Por linhas tortas

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A maior obra de literatura já escrita em língua portuguesa
A maior obra de literatura já escrita em língua portuguesa

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Publicada em 05/08/2019 às 23:05:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Convidado a ministrar 
uma oficina de crítica 
musical na Universidade Federal de Sergipe, fui obrigado a pensar em minha formação profissional. Estudante medíocre, fiz ouvidos moucos para os professores, matei aula, levei bomba. Jamais esquecerei, no entanto, de Luciano Correia comentando a 'Trilogia suja de Havana'. Desde então, Pedro Juan Gutiérrez é meu pastor, nada me falta.
Ninguém deveria bater à porta da meia idade sem ler 'Grande Sertão: Veredas', a maior obra de literatura já escrita em língua portuguesa. Para dar conta das leads do jornalismo apressado de todo dia, o repórter sufocado de pautas não precisa recorrer à imensidão nas páginas de Guimarães de Rosa, é verdade. Mas a notícia pura e simples não informa tudo. Somente os idiotas da objetividade, a definição é de Nelson Rodrigues, se conformam com as linhas rasas do fato consumado.
Não se faz Jornalismo com letra maiúscula a partir de opinião pessoal. Gay Talese jamais manifestou apreço ou aversão pela voz de veludo de Frank Sinatra. No artigo histórico publicado pela revista Esquire, uma obra-prima de rigor jornalístico, contudo, o repórter se recusa a abordar o cantor e reproduzir duas ou três das sentenças arrancadas na entrevista entre aspas, como se faz por aqui, dando o trabalho por encerrado. Há, no texto, a impressão viva de um ambiente. Quem o lê, percebe a respiração suspensa do mundo inteiro. Assim ocorre quando um artista com a grandeza e a popularidade de Sinatra apanha um resfriado.
Se Gay Talese pode comparar Frank Sinatra ao presidente dos Estados Unidos, temendo pela repercussão do seu bem estar na bolsa de valores, eu posso muito bem tomar os acordes em um disco de rock realizado na terrinha por um sinal dos tempos. Afinal de contas, todo produto de Cultura foi cultivado em um dado lugar, em um dado contexto. O Tejo não é maior do que o rio de minha aldeia.
De Havana, saltei nos Gerais e de lá fui dar com os meus pobres costados sob as barbas do Tio Sam, com grande risco de acabar deportado. Escrevo por linhas tortas. Por isso mesmo, tenho tão pouco a ensinar aos estudantes de Jornalismo da UFS, em dois dias de oficina, embora o faça com muito gosto. Para mim, tudo é questão de muita leitura e boa sorte.

Convidado a ministrar  uma oficina de crítica  musical na Universidade Federal de Sergipe, fui obrigado a pensar em minha formação profissional. Estudante medíocre, fiz ouvidos moucos para os professores, matei aula, levei bomba. Jamais esquecerei, no entanto, de Luciano Correia comentando a 'Trilogia suja de Havana'. Desde então, Pedro Juan Gutiérrez é meu pastor, nada me falta.
Ninguém deveria bater à porta da meia idade sem ler 'Grande Sertão: Veredas', a maior obra de literatura já escrita em língua portuguesa. Para dar conta das leads do jornalismo apressado de todo dia, o repórter sufocado de pautas não precisa recorrer à imensidão nas páginas de Guimarães de Rosa, é verdade. Mas a notícia pura e simples não informa tudo. Somente os idiotas da objetividade, a definição é de Nelson Rodrigues, se conformam com as linhas rasas do fato consumado.
Não se faz Jornalismo com letra maiúscula a partir de opinião pessoal. Gay Talese jamais manifestou apreço ou aversão pela voz de veludo de Frank Sinatra. No artigo histórico publicado pela revista Esquire, uma obra-prima de rigor jornalístico, contudo, o repórter se recusa a abordar o cantor e reproduzir duas ou três das sentenças arrancadas na entrevista entre aspas, como se faz por aqui, dando o trabalho por encerrado. Há, no texto, a impressão viva de um ambiente. Quem o lê, percebe a respiração suspensa do mundo inteiro. Assim ocorre quando um artista com a grandeza e a popularidade de Sinatra apanha um resfriado.
Se Gay Talese pode comparar Frank Sinatra ao presidente dos Estados Unidos, temendo pela repercussão do seu bem estar na bolsa de valores, eu posso muito bem tomar os acordes em um disco de rock realizado na terrinha por um sinal dos tempos. Afinal de contas, todo produto de Cultura foi cultivado em um dado lugar, em um dado contexto. O Tejo não é maior do que o rio de minha aldeia.
De Havana, saltei nos Gerais e de lá fui dar com os meus pobres costados sob as barbas do Tio Sam, com grande risco de acabar deportado. Escrevo por linhas tortas. Por isso mesmo, tenho tão pouco a ensinar aos estudantes de Jornalismo da UFS, em dois dias de oficina, embora o faça com muito gosto. Para mim, tudo é questão de muita leitura e boa sorte.