O tamanduá cego e o cuidado de Deus

Opinião

 

* Antonio Passos
Tenho uma neta ainda criança. Ela não é minha descendente biológica e mora longe, mas, carinhosamente me chama de vovô. Trata-se de uma longa história que não cabe aqui ser contada. Apresentarei apenas um breve esboço para situar a relação.
Por volta dos meus vinte anos de idade, tive a oportunidade de exercer uma paternidade emprestada a duas crianças, por alguns anos. Depois elas foram levadas para morar no sudeste do país e passamos um longo tempo quase sem contato algum. Mais recentemente nos reencontramos e uma daquelas crianças com as quais convivi como pai, tornou-se pai de uma bela menina. É essa garotinha quem me chama de vovô.
No desdobramento do reencontro tive a oportunidade de recebê-los para um final de semana aqui em Aracaju. Na Atalaia eu e minha neta fomos tomar banho de mar. No caminho até a água vimos garrafas de plástico e outros lixos pela areia. Já entre um mergulho e outro uma bolsa plástica flutuante encalhou na cabeça de um de nós. Fiz então um comentário lamentando a terrível poluição que afoga o mar. Sorridente, minha gentil netinha procurou me tranquilizar. Disse ela: - Não se preocupe, vovô. Jeová cuida do mar.
Lá pras bandas de São Paulo eles aderiram a uma religião evangélica. Há algumas décadas, aqui em Sergipe, essas religiões cristãs não católicas eram chamadas de protestantes. Hoje, não ouço mais ninguém usar aquela antiga designação, como se, no lugar de enfatizar a origem de oposição e protesto contra o catolicismo, o mais importante tornou-se destacar a fidelidade aos evangelhos. Curioso é que, pela minha distanciada percepção, grande parte das religiões evangélicas parecem muito mais focadas nas tradições e escritos anteriores a Cristo. Bom, mas esse também é outro assunto que não vem ao caso.
O que me chamou a atenção foi a firmeza da fé daquela criança - educada no meio evangélico - na necessária intervenção de Deus nas coisas da terra. Para ela, não importa a poluição causada pela humanidade, pois, quando julgar oportuno, Jeová tudo resolverá.
Lembrando aquele episódio, fico agora pensado no que terá dito a minha netinha ao ver nas redes sociais a imagem desesperadora do tamanduá cego fugindo da floresta amazônica em chamas…
Também com o pai da minha neta puxei alguns papos sobre poluição e outras ações deliberadas das sociedades ou daqueles que as governam, o que pode ser chamado de política. Porém, as conversas não evoluíram, pois, argumentou ele, em decorrência da orientação religiosa que seguem, esses assuntos não são do interesse dele.
Logo após terem vindo à Aracaju, isso faz uns três anos, o pai da minha neta passou a engordar a estatística do desemprego. Como não conseguiu mais uma renda fixa, de lá para cá, ele e a família restaram desanimados com o Brasil. Contudo, a situação não é das piores. Um parente migrou para Portugal faz alguns anos e os convenceu a fazer o mesmo. Estão vendendo todas as coisas que têm e pretendem, ainda este ano, atravessar o atlântico em busca de dias melhores.
Durante um tempo no qual o ateísmo declarado se expandiu nos debates das sociedades ocidentais, teóricos da fé diziam que a necessidade da crença em Deus residia no fato de que sem Ele tudo seria permitido à humanidade. A necessidade da fé era defendida como um freio moral, divino, contra a maldade humana.
Vejo que agora, a julgar pelas conversas que tive com minha neta e com o pai dela, vigora uma nova orientação religiosa. Parece não mais haver preocupação com as maldades, sobretudo com aquelas praticadas em grande escala. Pode-se consumir e poluir o mar e terra até a exaustão, pode-se corroer o equilíbrio social com a finalidade de promover a acumulação restrita de riquezas, pode-se tocar fogo nas florestas e queimar os animais ainda vivos, pode-se pregar e incentivar o uso da força e a violência generalizadas, pode-se envenenar toda a natureza e a alimentação humana… Nada disso deve ser visto como um problema, pois, quando necessário, Jeová cuidará de tudo.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Tenho uma neta ainda criança. Ela não é minha descendente biológica e mora longe, mas, carinhosamente me chama de vovô. Trata-se de uma longa história que não cabe aqui ser contada. Apresentarei apenas um breve esboço para situar a relação.
Por volta dos meus vinte anos de idade, tive a oportunidade de exercer uma paternidade emprestada a duas crianças, por alguns anos. Depois elas foram levadas para morar no sudeste do país e passamos um longo tempo quase sem contato algum. Mais recentemente nos reencontramos e uma daquelas crianças com as quais convivi como pai, tornou-se pai de uma bela menina. É essa garotinha quem me chama de vovô.
No desdobramento do reencontro tive a oportunidade de recebê-los para um final de semana aqui em Aracaju. Na Atalaia eu e minha neta fomos tomar banho de mar. No caminho até a água vimos garrafas de plástico e outros lixos pela areia. Já entre um mergulho e outro uma bolsa plástica flutuante encalhou na cabeça de um de nós. Fiz então um comentário lamentando a terrível poluição que afoga o mar. Sorridente, minha gentil netinha procurou me tranquilizar. Disse ela: - Não se preocupe, vovô. Jeová cuida do mar.
Lá pras bandas de São Paulo eles aderiram a uma religião evangélica. Há algumas décadas, aqui em Sergipe, essas religiões cristãs não católicas eram chamadas de protestantes. Hoje, não ouço mais ninguém usar aquela antiga designação, como se, no lugar de enfatizar a origem de oposição e protesto contra o catolicismo, o mais importante tornou-se destacar a fidelidade aos evangelhos. Curioso é que, pela minha distanciada percepção, grande parte das religiões evangélicas parecem muito mais focadas nas tradições e escritos anteriores a Cristo. Bom, mas esse também é outro assunto que não vem ao caso.
O que me chamou a atenção foi a firmeza da fé daquela criança - educada no meio evangélico - na necessária intervenção de Deus nas coisas da terra. Para ela, não importa a poluição causada pela humanidade, pois, quando julgar oportuno, Jeová tudo resolverá.
Lembrando aquele episódio, fico agora pensado no que terá dito a minha netinha ao ver nas redes sociais a imagem desesperadora do tamanduá cego fugindo da floresta amazônica em chamas…
Também com o pai da minha neta puxei alguns papos sobre poluição e outras ações deliberadas das sociedades ou daqueles que as governam, o que pode ser chamado de política. Porém, as conversas não evoluíram, pois, argumentou ele, em decorrência da orientação religiosa que seguem, esses assuntos não são do interesse dele.
Logo após terem vindo à Aracaju, isso faz uns três anos, o pai da minha neta passou a engordar a estatística do desemprego. Como não conseguiu mais uma renda fixa, de lá para cá, ele e a família restaram desanimados com o Brasil. Contudo, a situação não é das piores. Um parente migrou para Portugal faz alguns anos e os convenceu a fazer o mesmo. Estão vendendo todas as coisas que têm e pretendem, ainda este ano, atravessar o atlântico em busca de dias melhores.
Durante um tempo no qual o ateísmo declarado se expandiu nos debates das sociedades ocidentais, teóricos da fé diziam que a necessidade da crença em Deus residia no fato de que sem Ele tudo seria permitido à humanidade. A necessidade da fé era defendida como um freio moral, divino, contra a maldade humana.
Vejo que agora, a julgar pelas conversas que tive com minha neta e com o pai dela, vigora uma nova orientação religiosa. Parece não mais haver preocupação com as maldades, sobretudo com aquelas praticadas em grande escala. Pode-se consumir e poluir o mar e terra até a exaustão, pode-se corroer o equilíbrio social com a finalidade de promover a acumulação restrita de riquezas, pode-se tocar fogo nas florestas e queimar os animais ainda vivos, pode-se pregar e incentivar o uso da força e a violência generalizadas, pode-se envenenar toda a natureza e a alimentação humana… Nada disso deve ser visto como um problema, pois, quando necessário, Jeová cuidará de tudo.

* Antonio Passos é jornalista

 


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