Precisamos criar uma burguesia brasileira

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Publicada em 12/09/2019 às 23:04:00

 

* Gilberto Maringoni (jornal GGN)
A burguesia brasileira é uma invenção de Vargas, que incentivou o uso do excedente cafeeiro em 1930-33 para o investimento em manufaturas que garantiriam a rentabilidade da atrasada oligarquia cafeeira paulista. Mas não se tratava de mero favorecimento.
Celso Furtado - em Formação Econômica do Brasil - detalha como o governo se valeu da política de valorização do café para criar uma poderosa política anticiclica que recuperou a economia brasileira já em 1933. Foi um keynesianismo antes de Keynes. Trata-se de uma página em que o Brasil deu ao mundo lição de ousadia. Os EUA só sairiam da grande depressão em 1940, graças ao esforço de guerra.
Pois esta classe, criada a partir do Estado e dele eternamente dependente, arrumou em nosso país uma ideologia liberal postiça para chamar de sua. Seus grandes formuladores não provinham da indústria, mas eram quadros vinculados desde cedo ao capital financeiro ou à economia agrária, como o pioneiro deles, Eugênio Gudin.
A burguesia brasileira é assim um experimento de proveta, fruto do big push (Rosenstein-Rodan) do nacional-desenvolvimentismo. Tirando alguns ideólogos, como Roberto Simonsen, Reis Velloso e Delfim Neto, nunca gerou pensamento econômico original e nunca defendeu abertamente o que seriam seus interesses de classe. (Tá bom, pregava pau nos de baixo, o que é noblesse oblige de barão do café). Nunca os defendeu por nunca ter completado sua constituição como classe.
A apropriação do neoliberalismo pela burguesia brasileira é das maiores aberrações histórico-sociológicas do século XX. O esboço dessa apreensão se dá no primeiro governo Vargas (1930-45) e se completa na gestão FHC. Ao se contrapor ao primeiro e aderir idiotamente ao segundo, a burguesia nativa demonstra seu caráter artificial e efêmero. O governo Bolsonaro completa como farsa a transição desse arremedo de classe em lumpesinato financeiro, mais interessado em vender seus negócios e viver da vadiagem rentista.
Uma das primeiras tarefas de um governo verdadeiramente de esquerda no Brasil deve ser a recriação de uma burguesia brasileira.
Dessa vez, a nova classe deve ser mantida com rédea curta e cumprir pelo menos parte de seu papel histórico no desenvolvimento.
Delírio? De forma alguma. É o que a China vem fazendo, com pleno êxito até aqui.
(A partir de várias conversas com Artur Araújo)
* Gilberto Maringoni de Oliveira é jornalista, cartunista e professor. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

* Gilberto Maringoni (jornal GGN)

A burguesia brasileira é uma invenção de Vargas, que incentivou o uso do excedente cafeeiro em 1930-33 para o investimento em manufaturas que garantiriam a rentabilidade da atrasada oligarquia cafeeira paulista. Mas não se tratava de mero favorecimento.
Celso Furtado - em Formação Econômica do Brasil - detalha como o governo se valeu da política de valorização do café para criar uma poderosa política anticiclica que recuperou a economia brasileira já em 1933. Foi um keynesianismo antes de Keynes. Trata-se de uma página em que o Brasil deu ao mundo lição de ousadia. Os EUA só sairiam da grande depressão em 1940, graças ao esforço de guerra.
Pois esta classe, criada a partir do Estado e dele eternamente dependente, arrumou em nosso país uma ideologia liberal postiça para chamar de sua. Seus grandes formuladores não provinham da indústria, mas eram quadros vinculados desde cedo ao capital financeiro ou à economia agrária, como o pioneiro deles, Eugênio Gudin.
A burguesia brasileira é assim um experimento de proveta, fruto do big push (Rosenstein-Rodan) do nacional-desenvolvimentismo. Tirando alguns ideólogos, como Roberto Simonsen, Reis Velloso e Delfim Neto, nunca gerou pensamento econômico original e nunca defendeu abertamente o que seriam seus interesses de classe. (Tá bom, pregava pau nos de baixo, o que é noblesse oblige de barão do café). Nunca os defendeu por nunca ter completado sua constituição como classe.
A apropriação do neoliberalismo pela burguesia brasileira é das maiores aberrações histórico-sociológicas do século XX. O esboço dessa apreensão se dá no primeiro governo Vargas (1930-45) e se completa na gestão FHC. Ao se contrapor ao primeiro e aderir idiotamente ao segundo, a burguesia nativa demonstra seu caráter artificial e efêmero. O governo Bolsonaro completa como farsa a transição desse arremedo de classe em lumpesinato financeiro, mais interessado em vender seus negócios e viver da vadiagem rentista.
Uma das primeiras tarefas de um governo verdadeiramente de esquerda no Brasil deve ser a recriação de uma burguesia brasileira.
Dessa vez, a nova classe deve ser mantida com rédea curta e cumprir pelo menos parte de seu papel histórico no desenvolvimento.
Delírio? De forma alguma. É o que a China vem fazendo, com pleno êxito até aqui.
(A partir de várias conversas com Artur Araújo)

* Gilberto Maringoni de Oliveira é jornalista, cartunista e professor. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.