Um monumento para Ismar Barreto

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Viver Aracaju já foi mais fácil e mais bonito
Viver Aracaju já foi mais fácil e mais bonito

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Publicada em 01/10/2019 às 23:13:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Tudo passa. Impossível 
alimentar qualquer 
ilusão de eternidade nas ruas de Aracaju. Quem visita o Parque da Sementeira talvez se impressione com o bloco de bronze esculpido em memória do governador Marcelo Déda. Mas ali, em lugar do homem, celebra-se antes o poder político. Fosse diferente, haveria um busto de Ismar Barreto em cada esquina da cidade.
Em vida, Ismar soube se fazer querido. Humor sacana, copo sempre à mão, violão embaixo do braço. Segundo Pascoal Maynard, ninguém foi mais bem servido pela natureza. E a disposição para a alegria de cada encontro transborda em versos carregados de malícia e lirismo. 
Ontem, quando ele completaria mais um aniversário, a cantora Amorosa, a sua maior intérprete, foi das poucas a se lembrar do compositor. "Você faz uma grande falta na nossa música. Porque ninguém sabia ler nosso cotidiano e o transformar em poesia melódica, como você fazia", gritou aos quatro ventos, açoitando a memória pouca do lugar nas redes sociais. Eu assino embaixo.
Segundo um samba de Nelson Cavaquinho, todos choram quando morre um poeta em Mangueira. Em Aracaju, ao contrário, os próprios versos passam sem choro nem vela, cobertos de indiferença, em brancas nuvens. A orla da Atalaia possui um sem número de monumentos dedicado às eminências pardas da História. Nenhum celebra os cultores do espírito nativo. 
Na avenida Beira Mar, há um toco de árvore dedicado ao seresteiro Antonio Teles. Por pouco não foi arrancado durante uma reforma. O caju de Eurico Luiz, na cabeceira da Coroa do Meio, só permanece de pé por resistência da própria matéria de pedra. Aqui, louva-se gente importante, o poder de mando e a força da grana. Ninguém quer saber de um reles cantor. Viver Aracaju já foi mais fácil e mais bonito.

Tudo passa. Impossível  alimentar qualquer  ilusão de eternidade nas ruas de Aracaju. Quem visita o Parque da Sementeira talvez se impressione com o bloco de bronze esculpido em memória do governador Marcelo Déda. Mas ali, em lugar do homem, celebra-se antes o poder político. Fosse diferente, haveria um busto de Ismar Barreto em cada esquina da cidade.
Em vida, Ismar soube se fazer querido. Humor sacana, copo sempre à mão, violão embaixo do braço. Segundo Pascoal Maynard, ninguém foi mais bem servido pela natureza. E a disposição para a alegria de cada encontro transborda em versos carregados de malícia e lirismo. 
Ontem, quando ele completaria mais um aniversário, a cantora Amorosa, a sua maior intérprete, foi das poucas a se lembrar do compositor. "Você faz uma grande falta na nossa música. Porque ninguém sabia ler nosso cotidiano e o transformar em poesia melódica, como você fazia", gritou aos quatro ventos, açoitando a memória pouca do lugar nas redes sociais. Eu assino embaixo.
Segundo um samba de Nelson Cavaquinho, todos choram quando morre um poeta em Mangueira. Em Aracaju, ao contrário, os próprios versos passam sem choro nem vela, cobertos de indiferença, em brancas nuvens. A orla da Atalaia possui um sem número de monumentos dedicado às eminências pardas da História. Nenhum celebra os cultores do espírito nativo. 
Na avenida Beira Mar, há um toco de árvore dedicado ao seresteiro Antonio Teles. Por pouco não foi arrancado durante uma reforma. O caju de Eurico Luiz, na cabeceira da Coroa do Meio, só permanece de pé por resistência da própria matéria de pedra. Aqui, louva-se gente importante, o poder de mando e a força da grana. Ninguém quer saber de um reles cantor. Viver Aracaju já foi mais fácil e mais bonito.