HOLOCAUSTO BRASILEIRO (VII)

Opinião

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
A escravidão no Brasil foi desumana e duradoura. Os escravos africanos constituíam a subclasse do estamento social inferior. Cerca de dez milhões de africanos foram trazidos para as América, e metade foram escravizados no Brasil. No ano de 1867, chegaram os últimos contrabandos de escravos nos porões de navios negreiros, conhecidos como tumbeiros. Amontoados em condições degradantes, um quarto morriam antes de chegar ao Brasil, por mal tratos, doenças, fome e desesperança, e tinham os corpos lançados ao mar sem piedade. Aflições como a de Maria de Magdalena que na sua caminhada apostólica disse: "deixa eu chorar para que minha tristeza rompa as correntes do meu martírio, apenas por misericórdia". 
A escravidão do "homem pelo homem" referenciada pela "cor negra da pele", é a mais cruel das explorações, mais um "holocausto brasileiro". Seres humanos comercializados como mercadoria. Máquinas humanas, utilizadas nos engenhos de açúcar e na casa-grande. "Sem escravos não existe açúcar. Máxima do Século XVII. Açúcar manchado com sangue escravo". Escravos negros eram avaliados pela usura mercantilista como animais. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro dos mais fracos e velhos. Eram constantemente castigados, por açoites e torturas dos feitores e capitães-do-mato. Um mesmo escravo, era vendido em partes para mais de um dono. Premissa de desigualdade, corrupção, fome, crueldade, miséria e insensibilidade.
Os escravos no Brasil eram proibidos de tudo, exceto de trabalhar por até vinte horas diárias. Dormiam no chão duro na senzala e recebiam uma alimentação pobre e insuficiente para sobreviver. Não podiam praticar sua religião, suas festas e rituais africanos. Tinham que seguir a religião católica imposta por seus senhores e adotar a língua portuguesa. Escondidos ou rebelados, realizavam seus rituais, festas, representações artísticas e a forma de luta e defesa: a capoeira. As escravas negras eram utilizadas como mão de obra para os trabalhos domésticos como cozinheiras, arrumadeiras e amas de leite. Ainda, eram vítimas de estupros praticados por seus patrões. 
O "holocausto brasileiro da escravidão" clamou por compaixão. O Brasil foi a última Nação do Ocidente a se libertar da escravidão negra. Apesar dos clamores dos abolicionistas nacionais, a força da sua derrocada veio de fora para dentro. A partir da metade do século XIX a escravidão no Brasil passou a ser contestada pela Inglaterra interessada em ampliar o seu mercado exportador. A Lei Bill Aberdeen de 1845, proibia o tráfico de escravos, dando o poder aos ingleses de aprisionarem navios de países que mantinham a escravidão. Um longo caminho de provas e aflições para alcançar a formal libertação.
Ao ganhar a liberdade, os escravos, não tiveram vida fácil. Eles recebiam o sobrenome dos seus proprietários, e permaneciam ao menos dez anos subordinados aos seus donos. A lei facultou a liberdade jurídica aos escravos, mas não possibilitou a sobrevivência e plena liberdade. Continuaram sem moradia, sem trabalho, sem terra, sem propriedade, sem educação e sem esperança. Continuaram numa "dissimulada escravidão à brasileira". A Lei de Terras de 1848, restringia a apropriação de terras devolutas. Artificio para impedir a aquisição de terras por escravos livres mas despossuídos dos meios de compra de bens de qualquer espécie. A frase do Barão de Cotegipe, o único Senador do Império que votou contra o projeto de abolição da escravatura, repercute na atualidade. Disse ele à Princesa Isabel, ao assinar a Lei Áurea em 1888: "A Senhora redimiu uma raça, mas perdeu o trono".
Não se conhece o Brasil e suas contradições, sem aprofundar na verdadeira história e nos seus "holocaustos", sob pena de análises seletivas reproduzidas pelos vencedores. A abolição formal da escravidão, não possibilitou a integração social dos negros libertos. Eles continuaram sendo vítimas do preconceito, violência, expiação e pobreza. Qualificar as agruras da "escravidão brasileira" como culpa coletiva, é negar as responsabilidades perante a história, premissas da persistente e vergonhosa desigualdade. Esse holocausto, não escapará do julgamento pós-material, pois "numa sociedade organizada segundo as leis cristãs ninguém deve [ser escravizado e nem] morrer de fome". 
  
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

Não se conhece o Brasil e suas contradições, sem aprofundar na verdadeira história e nos seus "holocaustos", sob pena de análises seletivas reproduzidas pelos vencedores. A abolição formal da escravidão, não possibilitou a integração social dos negros libertos. Eles continuaram sendo vítimas do preconceito, violência, expiação e pobreza

* Manoel Moacir Costa Macêdo

A escravidão no Brasil foi desumana e duradoura. Os escravos africanos constituíam a subclasse do estamento social inferior. Cerca de dez milhões de africanos foram trazidos para as América, e metade foram escravizados no Brasil. No ano de 1867, chegaram os últimos contrabandos de escravos nos porões de navios negreiros, conhecidos como tumbeiros. Amontoados em condições degradantes, um quarto morriam antes de chegar ao Brasil, por mal tratos, doenças, fome e desesperança, e tinham os corpos lançados ao mar sem piedade. Aflições como a de Maria de Magdalena que na sua caminhada apostólica disse: "deixa eu chorar para que minha tristeza rompa as correntes do meu martírio, apenas por misericórdia". 
A escravidão do "homem pelo homem" referenciada pela "cor negra da pele", é a mais cruel das explorações, mais um "holocausto brasileiro". Seres humanos comercializados como mercadoria. Máquinas humanas, utilizadas nos engenhos de açúcar e na casa-grande. "Sem escravos não existe açúcar. Máxima do Século XVII. Açúcar manchado com sangue escravo". Escravos negros eram avaliados pela usura mercantilista como animais. Os mais saudáveis chegavam a valer o dobro dos mais fracos e velhos. Eram constantemente castigados, por açoites e torturas dos feitores e capitães-do-mato. Um mesmo escravo, era vendido em partes para mais de um dono. Premissa de desigualdade, corrupção, fome, crueldade, miséria e insensibilidade.
Os escravos no Brasil eram proibidos de tudo, exceto de trabalhar por até vinte horas diárias. Dormiam no chão duro na senzala e recebiam uma alimentação pobre e insuficiente para sobreviver. Não podiam praticar sua religião, suas festas e rituais africanos. Tinham que seguir a religião católica imposta por seus senhores e adotar a língua portuguesa. Escondidos ou rebelados, realizavam seus rituais, festas, representações artísticas e a forma de luta e defesa: a capoeira. As escravas negras eram utilizadas como mão de obra para os trabalhos domésticos como cozinheiras, arrumadeiras e amas de leite. Ainda, eram vítimas de estupros praticados por seus patrões. 
O "holocausto brasileiro da escravidão" clamou por compaixão. O Brasil foi a última Nação do Ocidente a se libertar da escravidão negra. Apesar dos clamores dos abolicionistas nacionais, a força da sua derrocada veio de fora para dentro. A partir da metade do século XIX a escravidão no Brasil passou a ser contestada pela Inglaterra interessada em ampliar o seu mercado exportador. A Lei Bill Aberdeen de 1845, proibia o tráfico de escravos, dando o poder aos ingleses de aprisionarem navios de países que mantinham a escravidão. Um longo caminho de provas e aflições para alcançar a formal libertação.
Ao ganhar a liberdade, os escravos, não tiveram vida fácil. Eles recebiam o sobrenome dos seus proprietários, e permaneciam ao menos dez anos subordinados aos seus donos. A lei facultou a liberdade jurídica aos escravos, mas não possibilitou a sobrevivência e plena liberdade. Continuaram sem moradia, sem trabalho, sem terra, sem propriedade, sem educação e sem esperança. Continuaram numa "dissimulada escravidão à brasileira". A Lei de Terras de 1848, restringia a apropriação de terras devolutas. Artificio para impedir a aquisição de terras por escravos livres mas despossuídos dos meios de compra de bens de qualquer espécie. A frase do Barão de Cotegipe, o único Senador do Império que votou contra o projeto de abolição da escravatura, repercute na atualidade. Disse ele à Princesa Isabel, ao assinar a Lei Áurea em 1888: "A Senhora redimiu uma raça, mas perdeu o trono".
Não se conhece o Brasil e suas contradições, sem aprofundar na verdadeira história e nos seus "holocaustos", sob pena de análises seletivas reproduzidas pelos vencedores. A abolição formal da escravidão, não possibilitou a integração social dos negros libertos. Eles continuaram sendo vítimas do preconceito, violência, expiação e pobreza. Qualificar as agruras da "escravidão brasileira" como culpa coletiva, é negar as responsabilidades perante a história, premissas da persistente e vergonhosa desigualdade. Esse holocausto, não escapará do julgamento pós-material, pois "numa sociedade organizada segundo as leis cristãs ninguém deve [ser escravizado e nem] morrer de fome".    
* Manoel Moacir Costa Macêdo, Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

 


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS