Só eu entendo João

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Em paz com o violão
Em paz com o violão

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Publicada em 25/07/2019 às 00:07:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Alguns leitores estra-
nharam: João Gil-
berto passou desta para melhor, eu não dei um pio. Somente agora, quando todas as lágrimas secaram e uma dupla de bambas sergipanos prepara um oportuno show em tributo à memória do gênio, esta página menciona o ocorrido. 
Há tempo para tudo. Sobre a vida e a música de João Gilberto, tudo já foi dito, desde a breve passagem por Aracaju, os anos de formação do artista, até o exílio voluntário, resguardado pelas cortinas da vida privada. Para a maioria, de tanta informação, restou o retrato pronto e acabado de um doido varrido.
A renúncia é um gesto incompreensível para o comum das gentes, os inocentes do Leblon, pobres de imaginação, carentes de afetos e recursos. Como pode, alguém com o mundo inteiro aos próprios pés se conformar com as quatro paredes de um apartamento? Quem se espanta, não conhece a felicidade, um artigo doméstico. Só eu o entendo.
O homem jovem vê uma montanha e precisa conquistá-la, alcançar o topo. Assim é com tudo. A carreira, o casamento, um quebra-cabeças de mil peças, os livros. Espírito e músculos o lançam no encalço da vitória. A maioria perde as forças no caminho. João, por sua vez, chegou à lua de um salto. E depois foi tratar do que realmente lhe importava, em paz com o violão, livre de outros compromissos.
Eu imagino João de pijama, contemplando a imensidão azul pela janela do décimo andar, são e salvo, ele e os pensamentos de um senhor octogenário ciente da própria finitude. A cena evoca um solo de Stan Getz, mas a vida real não é uma novela de Manoel Carlos. Em verdade, o mais provável, na cidade adormecida, não haveria nem sinal de barulho.

Alguns leitores estra- nharam: João Gil- berto passou desta para melhor, eu não dei um pio. Somente agora, quando todas as lágrimas secaram e uma dupla de bambas sergipanos prepara um oportuno show em tributo à memória do gênio, esta página menciona o ocorrido. 
Há tempo para tudo. Sobre a vida e a música de João Gilberto, tudo já foi dito, desde a breve passagem por Aracaju, os anos de formação do artista, até o exílio voluntário, resguardado pelas cortinas da vida privada. Para a maioria, de tanta informação, restou o retrato pronto e acabado de um doido varrido.
A renúncia é um gesto incompreensível para o comum das gentes, os inocentes do Leblon, pobres de imaginação, carentes de afetos e recursos. Como pode, alguém com o mundo inteiro aos próprios pés se conformar com as quatro paredes de um apartamento? Quem se espanta, não conhece a felicidade, um artigo doméstico. Só eu o entendo.
O homem jovem vê uma montanha e precisa conquistá-la, alcançar o topo. Assim é com tudo. A carreira, o casamento, um quebra-cabeças de mil peças, os livros. Espírito e músculos o lançam no encalço da vitória. A maioria perde as forças no caminho. João, por sua vez, chegou à lua de um salto. E depois foi tratar do que realmente lhe importava, em paz com o violão, livre de outros compromissos.
Eu imagino João de pijama, contemplando a imensidão azul pela janela do décimo andar, são e salvo, ele e os pensamentos de um senhor octogenário ciente da própria finitude. A cena evoca um solo de Stan Getz, mas a vida real não é uma novela de Manoel Carlos. Em verdade, o mais provável, na cidade adormecida, não haveria nem sinal de barulho.