FEC: música contra o chumbo da ditadura - VII

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Publicada em 24/09/2019 às 23:53:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Um episódio digno de menção também 
ocorreria em 1967. A "jovem guarda estu-
dantil" da cidade passou a questionar o valor social da Petrobrás em Sergipe, uma vez que deixava quase nada dos lucros aqui. Por isso defendiam o aumento desses lucros (royalties) para o Estado. É que a descoberta de petróleo em Carmópolis agitaria o povo causando muitas expectativas, a ponto dos petroleiros desfilarem pelas ruas de Aracaju, em 1963, mostrando até as roupas sujas do "ouro negro". Meses depois jorraria petróleo em Maruim.
Por ser uma bacia petrolífera extraordinária, após a tomada do poder, o governo militar de Castelo Branco visitou o Estado para conhecer de perto a tão importante reserva. Aproveitando-se do ensejo os sergipanos fizeram alguns pedidos ao então presidente, dentre eles: o asfaltamento da BR 11 (depois BR 101), no trecho Cristinápolis a Propriá; abertura do porto de Aracaju; implantação da Universidade Federal de Sergipe e um maior auxílio financeiro da União para o Estado. De olho no petróleo sergipano Castelo garantiu "que Sergipe iria entrar numa nova fase de progresso e de desenvolvimento". 
No ano seguinte, em 64, a produção do poço de Carmópolis já mandava 300 toneladas para serem devidamente refinadas na Bahia. Contudo, dos lucros que aqueles poços renderiam ao país, de acordo com a imprensa local, somente 8% deles ficavam em Sergipe. Enquanto isso a miséria continuava rondando os sergipanos com gente "morrendo de fome na mais desconcertante indigência". 
Essa situação faria os estudantes se posicionarem contra a Petrobrás e discordarem da porcentagem oriunda dos royalties, chamada por eles de "migalhas". Sem compreender a luta histórica que fizera estudantes e trabalhadores desde a década de 1940 para tornar a Petrobrás uma empresa estritamente nacional, através da campanha "o petróleo é nosso", - tomando por base um texto intitulado "O lixo da Petrobrás", de autoria do vice-governador Manoel Machado e um comentário da recém-fundada Rádio Esperança - em artigo publicado na imprensa escrita os líderes estudantis do Diretório Gumercindo Bessa, em sua "Coluna Estudantil", deram a entender que Sergipe teria mais vantagem se fosse o petróleo explorado por empresa estrangeira, já que a empresa "condiciona até miséria". 
Culpabilizando a Petrobrás e não a política do governo militar, a ideia dos estudantes destonava com o que defendia o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Petróleo de Sergipe que estava na luta pela manutenção do monopólio estatal do petróleo, pois a empresa continuava sempre pressionada por grupos internacionais interessados em açambarcar o minério brasileiro. 
Indo nessa direção, meses depois, de Salvador, o jornalista Silveira, ex-estudante da ETCE (em nosso entender, da imprensa estanciana dos anos 60, aquele que se colocaria mais à esquerda), atento ao que se passava na cidade em que residiu, protestava no mesmo jornal, na coluna Carlos Tadeu, contra o equívoco do referido diretório tachando de "campanha inglória" e, convicto, asseverava: "A Petrobrás é uma conquista do povo brasileiro e deverá ser defendida pelos jovens, para que o sacrifício daqueles que por ela batalharam não tenha sido em vão". Em que pese a nobreza de algumas conquistas obtidas pelos estudantes estancianos, parece que os líderes secundaristas ainda careciam de mais maturidade. 
Naqueles anos, qualquer mobilização de trabalhadores ou de estudantes (que tivera sua entidade posta em clandestinidade) era reprimida pela polícia que costumava invadir e espancar. Por isso a ditadura passou a ser fortemente contestada nas ruas das grandes cidades brasileiras. Em 1968 ocorreriam as maiores manifestações da classe estudantil, pois no dia 28 de março, em meio a uma passeata no Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luís Souto seria assassinado a tiros por um policial. Em Estância, através de um artigo, um dos jornais prestaria uma "Solidariedade Estudantil" e em outro "Augustus", mais um colunista lamentava o "assassinato, talvez a sangue frio, de um estudante moço, sem projeção no seu círculo, sem portar outra arma a não ser suas ideias externadas". 
Na semana seguinte o mundo sentiria profundamente o assassinato de Martin Luther King. O pacifista estadunidense se tornou famoso na luta em defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Foi morto na sacada de um hotel com um tiro de espingarda disparado por um presidiário fugitivo. Essas notícias chegavam aos movimentos, que tomando como pano de fundo a interminável e odiosa Guerra do Vietnã, fazia a juventude colocar-se contra a opressão. Por causa dessa ebulição social o escritor e jornalista Mark kurlansky em seu livro, 1968: O ano que abalou o mundo, diria que "ocorreu uma combustão espontânea de espíritos rebeldes no mundo inteiro". Em Sergipe a pequena Estância caminhava para sua ebulição: a musical.
Em Aracaju, alguns debates em defesa da educação e sobre a instalação da Universidade de Sergipe vinham sendo realizados pelo "Grupo Universitário de Sergipe". Eles se posicionaram contra ao acordo brasileiro e norte-americano (MEC-USAID), cujo objetivo era tornar tecnicista as universidades, privatizá-las e serem controladas pelos EUA. 
Para dar vazão a esses debates em 31 de maio de 1968, aconteceria na mesma cidade, o I Seminário de Problemas Estudantis a Realidade Brasileira, este se prolongaria até o dia 2 de junho. Ali os estudantes discutiram acaloradamente a lei Suplicy de Lacerda; o acordo MEC-USAID; o Decreto Aragão (do MEC), que radicalizava ainda mais o controle das atividades estudantis; a Universidade de Sergipe e os destinos da UNE (União Nacional dos Estudantes). Com o início da ditadura militar a UNE passou a ser clandestina pela lei Suplicy de Lacerda, como também as entidades estudantis de cada estado. No final, concluíram que diante da crueza dos militares com os movimentos dos estudantes, o movimento sergipano precisava apoiar a UNE. (continua)  
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância  

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Um episódio digno de menção também  ocorreria em 1967. A "jovem guarda estu- dantil" da cidade passou a questionar o valor social da Petrobrás em Sergipe, uma vez que deixava quase nada dos lucros aqui. Por isso defendiam o aumento desses lucros (royalties) para o Estado. É que a descoberta de petróleo em Carmópolis agitaria o povo causando muitas expectativas, a ponto dos petroleiros desfilarem pelas ruas de Aracaju, em 1963, mostrando até as roupas sujas do "ouro negro". Meses depois jorraria petróleo em Maruim.
Por ser uma bacia petrolífera extraordinária, após a tomada do poder, o governo militar de Castelo Branco visitou o Estado para conhecer de perto a tão importante reserva. Aproveitando-se do ensejo os sergipanos fizeram alguns pedidos ao então presidente, dentre eles: o asfaltamento da BR 11 (depois BR 101), no trecho Cristinápolis a Propriá; abertura do porto de Aracaju; implantação da Universidade Federal de Sergipe e um maior auxílio financeiro da União para o Estado. De olho no petróleo sergipano Castelo garantiu "que Sergipe iria entrar numa nova fase de progresso e de desenvolvimento". 
No ano seguinte, em 64, a produção do poço de Carmópolis já mandava 300 toneladas para serem devidamente refinadas na Bahia. Contudo, dos lucros que aqueles poços renderiam ao país, de acordo com a imprensa local, somente 8% deles ficavam em Sergipe. Enquanto isso a miséria continuava rondando os sergipanos com gente "morrendo de fome na mais desconcertante indigência". 
Essa situação faria os estudantes se posicionarem contra a Petrobrás e discordarem da porcentagem oriunda dos royalties, chamada por eles de "migalhas". Sem compreender a luta histórica que fizera estudantes e trabalhadores desde a década de 1940 para tornar a Petrobrás uma empresa estritamente nacional, através da campanha "o petróleo é nosso", - tomando por base um texto intitulado "O lixo da Petrobrás", de autoria do vice-governador Manoel Machado e um comentário da recém-fundada Rádio Esperança - em artigo publicado na imprensa escrita os líderes estudantis do Diretório Gumercindo Bessa, em sua "Coluna Estudantil", deram a entender que Sergipe teria mais vantagem se fosse o petróleo explorado por empresa estrangeira, já que a empresa "condiciona até miséria". 
Culpabilizando a Petrobrás e não a política do governo militar, a ideia dos estudantes destonava com o que defendia o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Extração de Petróleo de Sergipe que estava na luta pela manutenção do monopólio estatal do petróleo, pois a empresa continuava sempre pressionada por grupos internacionais interessados em açambarcar o minério brasileiro. 
Indo nessa direção, meses depois, de Salvador, o jornalista Silveira, ex-estudante da ETCE (em nosso entender, da imprensa estanciana dos anos 60, aquele que se colocaria mais à esquerda), atento ao que se passava na cidade em que residiu, protestava no mesmo jornal, na coluna Carlos Tadeu, contra o equívoco do referido diretório tachando de "campanha inglória" e, convicto, asseverava: "A Petrobrás é uma conquista do povo brasileiro e deverá ser defendida pelos jovens, para que o sacrifício daqueles que por ela batalharam não tenha sido em vão". Em que pese a nobreza de algumas conquistas obtidas pelos estudantes estancianos, parece que os líderes secundaristas ainda careciam de mais maturidade. 
Naqueles anos, qualquer mobilização de trabalhadores ou de estudantes (que tivera sua entidade posta em clandestinidade) era reprimida pela polícia que costumava invadir e espancar. Por isso a ditadura passou a ser fortemente contestada nas ruas das grandes cidades brasileiras. Em 1968 ocorreriam as maiores manifestações da classe estudantil, pois no dia 28 de março, em meio a uma passeata no Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luís Souto seria assassinado a tiros por um policial. Em Estância, através de um artigo, um dos jornais prestaria uma "Solidariedade Estudantil" e em outro "Augustus", mais um colunista lamentava o "assassinato, talvez a sangue frio, de um estudante moço, sem projeção no seu círculo, sem portar outra arma a não ser suas ideias externadas". 
Na semana seguinte o mundo sentiria profundamente o assassinato de Martin Luther King. O pacifista estadunidense se tornou famoso na luta em defesa dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Foi morto na sacada de um hotel com um tiro de espingarda disparado por um presidiário fugitivo. Essas notícias chegavam aos movimentos, que tomando como pano de fundo a interminável e odiosa Guerra do Vietnã, fazia a juventude colocar-se contra a opressão. Por causa dessa ebulição social o escritor e jornalista Mark kurlansky em seu livro, 1968: O ano que abalou o mundo, diria que "ocorreu uma combustão espontânea de espíritos rebeldes no mundo inteiro". Em Sergipe a pequena Estância caminhava para sua ebulição: a musical.
Em Aracaju, alguns debates em defesa da educação e sobre a instalação da Universidade de Sergipe vinham sendo realizados pelo "Grupo Universitário de Sergipe". Eles se posicionaram contra ao acordo brasileiro e norte-americano (MEC-USAID), cujo objetivo era tornar tecnicista as universidades, privatizá-las e serem controladas pelos EUA. 
Para dar vazão a esses debates em 31 de maio de 1968, aconteceria na mesma cidade, o I Seminário de Problemas Estudantis a Realidade Brasileira, este se prolongaria até o dia 2 de junho. Ali os estudantes discutiram acaloradamente a lei Suplicy de Lacerda; o acordo MEC-USAID; o Decreto Aragão (do MEC), que radicalizava ainda mais o controle das atividades estudantis; a Universidade de Sergipe e os destinos da UNE (União Nacional dos Estudantes). Com o início da ditadura militar a UNE passou a ser clandestina pela lei Suplicy de Lacerda, como também as entidades estudantis de cada estado. No final, concluíram que diante da crueza dos militares com os movimentos dos estudantes, o movimento sergipano precisava apoiar a UNE. (continua)  

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância