FEC: música contra o chumbo da ditadura - VI

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Publicada em 12/09/2019 às 23:03:00

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Era 1963. Após a Folha Trabalhista sali
entar aos grêmios estudantis o direito à 
meia entrada nos cinemas - enquanto valorizava a conquista do benefício no Cinema São João - ao mesmo tempo incentivava a ida às ruas para conseguir, do luxuoso Cine Gonçalo Prado, o mesmo direito que até então não atendia. Na semana seguinte informava o Diretório Gumercindo Bessa, da ETCE, que já havia enviado ofício à diretoria da "Fundação de Educação e Cultura", do qual fazia parte o aludido cinema "solicitando daquele presidente o cumprimento da portaria da COAP". No entanto, para infelicidade dos estudantes a mesma COAP (Comissão de Abastecimento e Preços) de Sergipe baixaria uma "famigerada portaria" regulamentando a meia entrada apenas para cinemas com fins lucrativos, "justamente quando os estudantes da Estância estão lutando com aquele cinema". 
Em reposta, segundo ainda a Folha, diria a diretoria que a fundação era "mantenedora de quatro ou cinco escolinhas" e o que se arrecadava do cinema 'mal dar para manter as mesmas'. O colunista Antônio Silveira Dias (conhecido como Silveira, preso pela ditadura que se instalaria em 1º de abril de 1964, como já dissemos), do próprio jornal repudiava a portaria achando que teria "sido encomendada pelo Gonçalo Prado, para defender os seus privilégios". Não resta dúvida que Silveira estivesse se referindo à própria empresa de cinema denominada Centro Educativo Gonçalo Prado e não à pessoa Gonçalo Rolemberg do Prado, o poderoso empresário sergipano, que fora dono das Usinas Pedras (Maruim) e Oiteirinhos (Japaratuba). Esse empresário ainda integraria o antigo Banco Mercantil Sergipense e se tornaria um dos diretores da Companhia Industrial da Estância. Era proprietário de fazendas em Sergipe e Bahia, além de ser influente na política. Gonçalo Prado foi sogro do Senador Júlio César Leite e já havia falecido, em 1957. Assim, o cinema não adotaria a meia entrada por fazer parte da citada fundação. Uma pena, o cine em questão era um dos que apresentava os melhores filmes e que, de acordo com o livro Sombras da Saudade - A história dos cinemas da cidade de Estância, de Carlos Modesto, "foi o melhor salão de projeções das sombras da cidade".
Enquanto a classe média buscava o direito ao entretenimento, grande parte da pobreza sofria com a fome, o analfabetismo e as doenças. No início de 1960 estudos mostraram que o rio Piauitinga havia se tornado ambiente de verminoses. Dos 51 focos de esquistossomose encontrados na cidade o Piauitinga era apontado como "o mais perigoso" e se constituía em permanente perigo à saúde. O rio, antes decantado nas poesias, agora, de forma triste, começava a passar distante das escritas dos poetas. Segundo anotara o médico Paulo Amaral, chefe da equipe, um dos motivos seria a sujeira fecal. Mas também não descartamos a presença dos esgotos e, principalmente, dos dejetos despejados das fábricas. Foi um importante diagnóstico, todavia, sem constar qualquer tratamento. Daí a juventude evitava tomar banho em seus famosos poços e começavam a se dirigir ao Crasto, e à praia do Abaís, mesmo sem estrada pronta. 
Com sua quase-morte detectada há 60 anos o rio Piauitinga passaria a ser saudade. Saudade que fomentava textos de escritores de reminiscências, que lacrimejantes, relembravam dos banhos e das suas águas cristalinas. Talvez nos dias atuais o rio passe a constar na poesia de algum poeta, quem sabe apenas em tom de protesto. Excluído de qualquer debate ou estudo político sério à cerca da sua revitalização - muito menos algo dessa natureza advinda de escopo empresarial - o Piauitinga vai dando adeus! De fato, o rio de água doce recebe em seu leito diversos esgotamentos residenciais e industriais que há décadas infestam antigos riachos ou fontes de água potável, que num passado não muito distante abastecia a própria cidade. Tudo é muito deprimente. É algo deplorável!
No final de novembro de 1965 os militares decretam o AI-2 (Ato Institucional nº 2) determinando, dentre outros, o fim dos partidos políticos, novas cassações de mandatos e eleição indireta para presidente da república. Delegava ainda poderes ao presidente para baixar "Atos complementares". Assim, uma nova determinação presidencial faria os partidos existentes no Brasil como PTB, PSD, UDN, PSD, PR etc., virar apenas dois: ARENA e MDB. Isso ocasionou a "união" de certos inimigos partidários. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi para a clandestinidade. Os dois partidos legalizados ficariam aos "cuidados" dos militares. Não tinha nada a ver com oposição.
Com o MDB chegava ao poder, em Estância, no ano de 1967, Raimundo Silveira Souza (Seu Raimundinho), tornando-se prefeito da cidade. Era dono de cartório e empresário bem sucedido, proprietário da Fábrica de Charutos Walkyria, que então passava a exportar seus charutos para países americanos e europeus (no referido ano havia exportado mais de 300 mil charutos para os Estados Unidos e a Suécia). 
No dia 30 de março daquele ano, em seu discurso de posse, garantia que daria a "Estância uma administração dinâmica e progressista, devotada ao soerguimento material e cultural". De fato, esse prefeito iria realizar muitas transformações na cidade, fazendo surgir novas ruas, inclusive obras reclamadas há décadas pelo povo, como água encanada e a estrada dos Abaís, além de dar cara nova ao Bairro Bomfim, abandonado há muitos anos. Seu Raimundinho também atualizaria o salário dos servidores que na época sofria com atraso de dois meses.
Enquanto isso os estudantes se movimentavam. Ao se encontrarem fechadas as bibliotecas, nos meados de 1967, através dos seus diretórios, conseguiriam reabri-las. Para isso se propuseram a fazer um acordo com a prefeitura e a direção da Fábrica Santa Cruz (dona da Biblioteca União Têxtil) em manter as duas bibliotecas constantemente abertas sob suas responsabilidades. Tudo indica que o acordo fora firmado dessa forma. (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Era 1963. Após a Folha Trabalhista sali entar aos grêmios estudantis o direito à  meia entrada nos cinemas - enquanto valorizava a conquista do benefício no Cinema São João - ao mesmo tempo incentivava a ida às ruas para conseguir, do luxuoso Cine Gonçalo Prado, o mesmo direito que até então não atendia. Na semana seguinte informava o Diretório Gumercindo Bessa, da ETCE, que já havia enviado ofício à diretoria da "Fundação de Educação e Cultura", do qual fazia parte o aludido cinema "solicitando daquele presidente o cumprimento da portaria da COAP". No entanto, para infelicidade dos estudantes a mesma COAP (Comissão de Abastecimento e Preços) de Sergipe baixaria uma "famigerada portaria" regulamentando a meia entrada apenas para cinemas com fins lucrativos, "justamente quando os estudantes da Estância estão lutando com aquele cinema". 
Em reposta, segundo ainda a Folha, diria a diretoria que a fundação era "mantenedora de quatro ou cinco escolinhas" e o que se arrecadava do cinema 'mal dar para manter as mesmas'. O colunista Antônio Silveira Dias (conhecido como Silveira, preso pela ditadura que se instalaria em 1º de abril de 1964, como já dissemos), do próprio jornal repudiava a portaria achando que teria "sido encomendada pelo Gonçalo Prado, para defender os seus privilégios". Não resta dúvida que Silveira estivesse se referindo à própria empresa de cinema denominada Centro Educativo Gonçalo Prado e não à pessoa Gonçalo Rolemberg do Prado, o poderoso empresário sergipano, que fora dono das Usinas Pedras (Maruim) e Oiteirinhos (Japaratuba). Esse empresário ainda integraria o antigo Banco Mercantil Sergipense e se tornaria um dos diretores da Companhia Industrial da Estância. Era proprietário de fazendas em Sergipe e Bahia, além de ser influente na política. Gonçalo Prado foi sogro do Senador Júlio César Leite e já havia falecido, em 1957. Assim, o cinema não adotaria a meia entrada por fazer parte da citada fundação. Uma pena, o cine em questão era um dos que apresentava os melhores filmes e que, de acordo com o livro Sombras da Saudade - A história dos cinemas da cidade de Estância, de Carlos Modesto, "foi o melhor salão de projeções das sombras da cidade".
Enquanto a classe média buscava o direito ao entretenimento, grande parte da pobreza sofria com a fome, o analfabetismo e as doenças. No início de 1960 estudos mostraram que o rio Piauitinga havia se tornado ambiente de verminoses. Dos 51 focos de esquistossomose encontrados na cidade o Piauitinga era apontado como "o mais perigoso" e se constituía em permanente perigo à saúde. O rio, antes decantado nas poesias, agora, de forma triste, começava a passar distante das escritas dos poetas. Segundo anotara o médico Paulo Amaral, chefe da equipe, um dos motivos seria a sujeira fecal. Mas também não descartamos a presença dos esgotos e, principalmente, dos dejetos despejados das fábricas. Foi um importante diagnóstico, todavia, sem constar qualquer tratamento. Daí a juventude evitava tomar banho em seus famosos poços e começavam a se dirigir ao Crasto, e à praia do Abaís, mesmo sem estrada pronta. 
Com sua quase-morte detectada há 60 anos o rio Piauitinga passaria a ser saudade. Saudade que fomentava textos de escritores de reminiscências, que lacrimejantes, relembravam dos banhos e das suas águas cristalinas. Talvez nos dias atuais o rio passe a constar na poesia de algum poeta, quem sabe apenas em tom de protesto. Excluído de qualquer debate ou estudo político sério à cerca da sua revitalização - muito menos algo dessa natureza advinda de escopo empresarial - o Piauitinga vai dando adeus! De fato, o rio de água doce recebe em seu leito diversos esgotamentos residenciais e industriais que há décadas infestam antigos riachos ou fontes de água potável, que num passado não muito distante abastecia a própria cidade. Tudo é muito deprimente. É algo deplorável!
No final de novembro de 1965 os militares decretam o AI-2 (Ato Institucional nº 2) determinando, dentre outros, o fim dos partidos políticos, novas cassações de mandatos e eleição indireta para presidente da república. Delegava ainda poderes ao presidente para baixar "Atos complementares". Assim, uma nova determinação presidencial faria os partidos existentes no Brasil como PTB, PSD, UDN, PSD, PR etc., virar apenas dois: ARENA e MDB. Isso ocasionou a "união" de certos inimigos partidários. O PCB (Partido Comunista Brasileiro) foi para a clandestinidade. Os dois partidos legalizados ficariam aos "cuidados" dos militares. Não tinha nada a ver com oposição.
Com o MDB chegava ao poder, em Estância, no ano de 1967, Raimundo Silveira Souza (Seu Raimundinho), tornando-se prefeito da cidade. Era dono de cartório e empresário bem sucedido, proprietário da Fábrica de Charutos Walkyria, que então passava a exportar seus charutos para países americanos e europeus (no referido ano havia exportado mais de 300 mil charutos para os Estados Unidos e a Suécia). 
No dia 30 de março daquele ano, em seu discurso de posse, garantia que daria a "Estância uma administração dinâmica e progressista, devotada ao soerguimento material e cultural". De fato, esse prefeito iria realizar muitas transformações na cidade, fazendo surgir novas ruas, inclusive obras reclamadas há décadas pelo povo, como água encanada e a estrada dos Abaís, além de dar cara nova ao Bairro Bomfim, abandonado há muitos anos. Seu Raimundinho também atualizaria o salário dos servidores que na época sofria com atraso de dois meses.
Enquanto isso os estudantes se movimentavam. Ao se encontrarem fechadas as bibliotecas, nos meados de 1967, através dos seus diretórios, conseguiriam reabri-las. Para isso se propuseram a fazer um acordo com a prefeitura e a direção da Fábrica Santa Cruz (dona da Biblioteca União Têxtil) em manter as duas bibliotecas constantemente abertas sob suas responsabilidades. Tudo indica que o acordo fora firmado dessa forma. (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância