FEC: música contra o chumbo da ditadura - III

Opinião

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Em setembro de 1963 chegaria à Estância o Padre Alípio de Freitas. O padre português veio à Cidade Jardim realizar uma conferência na Escola Técnica do Comércio para encerrar o I Seminário Estanciano de Problemas Brasileiros, cujo objetivo era mesmo discutir a problemática social porque passava a população. Alípio de Freitas proferiu a palestra "Revolução e Contra Revolução no Brasil" para um grande número de pessoas. Foi um sucesso.
Debatendo temas que afligiam a sociedade urbana e rural, Estância se preparava para as mudanças nacionais que viriam. O conferencista era referência em defesa da luta campesina e defendia abertamente a reforma agrária no Brasil. Por seus posicionamentos havia sido preso e levado ao Rio de Janeiro, onde passou recluso por dois meses. Após ser libertado voltaria ao nordeste para continuar defendendo suas teses. Mais tarde Alípio de Freitas se tornaria um guerrilheiro e seria mais uma vez preso e depois torturado. Ali passaria 10 anos. Detido em 18 de maio de 1970, delatado por companheiro sob tortura, no livro que escreveu, em 1981, intitulado Resistir É Preciso - Memória do Tempo da Morte Civil no Brasil, conta que foi preso pelo DOI-CODI no subúrbio carioca. Com muita coragem, reagindo sempre às agressões, num dado momento da sessão de tortura, estando nu, "seguraram-me da forma que puderam e foram me ligando eletrodos nos dedos das mãos e dos pés, no pênis e na boca. Despejaram sobre mim um balde de água e a sessão de choques elétricos começou, comandada pelo Capitão Luiz Carlos, que operava a manivela da maricota". Mais adiante relembra: "enquanto as descargas elétricas me invadiam e me transformavam numa forma de buscapé humano, gritando e rolando pelo chão da sala, os meus algozes sofriam um processo crescente de irritação e agressividade." Após a prisão voltaria a Portugal e morreria em 2017, aos 88 anos. Segundo o jornalista Euler de França Belém "os jornais do país deram ampla repercussão ao falecimento". Ainda de acordo com Belém, deixou como filha a cantora brasileira Luanda Cosetti.
Após a prisão de Pascoal foi a vez daqueles próximos a ele, como: Arício Viana dos Reis (Secretário das Relações Públicas), Antônio Silveira Dias (jornalista), o advogado Dorival Carvalho Costa, Sebastião Armindo da Silva (pastor protestante), tesoureiro da Prefeitura, que ficou preso por mais de quatro meses. Depois seriam presos outros ligados ao padre Almeida: Pedro Oliveira, presidente do Sindicato Rural e Ailton Duran (do MEB - Movimento de Educação de Base, da CNBB). José Leopoldino (José de Carrinho) foi outro sindicalista capturado. Era presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Eles passariam mais de quarenta dias encarcerados e puderam voltar para casa, sendo recebidos em grande festa. Infelizmente, José Carlos Baiano não teve a mesma sorte. Desapareceu após ser preso pelo militares e é dado como morto pelos familiares. 
Também tiveram problemas com a ditatura estudantes ligados ao movimento estudantil, associados aos grêmios de algumas escolas. Pelo menos no decorrer de 1967 pudemos contabilizar quatro deles: "Diretório Estudantil Gumersindo Bessa", "José de Anchieta", "Grêmio Literário Dom Coutinho", "Grêmio Pio XII". Relativo a esses movimentos, sabe-se que Edilberto, do Instituto Diocesano, chegou a ser detido, retornando com indícios de loucura. Miguel Viana, outro estudante da referida escola e ligado ao grêmio, temendo retaliação, com ajuda do Padre Almeida e do bispo Dom Coutinho (muito atuante das causas sociais e culturais) abandonou sua cidade. Também seria perseguido José Francisco do Nascimento (Zé Francisco). Por acreditar numa possível devassa, chegou a esconder, na casa de um colega, seus livros de autores socialistas. Em 1972, seria convocado pela Polícia Federal para interrogatório, em Aracaju, ficando ali o dia inteiro. 
Passavam-se dias, meses, anos e o custo de vida no Brasil continuava disparado. A política adotada por Castelo Branco fazia subir a gasolina, o açúcar, o pão, a carne. Em meio a "Lei do Arrocho Salarial", se queixavam os trabalhadores brasileiros do "condenável" dispositivo do Ministério do Planejamento que versava sobre o reajuste salarial. Este deveria ser de apenas "metade do aumento do custo de vida registrado em igual período", fórmula que levava o trabalhador a uma condição de pauperização. Para justificar a baixa revisão salarial dizia o governo que "nenhum aumento até hoje correspondeu ao aumento real do custo de vida". Por isso a classe trabalhadora contava os dias de o governo Castelo acabar, mas sem imaginar que os "anos de chumbo" ainda estariam por vir. No final das contas o Regime Militar - de acordo com o livro Brasil Nunca Mais, de Dom Paulo Evaristo Arns - levaria o Brasil de encontro à "fome, favelas, enfermidades, marginalidade", e que elas "avançaram em números expressivos".
Em 1965, enquanto o prefeito Alizi Cardoso Costa comemorava, em praça pública, o primeiro ano da ditadura, na época em que chamavam a manobra política de "revolução", o semanário A Estância, se prestando praticamente como órgão militar, dizia que o povo, no dia da comemoração "afluiu às ruas fazendo coro com as nossas autoridades, vivando àqueles bravos militares que chefiaram a Revolução vitoriosa, que baniu os traficantes da nossa liberdade". Meses depois o jornal O Sim Sim trazia um artigo criticando a imposição instalada no Brasil. Esse artigo, corajosamente escrito por José Francisco do Nascimento, aqui já citado, chamava de "crime" e que aquilo continuava "como se fosse a coisa mais normal do mundo". Apontava Estância como "uma das cidades que mais arrecada no estado", tinha "uma situação muito boa em virtude de ser uma cidade industrial tendo ao seu favor a facilidade do transporte". Fazendo, no mesmo artigo, um levantamento à cerca dos descuidos da gestão com as ruas e praças estancianas, chegou a afirmar que Estância não passava de "Um JARDIM ABANDONADO". Sempre escrevendo à cerca dos problemas da sua cidade e do Brasil, talvez esse estilo de escrita tivesse ajudado ao regime militar a torná-lo, em 72, suspeito a ponto de interrogá-lo, como à cima nos referimos. Amigo do Padre Almeida, José Francisco do Nascimento chegou a fazer parte do corpo de redatores de O Sim Sim, um jornal de cunho religioso e, ao mesmo tempo, crítico. (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Em setembro de 1963 chegaria à Estância o Padre Alípio de Freitas. O padre português veio à Cidade Jardim realizar uma conferência na Escola Técnica do Comércio para encerrar o I Seminário Estanciano de Problemas Brasileiros, cujo objetivo era mesmo discutir a problemática social porque passava a população. Alípio de Freitas proferiu a palestra "Revolução e Contra Revolução no Brasil" para um grande número de pessoas. Foi um sucesso.
Debatendo temas que afligiam a sociedade urbana e rural, Estância se preparava para as mudanças nacionais que viriam. O conferencista era referência em defesa da luta campesina e defendia abertamente a reforma agrária no Brasil. Por seus posicionamentos havia sido preso e levado ao Rio de Janeiro, onde passou recluso por dois meses. Após ser libertado voltaria ao nordeste para continuar defendendo suas teses. Mais tarde Alípio de Freitas se tornaria um guerrilheiro e seria mais uma vez preso e depois torturado. Ali passaria 10 anos. Detido em 18 de maio de 1970, delatado por companheiro sob tortura, no livro que escreveu, em 1981, intitulado Resistir É Preciso - Memória do Tempo da Morte Civil no Brasil, conta que foi preso pelo DOI-CODI no subúrbio carioca. Com muita coragem, reagindo sempre às agressões, num dado momento da sessão de tortura, estando nu, "seguraram-me da forma que puderam e foram me ligando eletrodos nos dedos das mãos e dos pés, no pênis e na boca. Despejaram sobre mim um balde de água e a sessão de choques elétricos começou, comandada pelo Capitão Luiz Carlos, que operava a manivela da maricota". Mais adiante relembra: "enquanto as descargas elétricas me invadiam e me transformavam numa forma de buscapé humano, gritando e rolando pelo chão da sala, os meus algozes sofriam um processo crescente de irritação e agressividade." Após a prisão voltaria a Portugal e morreria em 2017, aos 88 anos. Segundo o jornalista Euler de França Belém "os jornais do país deram ampla repercussão ao falecimento". Ainda de acordo com Belém, deixou como filha a cantora brasileira Luanda Cosetti.
Após a prisão de Pascoal foi a vez daqueles próximos a ele, como: Arício Viana dos Reis (Secretário das Relações Públicas), Antônio Silveira Dias (jornalista), o advogado Dorival Carvalho Costa, Sebastião Armindo da Silva (pastor protestante), tesoureiro da Prefeitura, que ficou preso por mais de quatro meses. Depois seriam presos outros ligados ao padre Almeida: Pedro Oliveira, presidente do Sindicato Rural e Ailton Duran (do MEB - Movimento de Educação de Base, da CNBB). José Leopoldino (José de Carrinho) foi outro sindicalista capturado. Era presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil. Eles passariam mais de quarenta dias encarcerados e puderam voltar para casa, sendo recebidos em grande festa. Infelizmente, José Carlos Baiano não teve a mesma sorte. Desapareceu após ser preso pelo militares e é dado como morto pelos familiares. 
Também tiveram problemas com a ditatura estudantes ligados ao movimento estudantil, associados aos grêmios de algumas escolas. Pelo menos no decorrer de 1967 pudemos contabilizar quatro deles: "Diretório Estudantil Gumersindo Bessa", "José de Anchieta", "Grêmio Literário Dom Coutinho", "Grêmio Pio XII". Relativo a esses movimentos, sabe-se que Edilberto, do Instituto Diocesano, chegou a ser detido, retornando com indícios de loucura. Miguel Viana, outro estudante da referida escola e ligado ao grêmio, temendo retaliação, com ajuda do Padre Almeida e do bispo Dom Coutinho (muito atuante das causas sociais e culturais) abandonou sua cidade. Também seria perseguido José Francisco do Nascimento (Zé Francisco). Por acreditar numa possível devassa, chegou a esconder, na casa de um colega, seus livros de autores socialistas. Em 1972, seria convocado pela Polícia Federal para interrogatório, em Aracaju, ficando ali o dia inteiro. 
Passavam-se dias, meses, anos e o custo de vida no Brasil continuava disparado. A política adotada por Castelo Branco fazia subir a gasolina, o açúcar, o pão, a carne. Em meio a "Lei do Arrocho Salarial", se queixavam os trabalhadores brasileiros do "condenável" dispositivo do Ministério do Planejamento que versava sobre o reajuste salarial. Este deveria ser de apenas "metade do aumento do custo de vida registrado em igual período", fórmula que levava o trabalhador a uma condição de pauperização. Para justificar a baixa revisão salarial dizia o governo que "nenhum aumento até hoje correspondeu ao aumento real do custo de vida". Por isso a classe trabalhadora contava os dias de o governo Castelo acabar, mas sem imaginar que os "anos de chumbo" ainda estariam por vir. No final das contas o Regime Militar - de acordo com o livro Brasil Nunca Mais, de Dom Paulo Evaristo Arns - levaria o Brasil de encontro à "fome, favelas, enfermidades, marginalidade", e que elas "avançaram em números expressivos".
Em 1965, enquanto o prefeito Alizi Cardoso Costa comemorava, em praça pública, o primeiro ano da ditadura, na época em que chamavam a manobra política de "revolução", o semanário A Estância, se prestando praticamente como órgão militar, dizia que o povo, no dia da comemoração "afluiu às ruas fazendo coro com as nossas autoridades, vivando àqueles bravos militares que chefiaram a Revolução vitoriosa, que baniu os traficantes da nossa liberdade". Meses depois o jornal O Sim Sim trazia um artigo criticando a imposição instalada no Brasil. Esse artigo, corajosamente escrito por José Francisco do Nascimento, aqui já citado, chamava de "crime" e que aquilo continuava "como se fosse a coisa mais normal do mundo". Apontava Estância como "uma das cidades que mais arrecada no estado", tinha "uma situação muito boa em virtude de ser uma cidade industrial tendo ao seu favor a facilidade do transporte". Fazendo, no mesmo artigo, um levantamento à cerca dos descuidos da gestão com as ruas e praças estancianas, chegou a afirmar que Estância não passava de "Um JARDIM ABANDONADO". Sempre escrevendo à cerca dos problemas da sua cidade e do Brasil, talvez esse estilo de escrita tivesse ajudado ao regime militar a torná-lo, em 72, suspeito a ponto de interrogá-lo, como à cima nos referimos. Amigo do Padre Almeida, José Francisco do Nascimento chegou a fazer parte do corpo de redatores de O Sim Sim, um jornal de cunho religioso e, ao mesmo tempo, crítico. (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, Pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

 


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