Recado de primavera

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O velho Braga não passou incólume pela poesia da estação
O velho Braga não passou incólume pela poesia da estação

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Publicada em 25/09/2019 às 22:07:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Deveria ser proibido 
chover na primave-
ra. As moças querem passear de vestido florido. Os eruditos precisam de luz para espantar o reumatismo com os arpejos vibrantes de Vivaldi. Eu, por mim, pretendia manter as janelas da casa abertas. Gostasse de cinza, mudava de mala e cuia para São Paulo.
Um amigo reclama: levou quase duas horas para ir da Atalaia ao Centro da cidade. Culpa da chuva e de uma obra importuna na Avenida Beira Mar. Segundo os conciliadores, trata-se do preço cobrado pelo progresso. Estranho progresso, este que subtrai o tempo de uma sinfonia, ou de um café sem pressa no meio da tarde, em troca de obrigar os motoristas à programação vulgar das rádios FM, entre buzinas estridentes e a fumaça tóxica dos escapamentos. 
As nuvens pesadas me oprimem. Engarrafamentos aborrecem a toda a gente. Melhor seria fazer soar um toque de recolher, até o Deus no céu mandar bom tempo. Sendo assim, casais antigos tratariam de arranjar assunto e trazer meninos ao mundo. Nos endereços mais respeitáveis, ais e uis apaixonados fariam tremer as paredes escandalizadas com o desejo revivido em inesperada mocidade.
Sim, no fundo eu sou um romântico, talvez o último dos jornalistas sergipanos a escrever com o coração. A mim, pouco importam os cálculos da companhia de tráfego urbano, ou coisa que o valha. As pessoas precisam se deslocar de um lugar para outro, açoitadas pelo relógio de ponto. Eu não terminarei as crônicas de Rubem Braga desperdiçando as horas reservadas à leitura entre ir e vir.
Primavera é ocasião de flor aberta, caminhos abertos, rompantes líricos, amor calmo e urgente. Ao menos em tese. O céu nublado e as máquinas da Prefeitura firmaram acordo, estão em conluio vergonhoso contra a poesia da estação.

Deveria ser proibido  chover na primave- ra. As moças querem passear de vestido florido. Os eruditos precisam de luz para espantar o reumatismo com os arpejos vibrantes de Vivaldi. Eu, por mim, pretendia manter as janelas da casa abertas. Gostasse de cinza, mudava de mala e cuia para São Paulo.
Um amigo reclama: levou quase duas horas para ir da Atalaia ao Centro da cidade. Culpa da chuva e de uma obra importuna na Avenida Beira Mar. Segundo os conciliadores, trata-se do preço cobrado pelo progresso. Estranho progresso, este que subtrai o tempo de uma sinfonia, ou de um café sem pressa no meio da tarde, em troca de obrigar os motoristas à programação vulgar das rádios FM, entre buzinas estridentes e a fumaça tóxica dos escapamentos. 
As nuvens pesadas me oprimem. Engarrafamentos aborrecem a toda a gente. Melhor seria fazer soar um toque de recolher, até o Deus no céu mandar bom tempo. Sendo assim, casais antigos tratariam de arranjar assunto e trazer meninos ao mundo. Nos endereços mais respeitáveis, ais e uis apaixonados fariam tremer as paredes escandalizadas com o desejo revivido em inesperada mocidade.
Sim, no fundo eu sou um romântico, talvez o último dos jornalistas sergipanos a escrever com o coração. A mim, pouco importam os cálculos da companhia de tráfego urbano, ou coisa que o valha. As pessoas precisam se deslocar de um lugar para outro, açoitadas pelo relógio de ponto. Eu não terminarei as crônicas de Rubem Braga desperdiçando as horas reservadas à leitura entre ir e vir.
Primavera é ocasião de flor aberta, caminhos abertos, rompantes líricos, amor calmo e urgente. Ao menos em tese. O céu nublado e as máquinas da Prefeitura firmaram acordo, estão em conluio vergonhoso contra a poesia da estação.