A solidão e a angústia da velhice

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Publicada em 17/08/2019 às 16:30:00

 

*Rangel Alves da Costa
Já dizia o velho pensador que a infância faz correr, a adolescência faz apressar, a idade adulta faz caminhar e a velhice faz ir devagar. Mas a vagareza da idade, da velhice que chega, nem sempre garante a movimentação, ainda que de modo muito curto e lento.
Tantas vezes, por fraqueza óssea, por problemas os mais diversos possíveis e tão propensos ao surgimento quando a velhice chega, o idoso se prostra de vez, cessa para sempre seu caminhar. As pernas não têm mais forças, os passos não mais conseguem sair do lugar.
Daí em diante, numa cama ou de cadeira de rodas, geralmente fica entregue ao forçoso recolhimento, com o mundo lá fora e ele amargando a dolorosa permanência entre quatro paredes, muitas vezes numa sala fria, num quarto escuro ou no mais sofrível esquecimento.
O neto vai e vem, passa apressado, começa a correr, e o idoso apenas no seu cantinho, sem ser percebido, sem ter nenhuma importância sequer como moldura velha. Os filhos chegam, entram e saem, dizem qualquer coisa, mas não têm tempo para a palavra carinhosa, para o afago.
Mas nem tudo é esquecimento. De vez em quando uma olhada naquela direção, uma pergunta para saber se está precisando de alguma coisa, se está sentindo alguma indisposição. Contudo, apenas protocolos, apenas o mesmo de sempre, sem nada que seja com maior calor, maior proximidade, que seja mais cativante.
Noutros tempos, quando o jardim florescia diante de seu olhar e do muro avistava pessoas, conversava com vizinhos, sentia o mundo ao redor e a vida acontecer, tudo era muito diferente. Não está distante do jardim nem do muro, não está longe da rua e das pessoas que por ela passam, mas é como se uma ilha fosse o seu lar e o adiante a impossível fronteira de ser ultrapassada.
Conhecia vizinhos, mantinha amizade com pessoas das proximidades, recorda de uma gorda, lembra de uma magra, não pode esquecer a fofoqueira de janela e muro. O mesmo gato passava miando pelo mesmo lugar, o cachorro em busca do sombreado do entardecer. Tantos velhos amigos, e talvez tão próximos e tão distantes companheiros de outras jornadas.
Talvez muitos já não existam mais. Alguns já tinham sua idade ou mais. Não sabe se continuam vivos ou se foram rezar suas ladainhas lá pelos lados do céu. Também não faz muita diferença continuar existindo, respirando a vida, mas tendo de viver no aprisionamento de quatro paredes, sem poder sequer caminhar até a janela para receber o primeiro sol da manhã.
Que cruel é o tempo. Terrível é a velhice sem que possa ser vivida nas suas últimas forças. O calendário amarela e continua indo adiante, o relógio envelhece e continua seguindo seu passo, tudo passa, segue, vai, mas nem toda velhice consegue se mover de seu destino final. E o pior é ter ainda mente para reconhecer que ali está seu agora e seu amanhã, e que dali somente sairá quando a noite mais escura chegar.
Ouve o mundo lá fora, a vida é barulhenta, principalmente com a meninada que grita, brinca, se dana de canto a outro. Como gostaria de encontrar ao menos uma fresta para avistá-los assim tão felizes, tão cheios de vida. Mas não, pois consegue somente lançar o olhar cansado ao redor para avistar o velho retrato na parede.
Como queria ser novamente menino. E o mais traquina que pudesse existir. Mergulhar na poça de lama, tomar banho de biqueira em dias de chuva grande, afanar goiaba e fruta boa do quintal do vizinho, esconder a calcinha vermelha secando no varal. Viver a meninice em sua plenitude. E sem jamais pensar na velhice.
Que antítese de tudo é essa fase da vida! As boas palavras chegando apenas para consolar. Os olhares espantosos até pela continuada presença. Ora, o velho - perante muitos - é de quase inexistência. Não falam quando reencontram, mas sempre querem perguntar: mas ainda tá vivo? Triste que assim aconteça, mas assim acontece.
E o viver de pensamentos, memórias e recordações, é experimentar uma terrível dor a cada momento. Contudo, nada a fazer senão reabrir os velhos livros, os velhos baús, os relicários do passado. E assim porque, a partir dessa idade, a experiência maior no presente é reencontrar o passado. E neste o prazer de ter amado um dia, de ter tanto amado aquela que ali repousa num quadro na parede.
Ali no quadro, na moldura antiga, de madeira de lei escurecida, um retrato e um sorriso. Dois sorrisos, um casal. Um chapéu panamá e um penteado forjado na brilhantina. Por cima do vidro empoeirado ainda se avista aquelas feições. E como queria que aquela boca se abrisse para dizer que venha.
Para dizer que venha. Venha que a morte não é ruim, eis que mais digna que uma existência na desvalia, no esquecimento. Então venha, pois aqui há um anjo esperando com uma canção e um Deus que já coloca flores à porta de sua morada. Então venha.
Uma lágrima se derrama cansada. Os olhos se fecham. E vai.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Já dizia o velho pensador que a infância faz correr, a adolescência faz apressar, a idade adulta faz caminhar e a velhice faz ir devagar. Mas a vagareza da idade, da velhice que chega, nem sempre garante a movimentação, ainda que de modo muito curto e lento.
Tantas vezes, por fraqueza óssea, por problemas os mais diversos possíveis e tão propensos ao surgimento quando a velhice chega, o idoso se prostra de vez, cessa para sempre seu caminhar. As pernas não têm mais forças, os passos não mais conseguem sair do lugar.
Daí em diante, numa cama ou de cadeira de rodas, geralmente fica entregue ao forçoso recolhimento, com o mundo lá fora e ele amargando a dolorosa permanência entre quatro paredes, muitas vezes numa sala fria, num quarto escuro ou no mais sofrível esquecimento.
O neto vai e vem, passa apressado, começa a correr, e o idoso apenas no seu cantinho, sem ser percebido, sem ter nenhuma importância sequer como moldura velha. Os filhos chegam, entram e saem, dizem qualquer coisa, mas não têm tempo para a palavra carinhosa, para o afago.
Mas nem tudo é esquecimento. De vez em quando uma olhada naquela direção, uma pergunta para saber se está precisando de alguma coisa, se está sentindo alguma indisposição. Contudo, apenas protocolos, apenas o mesmo de sempre, sem nada que seja com maior calor, maior proximidade, que seja mais cativante.
Noutros tempos, quando o jardim florescia diante de seu olhar e do muro avistava pessoas, conversava com vizinhos, sentia o mundo ao redor e a vida acontecer, tudo era muito diferente. Não está distante do jardim nem do muro, não está longe da rua e das pessoas que por ela passam, mas é como se uma ilha fosse o seu lar e o adiante a impossível fronteira de ser ultrapassada.
Conhecia vizinhos, mantinha amizade com pessoas das proximidades, recorda de uma gorda, lembra de uma magra, não pode esquecer a fofoqueira de janela e muro. O mesmo gato passava miando pelo mesmo lugar, o cachorro em busca do sombreado do entardecer. Tantos velhos amigos, e talvez tão próximos e tão distantes companheiros de outras jornadas.
Talvez muitos já não existam mais. Alguns já tinham sua idade ou mais. Não sabe se continuam vivos ou se foram rezar suas ladainhas lá pelos lados do céu. Também não faz muita diferença continuar existindo, respirando a vida, mas tendo de viver no aprisionamento de quatro paredes, sem poder sequer caminhar até a janela para receber o primeiro sol da manhã.
Que cruel é o tempo. Terrível é a velhice sem que possa ser vivida nas suas últimas forças. O calendário amarela e continua indo adiante, o relógio envelhece e continua seguindo seu passo, tudo passa, segue, vai, mas nem toda velhice consegue se mover de seu destino final. E o pior é ter ainda mente para reconhecer que ali está seu agora e seu amanhã, e que dali somente sairá quando a noite mais escura chegar.
Ouve o mundo lá fora, a vida é barulhenta, principalmente com a meninada que grita, brinca, se dana de canto a outro. Como gostaria de encontrar ao menos uma fresta para avistá-los assim tão felizes, tão cheios de vida. Mas não, pois consegue somente lançar o olhar cansado ao redor para avistar o velho retrato na parede.
Como queria ser novamente menino. E o mais traquina que pudesse existir. Mergulhar na poça de lama, tomar banho de biqueira em dias de chuva grande, afanar goiaba e fruta boa do quintal do vizinho, esconder a calcinha vermelha secando no varal. Viver a meninice em sua plenitude. E sem jamais pensar na velhice.
Que antítese de tudo é essa fase da vida! As boas palavras chegando apenas para consolar. Os olhares espantosos até pela continuada presença. Ora, o velho - perante muitos - é de quase inexistência. Não falam quando reencontram, mas sempre querem perguntar: mas ainda tá vivo? Triste que assim aconteça, mas assim acontece.
E o viver de pensamentos, memórias e recordações, é experimentar uma terrível dor a cada momento. Contudo, nada a fazer senão reabrir os velhos livros, os velhos baús, os relicários do passado. E assim porque, a partir dessa idade, a experiência maior no presente é reencontrar o passado. E neste o prazer de ter amado um dia, de ter tanto amado aquela que ali repousa num quadro na parede.
Ali no quadro, na moldura antiga, de madeira de lei escurecida, um retrato e um sorriso. Dois sorrisos, um casal. Um chapéu panamá e um penteado forjado na brilhantina. Por cima do vidro empoeirado ainda se avista aquelas feições. E como queria que aquela boca se abrisse para dizer que venha.
Para dizer que venha. Venha que a morte não é ruim, eis que mais digna que uma existência na desvalia, no esquecimento. Então venha, pois aqui há um anjo esperando com uma canção e um Deus que já coloca flores à porta de sua morada. Então venha.
Uma lágrima se derrama cansada. Os olhos se fecham. E vai.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com