recreativo-cultural que merece destaque". O distinto prelado não negava em admirar "a música e a arte de cantar", reafirmando, nesse ínterim, estar "plenamente satisfeito em declarar que meu apoio será dado ao FEC e com todo ardor de minha alma". Comprometeu-se em reservar o auditório do Instituto Diocesano para ensaio dos artistas. O evento começava a abrir as portas. As emissoras de Aracaju anunciavam com alarde o evento musical. Afinal, o FEC seria o Primeiro Festival da Canção de Sergipe. O festival, que teve repercussão nacional, faria o Estado inteiro entrar na magia da música! (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância