MEMÓRIA ACIMA DA HISTÓRIA

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Publicada em 18/09/2019 às 23:11:00

 

* Rômulo Rodrigues
A militância política de esquerda é uma 
estrada que leva o militante pelos ca
minhos do estudo da Filosofia para se armar no exercício da crítica; pela Sociologia para saber como os humanos vivem em grupos sociais e pela antropologia para saber o mínimo sobre o bicho complicado que é o ser humano.
Mas, tem uma coisa que o bicho militante de esquerda faz questão de colocar em primeiro plano; a História.
Como pertencente a este grupo, ou espécie humana, fui tendo a boca entortada pelo cachimbo da História, até me defrontar com o livro escrito por Jorge Carvalho: "Memórias da Resistência"; com direito a recebê-lo de presente, autografado e com dedicatória.
Foi uma sacudida das boas, tipo; Ôxente Cabra, cadê sua memória? Pois bem, minha memória me remete ao início dos anos 50, quando moleque buchudo, não abria mão de juntar meus trocados para comprar Pão Doce Mão de Onça.
O imenso prazer era saboreá-lo aos tiquinhos, demorando ao máximo para chegar ao fim do deguste daquela iguaria dos deuses que só a Padaria São Sebastião fazia e o velho Expedito vendia em seu balaio cujo cheiro atiçava nossas narinas bem antes dele chegar.
No estalo veio a conclusão óbvia; o livro do professor Jorge Carvalho é o meu Pão Doce daquelas tardes, que estou saboreando aos poucos, por imposição da memória, para tomar consciência de que estava ficando abestado em só recorrer à história.
Êpa! Quer dizer que a História não é importante? Nada disso; a História continua com seu papel de ser Mapas Náuticos e Geográficos que traçam os caminhos por onde a humanidade deve seguir. Só que, só serão confiáveis se forem os registros fiéis das Memórias.
Vejamos, a História política de Sergipe é trazida por Jorge no resgate de fatos memoráveis, sem os quais, a História, com certeza, não valeria a pena ser contada. E, que fique claro para os afoitos sujeitos e atores do novo teatro de operações da política, tratada como neo-capitania e neo-sesmaria, o que foi resistir e enfrentar uma ditadura militar voraz em prender, torturar e matar; em nome da Democracia, que fora sua primeira vítima.
Djavan foi antológico ao nos brindar com: "Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar?" Penso ser este o grande enigma do Governo do Estado que nada mais é do que um fruto do que está nas Memórias da Resistência.
Quando vim parar por aqui para trabalhar e recuperar o fôlego ante as perseguições já trazia no matulão o eco da voz cortante do Deputado pelo MDB do Paraná, Alencar Furtado, no Programa Nacional do MDB, em noite memorável, cortando a carne dos opressores: "Viúvas dos quem sabe e dos talvez".
O facão do ditador de plantão ceifou sua cabeça no outro dia, mas, aquela voz metálica, ainda deve causar pesadelos nos golpistas de hoje.
Sabe-se lá, o que foi o Diretório do MDB de Sergipe se negar a se dissolver conforme determinou um decreto ditatorial e ainda por cima emitir uma Nota de Solidariedade aos Deputados cassados e denunciar as arbitrariedades de suas cassações?
Na Memória da História pós 1964, quem pesquisar vai encontrar a coragem de um comerciante do interior, recém-estabelecido na capital, que abraçou a Utopia de um filho e jogou fichas grandes na construção de um partido de resistência ao terror que se instalava pelo país afora.
Personagens vivos dessa saga são bastante e cabe a eles tornarem vivas suas memórias. Mas, entre os que se foram, não tem como deixar em brancas nuvens e não reconhecer o heroísmo de Oviedo Teixeira, a persistência de José Carlos Teixeira e a coragem de Viana de Assis que mesmo sabendo que seria preso após discursar na Assembleia Legislativa, como de fato foi, falou com altivez e coragem e foi de cabeça erguida para os porões do Quartel do Exército.
Nestes tempos de ditadura política, midiática, jurídica e militarista, é dever de todos que lutam pelo Estado democrático de Direito não esquecerem e terem sempre na memória o terror da Operação Cajueiro em Sergipe. Os resgates memoriais dos depoimentos de velhos combatentes têm que ser transformados em chamas vivas contra ditaduras e guerra híbrida.
A maior jornada de terror foi a deflagração da Operação Cajueiro que prendeu vários dirigentes e militantes do MDB em 1976, todos com origens e atuações no partidão.
Como não há meia gravidez, também inexiste tortura branda e ditadura pela metade. As marcas deixadas são para sempre e a sociedade tem que carregar nas costas estas dívidas com os que sofreram violências.
Encerro meus simples e sinceros comentários sobre a oportuna e necessária obra do professor Jorge Carvalho homenageando, em nome de todos, Milton Coelho e Rosalvo Alexandre, com o compromisso de continuar lutando diuturnamente do lado certo da História.
* Rômulo Rodrigues é militante político

* Rômulo Rodrigues

A militância política de esquerda é uma  estrada que leva o militante pelos ca minhos do estudo da Filosofia para se armar no exercício da crítica; pela Sociologia para saber como os humanos vivem em grupos sociais e pela antropologia para saber o mínimo sobre o bicho complicado que é o ser humano.
Mas, tem uma coisa que o bicho militante de esquerda faz questão de colocar em primeiro plano; a História.
Como pertencente a este grupo, ou espécie humana, fui tendo a boca entortada pelo cachimbo da História, até me defrontar com o livro escrito por Jorge Carvalho: "Memórias da Resistência"; com direito a recebê-lo de presente, autografado e com dedicatória.
Foi uma sacudida das boas, tipo; Ôxente Cabra, cadê sua memória? Pois bem, minha memória me remete ao início dos anos 50, quando moleque buchudo, não abria mão de juntar meus trocados para comprar Pão Doce Mão de Onça.
O imenso prazer era saboreá-lo aos tiquinhos, demorando ao máximo para chegar ao fim do deguste daquela iguaria dos deuses que só a Padaria São Sebastião fazia e o velho Expedito vendia em seu balaio cujo cheiro atiçava nossas narinas bem antes dele chegar.
No estalo veio a conclusão óbvia; o livro do professor Jorge Carvalho é o meu Pão Doce daquelas tardes, que estou saboreando aos poucos, por imposição da memória, para tomar consciência de que estava ficando abestado em só recorrer à história.
Êpa! Quer dizer que a História não é importante? Nada disso; a História continua com seu papel de ser Mapas Náuticos e Geográficos que traçam os caminhos por onde a humanidade deve seguir. Só que, só serão confiáveis se forem os registros fiéis das Memórias.
Vejamos, a História política de Sergipe é trazida por Jorge no resgate de fatos memoráveis, sem os quais, a História, com certeza, não valeria a pena ser contada. E, que fique claro para os afoitos sujeitos e atores do novo teatro de operações da política, tratada como neo-capitania e neo-sesmaria, o que foi resistir e enfrentar uma ditadura militar voraz em prender, torturar e matar; em nome da Democracia, que fora sua primeira vítima.
Djavan foi antológico ao nos brindar com: "Sabe lá, o que é não ter e ter que ter pra dar?" Penso ser este o grande enigma do Governo do Estado que nada mais é do que um fruto do que está nas Memórias da Resistência.
Quando vim parar por aqui para trabalhar e recuperar o fôlego ante as perseguições já trazia no matulão o eco da voz cortante do Deputado pelo MDB do Paraná, Alencar Furtado, no Programa Nacional do MDB, em noite memorável, cortando a carne dos opressores: "Viúvas dos quem sabe e dos talvez".
O facão do ditador de plantão ceifou sua cabeça no outro dia, mas, aquela voz metálica, ainda deve causar pesadelos nos golpistas de hoje.
Sabe-se lá, o que foi o Diretório do MDB de Sergipe se negar a se dissolver conforme determinou um decreto ditatorial e ainda por cima emitir uma Nota de Solidariedade aos Deputados cassados e denunciar as arbitrariedades de suas cassações?
Na Memória da História pós 1964, quem pesquisar vai encontrar a coragem de um comerciante do interior, recém-estabelecido na capital, que abraçou a Utopia de um filho e jogou fichas grandes na construção de um partido de resistência ao terror que se instalava pelo país afora.
Personagens vivos dessa saga são bastante e cabe a eles tornarem vivas suas memórias. Mas, entre os que se foram, não tem como deixar em brancas nuvens e não reconhecer o heroísmo de Oviedo Teixeira, a persistência de José Carlos Teixeira e a coragem de Viana de Assis que mesmo sabendo que seria preso após discursar na Assembleia Legislativa, como de fato foi, falou com altivez e coragem e foi de cabeça erguida para os porões do Quartel do Exército.
Nestes tempos de ditadura política, midiática, jurídica e militarista, é dever de todos que lutam pelo Estado democrático de Direito não esquecerem e terem sempre na memória o terror da Operação Cajueiro em Sergipe. Os resgates memoriais dos depoimentos de velhos combatentes têm que ser transformados em chamas vivas contra ditaduras e guerra híbrida.
A maior jornada de terror foi a deflagração da Operação Cajueiro que prendeu vários dirigentes e militantes do MDB em 1976, todos com origens e atuações no partidão.
Como não há meia gravidez, também inexiste tortura branda e ditadura pela metade. As marcas deixadas são para sempre e a sociedade tem que carregar nas costas estas dívidas com os que sofreram violências.
Encerro meus simples e sinceros comentários sobre a oportuna e necessária obra do professor Jorge Carvalho homenageando, em nome de todos, Milton Coelho e Rosalvo Alexandre, com o compromisso de continuar lutando diuturnamente do lado certo da História.

* Rômulo Rodrigues é militante político