Chico Buarque incomoda muita gente

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Firme, forte e afiado, aos 75 anos
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Publicada em 16/09/2019 às 22:10:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O chanceler Ernesto 
Araújo não gosta 
de Chico Buarque, razão pela qual mexeu os pauzinhos e impediu a exibição de um documentário a respeito do sambista carioca, em evento a ser promovido com o apoio da embaixada brasileira no Uruguai. Esforço vão, a manobra contraria a razão de ser do próprio Itamaraty, com a missão de pronunciar os valores brasileiros no cenário internacional, cobrindo a instituição de vergonha. Mas não será suficiente para calar a voz e a enorme influência do artista, mundo afora.
Ernesto Araújo não gosta de Chico, mas muita gente boa gosta. Para tristeza dos reacionários, ele ainda é um dos sujeitos criativos mais relevantes do tempo presente, na música e na literatura, apesar de septuagenário. Agraciado com o prêmio Camões, exclusivo dos que dedicam o próprio gênio às exigências da inculta e bela, o artista ainda gravou um dos melhores álbuns dos últimos anos.
Quando o Rio era lindo - 'Caravanas' é um produto de outro tempo, quando todo mundo amava Chico Buarque e o Rio de Janeiro ainda era lindo. É um disco de ponteiros trocados. E, por isso mesmo, o lançamento mais oportuno e importante dos últimos anos.
Agora é tempo de submeter os desígnios insondáveis da criação a sensibilidades organizadas. Mesmo Chico Buarque, admitido até outro dia como um caso singular, único exemplar conhecido de um macho capaz de se colocar na pele de uma mulher, teve as orelhas puxadas pela patrulha feminista em função de um verso pinçado aleatoriamente de uma canção, à revelia do contexto. A turba anda agitada. Pobre de quem empregar uma vírgula sem pedir licença ao movimento.
'Caravanas', ao contrário, apresenta o mesmo Chico Buarque de sempre, um compositor obediente apenas às próprias premissas e à musicalidade de um espaço idílico, de lirismo profundamente identificado com um Rio ideal, repleto de tipos e paisagens. Os temas podem até variar, conforme o curso dos acontecimentos. Na superfície da canção, entretanto, floresce invariavelmente o sambista de sotaque carioca, o cronista do entorno, o amante desesperado. E, em todos estes, o poeta do prosaico, de olhar arguto e melodias suaves.
Chico Buarque é a prova viva de que a gente também pode viver na pele dos outros, experimentar experiências alheias, arriscar uns passos além do próprio umbigo. E foi por isso mesmo que 'Caravanas' virou alvo de dedos acusadores, apontados para a ousadia da subjetividade. Sinal dos tempos. E da necessidade, ainda mais agora, de um artista autêntico como Chico Buarque - firme e forte, e afiado, em todas as plataformas de streaming.

O chanceler Ernesto  Araújo não gosta  de Chico Buarque, razão pela qual mexeu os pauzinhos e impediu a exibição de um documentário a respeito do sambista carioca, em evento a ser promovido com o apoio da embaixada brasileira no Uruguai. Esforço vão, a manobra contraria a razão de ser do próprio Itamaraty, com a missão de pronunciar os valores brasileiros no cenário internacional, cobrindo a instituição de vergonha. Mas não será suficiente para calar a voz e a enorme influência do artista, mundo afora.
Ernesto Araújo não gosta de Chico, mas muita gente boa gosta. Para tristeza dos reacionários, ele ainda é um dos sujeitos criativos mais relevantes do tempo presente, na música e na literatura, apesar de septuagenário. Agraciado com o prêmio Camões, exclusivo dos que dedicam o próprio gênio às exigências da inculta e bela, o artista ainda gravou um dos melhores álbuns dos últimos anos.

Quando o Rio era lindo - 'Caravanas' é um produto de outro tempo, quando todo mundo amava Chico Buarque e o Rio de Janeiro ainda era lindo. É um disco de ponteiros trocados. E, por isso mesmo, o lançamento mais oportuno e importante dos últimos anos.
Agora é tempo de submeter os desígnios insondáveis da criação a sensibilidades organizadas. Mesmo Chico Buarque, admitido até outro dia como um caso singular, único exemplar conhecido de um macho capaz de se colocar na pele de uma mulher, teve as orelhas puxadas pela patrulha feminista em função de um verso pinçado aleatoriamente de uma canção, à revelia do contexto. A turba anda agitada. Pobre de quem empregar uma vírgula sem pedir licença ao movimento.
'Caravanas', ao contrário, apresenta o mesmo Chico Buarque de sempre, um compositor obediente apenas às próprias premissas e à musicalidade de um espaço idílico, de lirismo profundamente identificado com um Rio ideal, repleto de tipos e paisagens. Os temas podem até variar, conforme o curso dos acontecimentos. Na superfície da canção, entretanto, floresce invariavelmente o sambista de sotaque carioca, o cronista do entorno, o amante desesperado. E, em todos estes, o poeta do prosaico, de olhar arguto e melodias suaves.
Chico Buarque é a prova viva de que a gente também pode viver na pele dos outros, experimentar experiências alheias, arriscar uns passos além do próprio umbigo. E foi por isso mesmo que 'Caravanas' virou alvo de dedos acusadores, apontados para a ousadia da subjetividade. Sinal dos tempos. E da necessidade, ainda mais agora, de um artista autêntico como Chico Buarque - firme e forte, e afiado, em todas as plataformas de streaming.