Os arigós mantêm viva a tradição junina

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Publicada em 01/10/2019 às 22:58:00

 

* Gilson Sousa
Arigó. O termo não é muito comum 
na linguagem urbana. Procurando 
nos dicionários, vê-se que faz alusão a quem é da roça ou nela trabalha, ou um caipira, ou indivíduo simplório, rústico, matuto. No entanto, na linguagem de integrantes de quadrilhas juninas, arigó significa homem resistente, de força, de tradição, um defensor dos costumes do sertão, e, acima de tudo, um lutador. E é com esse sentido que anualmente dezenas de quadrilheiros de vários municípios de Sergipe se reúnem na cidade de Frei Paulo, agreste do estado, para realizar o evento 'Os arigós do sertão'.
O início foi em 2014, quando um grupo de integrantes da quadrilha junina Retirantes do Sertão, representante de Frei Paulo nos concursos estaduais e regionais, resolveu se reunir após os festejos juninos para uma espécie de confraternização. Amantes do forró de raiz e das tradições das quadrilhas juninas, eles acharam adequado o auto-batismo como 'arigós do sertão'. E isso, naturalmente, exclui a participação das 'damas' quadrilheiras desse evento. E eles garantem que não se trata de machismo, e sim de um momento de pura descontração dos arigós de raiz.
Esse ano, a 6ª edição da festa dos arigós foi realizada no sábado, dia 21 de setembro. Cerca de 80 homens, com seus chapéus de couro e camisas padronizadas, saíram em carreata pelas ruas da pequena e organizada Frei Paulo chamando a atenção da população que já conhece e aplaude a festa. O ponto de encontro foi a praça da Juventude, já que havia quadrilheiros de Aracaju, Itabaiana, Tobias Barreto, Carira, Macambira e outros municípios vizinhos. O destino foi uma chácara nos arredores de Frei Paulo.
O homenageado do ano foi Jackson do Pandeiro, artista paraibano que faria 100 anos de idade em 2019. Era o Rei do Ritmo e emplacou muitos sucessos no cancioneiro nordestino que até hoje é cantado pelas diversas quadrilhas juninas. Por essa razão, a homenagem dos arigós ficou bem representada. "Gonzagão foi cantado, Lampião foi lembrado, o forró reverenciado, Jackson do Pandeiro homenageado", escreveu o poeta arigó André Stamp. "Quem canta o sertão e suas verdades/ Quem dança o xaxado e suas beldades/ Só pode levar consigo/ A força e a coragem/ De carregar na alma/ Uma amizade de verdade".
"Além de confraternar a amizade, a brincadeira e as boas recordações, o objetivo principal do encontro é manter viva a verdadeira bandeira da cultura popular Nordestina, pois no encontro ouve-se apenas autêntico forró", confirma Jean Carlo Andrade de Souza, um dos fundadores do evento. "Em todos os encontros é marca registrada a presença de um trio pé de serra. Hoje no encontro dos arigós já contamos com alguns jovens de 24 a 26 anos, isso é muito importante para todos que compõem esse grupo, pois essa influência ajudará a manter viva a memória da cultura musical do povo Nordestino", garante Jean.
Além de quadrilheiros da Retirantes do Sertão, de Frei Paulo, participaram do encontro integrantes da Século XX, Xodó da Vila, Rala-Rala, Chapéu de Couro e outras. Os fundadores da festa, além de Jean Souza, foram André Luiz Santos do Valle, Hernandes Barbosa de Andrade, Jairo Alves dos Santos, Jorge Eduardo dos Santos Filho, José Adriano dos Santos, José Emanoel da Paixão, José Luiz Pereira dos Santos Nunes, Marcio Dantas de Oliveira, Marcos Tadeu Silva, Mario Santos Souza Sandro Santos da Rocha e Silas de Matos Oliveira.
"É um reencontro com amigos, mas também tem a finalidade de não deixar morrer a essência do São João, principalmente no que se refere a quadrilheiros. Porque se você for fazer uma análise rápida, em Sergipe a idade dos quadrilheiros já está bem avançada. E a gente sente a falta de transmitir isso de pai para filho, incentivar a nova geração para que não deixe a tradição morrer", explica Gilvan Lins, arigó e cantor de quadrilhas juninas desde 1988.
Assim, o 21 de setembro de 2019 celebrou mais uma etapa do fortalecimento das tradições juninas defendidas com garra pelos arigós do sertão. Um dia inteiro de festa com músicas de Marinês, Jackson do Pandeiro (homenageado do ano), Zinho, Trio Nordestino, Vavá Machado e Marcolino, Josa (o Vaqueiro do Sertão), Dominguinhos e o mestre Luiz Gonzaga. Além disso, muitas rodas de conversas sobre o trabalho das quadrilhas juninas em Sergipe, principalmente no que diz respeito ao trabalho de resgate de quadrilhas mirins, com oficinas em bairros e tentativas de incluir a atividade em escolas públicas.
E como todo bom arigó é sempre muito devoto às coisas de Deus, houve também momento de oração e homenagens a Gilberto Lima Barreto, um dos maiores marcadores de quadrilha junina de Sergipe, falecido no dia 9 de setembro aos 65 anos de idade. Ele foi marcador da quadrilha Maracangaia, de Aracaju, e conquistou vários campeonatos, inclusive o da Rede Globo Nordeste em 2004. Assim como os arigós reunidos em Frei Paulo, Gilberto era um dos maiores defensores das quadrilhas juninas tradicionais, sem teatro, sem espetacularização, sempre valorizando a dança e a tradição do Nordeste.
*Gilson Sousa é jornalista e Mestre em Comunicação pela UFS

* Gilson Sousa

Arigó. O termo não é muito comum  na linguagem urbana. Procurando  nos dicionários, vê-se que faz alusão a quem é da roça ou nela trabalha, ou um caipira, ou indivíduo simplório, rústico, matuto. No entanto, na linguagem de integrantes de quadrilhas juninas, arigó significa homem resistente, de força, de tradição, um defensor dos costumes do sertão, e, acima de tudo, um lutador. E é com esse sentido que anualmente dezenas de quadrilheiros de vários municípios de Sergipe se reúnem na cidade de Frei Paulo, agreste do estado, para realizar o evento 'Os arigós do sertão'.
O início foi em 2014, quando um grupo de integrantes da quadrilha junina Retirantes do Sertão, representante de Frei Paulo nos concursos estaduais e regionais, resolveu se reunir após os festejos juninos para uma espécie de confraternização. Amantes do forró de raiz e das tradições das quadrilhas juninas, eles acharam adequado o auto-batismo como 'arigós do sertão'. E isso, naturalmente, exclui a participação das 'damas' quadrilheiras desse evento. E eles garantem que não se trata de machismo, e sim de um momento de pura descontração dos arigós de raiz.
Esse ano, a 6ª edição da festa dos arigós foi realizada no sábado, dia 21 de setembro. Cerca de 80 homens, com seus chapéus de couro e camisas padronizadas, saíram em carreata pelas ruas da pequena e organizada Frei Paulo chamando a atenção da população que já conhece e aplaude a festa. O ponto de encontro foi a praça da Juventude, já que havia quadrilheiros de Aracaju, Itabaiana, Tobias Barreto, Carira, Macambira e outros municípios vizinhos. O destino foi uma chácara nos arredores de Frei Paulo.
O homenageado do ano foi Jackson do Pandeiro, artista paraibano que faria 100 anos de idade em 2019. Era o Rei do Ritmo e emplacou muitos sucessos no cancioneiro nordestino que até hoje é cantado pelas diversas quadrilhas juninas. Por essa razão, a homenagem dos arigós ficou bem representada. "Gonzagão foi cantado, Lampião foi lembrado, o forró reverenciado, Jackson do Pandeiro homenageado", escreveu o poeta arigó André Stamp. "Quem canta o sertão e suas verdades/ Quem dança o xaxado e suas beldades/ Só pode levar consigo/ A força e a coragem/ De carregar na alma/ Uma amizade de verdade".
"Além de confraternar a amizade, a brincadeira e as boas recordações, o objetivo principal do encontro é manter viva a verdadeira bandeira da cultura popular Nordestina, pois no encontro ouve-se apenas autêntico forró", confirma Jean Carlo Andrade de Souza, um dos fundadores do evento. "Em todos os encontros é marca registrada a presença de um trio pé de serra. Hoje no encontro dos arigós já contamos com alguns jovens de 24 a 26 anos, isso é muito importante para todos que compõem esse grupo, pois essa influência ajudará a manter viva a memória da cultura musical do povo Nordestino", garante Jean.
Além de quadrilheiros da Retirantes do Sertão, de Frei Paulo, participaram do encontro integrantes da Século XX, Xodó da Vila, Rala-Rala, Chapéu de Couro e outras. Os fundadores da festa, além de Jean Souza, foram André Luiz Santos do Valle, Hernandes Barbosa de Andrade, Jairo Alves dos Santos, Jorge Eduardo dos Santos Filho, José Adriano dos Santos, José Emanoel da Paixão, José Luiz Pereira dos Santos Nunes, Marcio Dantas de Oliveira, Marcos Tadeu Silva, Mario Santos Souza Sandro Santos da Rocha e Silas de Matos Oliveira.
"É um reencontro com amigos, mas também tem a finalidade de não deixar morrer a essência do São João, principalmente no que se refere a quadrilheiros. Porque se você for fazer uma análise rápida, em Sergipe a idade dos quadrilheiros já está bem avançada. E a gente sente a falta de transmitir isso de pai para filho, incentivar a nova geração para que não deixe a tradição morrer", explica Gilvan Lins, arigó e cantor de quadrilhas juninas desde 1988.
Assim, o 21 de setembro de 2019 celebrou mais uma etapa do fortalecimento das tradições juninas defendidas com garra pelos arigós do sertão. Um dia inteiro de festa com músicas de Marinês, Jackson do Pandeiro (homenageado do ano), Zinho, Trio Nordestino, Vavá Machado e Marcolino, Josa (o Vaqueiro do Sertão), Dominguinhos e o mestre Luiz Gonzaga. Além disso, muitas rodas de conversas sobre o trabalho das quadrilhas juninas em Sergipe, principalmente no que diz respeito ao trabalho de resgate de quadrilhas mirins, com oficinas em bairros e tentativas de incluir a atividade em escolas públicas.
E como todo bom arigó é sempre muito devoto às coisas de Deus, houve também momento de oração e homenagens a Gilberto Lima Barreto, um dos maiores marcadores de quadrilha junina de Sergipe, falecido no dia 9 de setembro aos 65 anos de idade. Ele foi marcador da quadrilha Maracangaia, de Aracaju, e conquistou vários campeonatos, inclusive o da Rede Globo Nordeste em 2004. Assim como os arigós reunidos em Frei Paulo, Gilberto era um dos maiores defensores das quadrilhas juninas tradicionais, sem teatro, sem espetacularização, sempre valorizando a dança e a tradição do Nordeste.

*Gilson Sousa é jornalista e Mestre em Comunicação pela UFS