Acorda, Brasil!

Opinião

 

* Vânia Azevedo
Tomar um café na livraria é um dos melhores hábitos que qualquer leitor compulsivo pode ter enquanto casa o gosto pelo café e o prazer da leitura. Mas não é sempre que o silêncio te acompanha. Por isso não pude deixar de ouvir os  comentários acalorados de um grupo de engravatados que elencavam as benesses do governo  Bolsonaro com o entusiasmo de quem o viu citado para o Nobel de economia. Com perplexidade, a impressão que tive era de estarem falando de um grande estadista e não desse senhor que de deputado do baixo clero, dono de uma postura  antipática e arrogante se converte em um presidente cujo pacote de maldades  lhe confere uma visibilidade negativa, baseada na sua conduta espúria, incomum  a figura de um presidente da República, que faz da perseguição a Lula o seu programa de governo. Porém, o que me chamou a atenção  não foi a contradição em si, mas  a cegueira dessas pessoas em relação aos fatos e ao próprio ser humano.
Diariamente somos acordados com notícias desastrosas de medidas que interferem drasticamente na vida do cidadão: o retrocesso evidente de perdas de conquistas adquiridas outrora; a visível redução do poder de compra que acelera o descompasso da economia; o mapa do desemprego que segue emparedando vidas e aumentando  o número de habitantes da terra dos esquecidos - longe de ser o caso dos engravatados.
Enquanto analiso a situação percebo, ligeiramente angustiada, que somos maioria entre os expectadoras que, mergulhados nessa cegueira conveniente que caracteriza a apatia da sociedade, seguem  ignorando as dores do mundo, indiferentes a tudo que não diga respeito a si mesmo. Luto para não me indignar. Luto, como sempre, para entender onde foi parar o nosso espírito de humanidade que, em meio a tanta desigualdade e injustiça ainda consegue, impressionantemente, seguir alheio a esse caos,  eximindo-se de qualquer culpa. Tudo opera em favor desse egocentrismo que nos incapacita de aprender com as lições que a vida nos impõe. Impiedosamente nos blindamos do cenário caótico que o momento oferece, com o aumento de pedintes e desfavorecidos que fazem das avenidas e  semáforos  o seu palco, impondo-nos uma realidade que tentamos ignorar (e nos proteger),  com o simples gesto de elevar o vidro do carro. Numa leitura mais realista: isso não é responsabilidade minha. E não deixa de ter razão, quando acredita que o seu compromisso social está saldado ao pagar os impostos. Contudo, esquece que vivemos num país onde os excessivos impostos são mal empregados. O que deixa claro que a nossa responsabilidade social é tão grande quanto a nossa incapacidade de escolher políticos que nos representem com ética e compromisso social. A nossa incapacidade reside no fato de não sabermos fazer uma leitura do momento atual;  de não compreendermos que somos responsáveis por não sabermos  acompanhar de perto o desempenho daqueles que nos representam enquanto parlamentares. Limitamos o nosso dever de cidadão ao voto. Não cobramos dos nossos representantes  alinhamento e comprometimento com as causas sociais e permitimos que estes negociem o nosso destino aprovando  leis que atentam para o retrocesso e aumento da pobreza, por vezes forjando negociatas que alimenta  a indescência da corrupção institucionalizada. Somos incapazes quando assistimos e até contribuímos passivamente na criação de bancadas (do boi, evangélica, agronegócio) para dar sustentação a interesses escusos que não atendem aos interesses do povo brasileiro, mas a tomada de decisões com o fim de atender a interesses  próprios e de determinadas classes. E como se não bastasse ver o poder aquisitivo cair dia a dia, somos obrigados a conviver com noticiários protagonizados por  um presidente sem decoro, que ignora, entre outras coisas, que o termo 'república' significa "bem público"  e  não um bem particular que ele adquiriu e pode utilizar como melhor entende, fazendo do flerte com o caos a sua zona de conforto. 
A bem da verdade, o seu analfabetismo funcional só não é maior do que a apatia  que se encontra mergulhado o Brasil, como se a esperar para ver a profundidade do poço  que ele é capaz de cavar. Enquanto  isso, travestido de indisfarsável neofascismo, utiliza as palavras de forma irresponsável quando ataca a Constituição, promove a discórdia por onde passa e segue confrontando poderes, deixando à mostra o quanto é desprovido de virtude cívica e princípios próprios ao exercício da vida pública.
Verdade seja dita, o quadro de apatia da sociedade, por sí só, já denota a nossa incapacidade de se indignar e reagir às injustiças sociais;   à políticos desonestos que traem o povo no momento das grandes decisões;  a insolência de um presidente que responde mal às críticas e tem na intolerância a munição que alimenta o seu discurso de ódio, onde fomenta a violência e ataca a tudo e a todos, utilizando-se de suas lambanças para mudar o foco ou tornar invisível o que realmente importa.  
Certamente aqueles engravatados, citados no início desse texto, possivelmente são até  capazes de citar inúmeros artigos do código penal brasileiro, mas infinitamente incapazes de fazer uma leitura da realidade do Brasil atual.  Portanto, não precisamos de bandeiras para expressar a nossa indignação. Indignação deve ser precedida de ação. Atitude. Precisamos transformar o nosso discurso apático em indignação e sair dessa paralisia onde imaginamos ser livres. Porém, se impassíveis, não passamos de escravos da ignorância. Reféns do sistema.
* Vânia Azevedo é professora

* Vânia Azevedo

Tomar um café na livraria é um dos melhores hábitos que qualquer leitor compulsivo pode ter enquanto casa o gosto pelo café e o prazer da leitura. Mas não é sempre que o silêncio te acompanha. Por isso não pude deixar de ouvir os  comentários acalorados de um grupo de engravatados que elencavam as benesses do governo  Bolsonaro com o entusiasmo de quem o viu citado para o Nobel de economia. Com perplexidade, a impressão que tive era de estarem falando de um grande estadista e não desse senhor que de deputado do baixo clero, dono de uma postura  antipática e arrogante se converte em um presidente cujo pacote de maldades  lhe confere uma visibilidade negativa, baseada na sua conduta espúria, incomum  a figura de um presidente da República, que faz da perseguição a Lula o seu programa de governo. Porém, o que me chamou a atenção  não foi a contradição em si, mas  a cegueira dessas pessoas em relação aos fatos e ao próprio ser humano.
Diariamente somos acordados com notícias desastrosas de medidas que interferem drasticamente na vida do cidadão: o retrocesso evidente de perdas de conquistas adquiridas outrora; a visível redução do poder de compra que acelera o descompasso da economia; o mapa do desemprego que segue emparedando vidas e aumentando  o número de habitantes da terra dos esquecidos - longe de ser o caso dos engravatados.
Enquanto analiso a situação percebo, ligeiramente angustiada, que somos maioria entre os expectadoras que, mergulhados nessa cegueira conveniente que caracteriza a apatia da sociedade, seguem  ignorando as dores do mundo, indiferentes a tudo que não diga respeito a si mesmo. Luto para não me indignar. Luto, como sempre, para entender onde foi parar o nosso espírito de humanidade que, em meio a tanta desigualdade e injustiça ainda consegue, impressionantemente, seguir alheio a esse caos,  eximindo-se de qualquer culpa. Tudo opera em favor desse egocentrismo que nos incapacita de aprender com as lições que a vida nos impõe. Impiedosamente nos blindamos do cenário caótico que o momento oferece, com o aumento de pedintes e desfavorecidos que fazem das avenidas e  semáforos  o seu palco, impondo-nos uma realidade que tentamos ignorar (e nos proteger),  com o simples gesto de elevar o vidro do carro. Numa leitura mais realista: isso não é responsabilidade minha. E não deixa de ter razão, quando acredita que o seu compromisso social está saldado ao pagar os impostos. Contudo, esquece que vivemos num país onde os excessivos impostos são mal empregados. O que deixa claro que a nossa responsabilidade social é tão grande quanto a nossa incapacidade de escolher políticos que nos representem com ética e compromisso social. A nossa incapacidade reside no fato de não sabermos fazer uma leitura do momento atual;  de não compreendermos que somos responsáveis por não sabermos  acompanhar de perto o desempenho daqueles que nos representam enquanto parlamentares. Limitamos o nosso dever de cidadão ao voto. Não cobramos dos nossos representantes  alinhamento e comprometimento com as causas sociais e permitimos que estes negociem o nosso destino aprovando  leis que atentam para o retrocesso e aumento da pobreza, por vezes forjando negociatas que alimenta  a indescência da corrupção institucionalizada. Somos incapazes quando assistimos e até contribuímos passivamente na criação de bancadas (do boi, evangélica, agronegócio) para dar sustentação a interesses escusos que não atendem aos interesses do povo brasileiro, mas a tomada de decisões com o fim de atender a interesses  próprios e de determinadas classes. E como se não bastasse ver o poder aquisitivo cair dia a dia, somos obrigados a conviver com noticiários protagonizados por  um presidente sem decoro, que ignora, entre outras coisas, que o termo 'república' significa "bem público"  e  não um bem particular que ele adquiriu e pode utilizar como melhor entende, fazendo do flerte com o caos a sua zona de conforto. 
A bem da verdade, o seu analfabetismo funcional só não é maior do que a apatia  que se encontra mergulhado o Brasil, como se a esperar para ver a profundidade do poço  que ele é capaz de cavar. Enquanto  isso, travestido de indisfarsável neofascismo, utiliza as palavras de forma irresponsável quando ataca a Constituição, promove a discórdia por onde passa e segue confrontando poderes, deixando à mostra o quanto é desprovido de virtude cívica e princípios próprios ao exercício da vida pública.
Verdade seja dita, o quadro de apatia da sociedade, por sí só, já denota a nossa incapacidade de se indignar e reagir às injustiças sociais;   à políticos desonestos que traem o povo no momento das grandes decisões;  a insolência de um presidente que responde mal às críticas e tem na intolerância a munição que alimenta o seu discurso de ódio, onde fomenta a violência e ataca a tudo e a todos, utilizando-se de suas lambanças para mudar o foco ou tornar invisível o que realmente importa.  
Certamente aqueles engravatados, citados no início desse texto, possivelmente são até  capazes de citar inúmeros artigos do código penal brasileiro, mas infinitamente incapazes de fazer uma leitura da realidade do Brasil atual.  Portanto, não precisamos de bandeiras para expressar a nossa indignação. Indignação deve ser precedida de ação. Atitude. Precisamos transformar o nosso discurso apático em indignação e sair dessa paralisia onde imaginamos ser livres. Porém, se impassíveis, não passamos de escravos da ignorância. Reféns do sistema.

* Vânia Azevedo é professora

 


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