A paixão segundo Bia Ferreira

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Palavra da salvação
Palavra da salvação

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Publicada em 13/09/2019 às 22:49:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Jamais escondi a falta 
de paciência com o 
discurso identitário corrente, muito higiênico e homogêneo. Mas Bia Ferreira é um ponto fora da curva. Embora o recorte objetivo de suas composições não seja o mais original, restrito a uma oportuna declaração de guerra ao inimigo de sempre (o machismo branco, heteronormativo, neopetencostal, bem aquinhoado, a quintessência do tal patriarcado), as canções reunidas em 'Igreja lesbiteriana - Um chamado', são dotadas de uma força invulgar, merecem toda a atenção do mundo.
Boa parte do repertório já é bastante conhecida, foi divulgada em shows e singles, com grande repercussão, a ponto de chegar aos ouvidos atentos do mano Caetano Veloso. 'Brilha minha guia', a faixa de abertura, cantada a capela, no entanto, vale sozinha por muito disco cheio. Declamados em tom aguerrido, os versos da moça evocam santidades e provocam arrepios.
'Igreja lesbiteriana' cumpre a promessa realizada lá atrás, desde quando Bia Ferreira resolveu soltar a voz e jogar o corpo no mundo. Não bastasse a potência da voz, a poesia de inflexão militante, conhecidas desde o primeiro momento, o álbum ainda transborda o calor próprio dos metais, tem groove, balanço e frescor suficientes para furar a bolha onde a suas palavras chovem no molhado.
Digo e repito: não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o primeiro hit da moça; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça nublada de  privilégios pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Ontem, 13 de setembro, deveria ser lembrado como um dia histórico para a música brasileira. Além de Bia, Elza Soares e a pernambucana Céu jogaram novo discos na rede. Três pedradas, obra e graça de mulheres com história de vida diversas, irmanadas na teimosia de abrir a boca sem pedir licença a ninguém.

Jamais escondi a falta  de paciência com o  discurso identitário corrente, muito higiênico e homogêneo. Mas Bia Ferreira é um ponto fora da curva. Embora o recorte objetivo de suas composições não seja o mais original, restrito a uma oportuna declaração de guerra ao inimigo de sempre (o machismo branco, heteronormativo, neopetencostal, bem aquinhoado, a quintessência do tal patriarcado), as canções reunidas em 'Igreja lesbiteriana - Um chamado', são dotadas de uma força invulgar, merecem toda a atenção do mundo.
Boa parte do repertório já é bastante conhecida, foi divulgada em shows e singles, com grande repercussão, a ponto de chegar aos ouvidos atentos do mano Caetano Veloso. 'Brilha minha guia', a faixa de abertura, cantada a capela, no entanto, vale sozinha por muito disco cheio. Declamados em tom aguerrido, os versos da moça evocam santidades e provocam arrepios.
'Igreja lesbiteriana' cumpre a promessa realizada lá atrás, desde quando Bia Ferreira resolveu soltar a voz e jogar o corpo no mundo. Não bastasse a potência da voz, a poesia de inflexão militante, conhecidas desde o primeiro momento, o álbum ainda transborda o calor próprio dos metais, tem groove, balanço e frescor suficientes para furar a bolha onde a suas palavras chovem no molhado.
Digo e repito: não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o primeiro hit da moça; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça nublada de  privilégios pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Ontem, 13 de setembro, deveria ser lembrado como um dia histórico para a música brasileira. Além de Bia, Elza Soares e a pernambucana Céu jogaram novo discos na rede. Três pedradas, obra e graça de mulheres com história de vida diversas, irmanadas na teimosia de abrir a boca sem pedir licença a ninguém.