Bia Ferreira nas lonjuras do Bugio

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A moça canta como ninguém
A moça canta como ninguém

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Publicada em 18/07/2019 às 22:56:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Os embates partidá
rios e eleitorais, as 
narrativas em conflito no Brasil do "golpe", redundaram na emergência de uma sensibilidade francamente fascista. Há alarme, mas também há medo genuíno, sobretudo entre os pretos e pobres, primeiros e únicos a arcar com as consequências das partidas jogadas a portas trancadas no primeiro escalão da República.
No entanto, se a guerra suja do poder parece perdida, no campo da cultura os progressistas ganham de lavada. De outro modo, a música de Bia Ferreira jamais seria veiculada em rede nacional de televisão, como ocorreu ano passado, justamente em programa da vênus platinada. A periferia ganhou visibilidade, foi reconhecida como lugar de inesperada potência. Quem duvida, tem de conferir a apresentação da moça, este fim de semana, nas lonjuras do Bugio.
Eu mesmo não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o primeiro hit da moça, capaz de impressionar gente como Caetano Veloso; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça de homem branco, privilegiado, pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Bia Ferreira se diz sergipana, já andou pela orla de Atalaia, abordando as pessoas com um violão velho e o chapéu estendido. Certa vez, dei a sorte de ser surpreendido enquanto engolia um pedaço de tapioca. Mesmo assim, no susto, entoando repertório alheio, à cata de alguns trocados, ela conseguia impressionar com a força da voz sempre bem colocada. A moça canta como ninguém.
Os primeiros meses da gestão Bolsonaro deixaram um gosto amargo de derrota na boca dos brasileiros sem acesso à Casa Grande. O clima é de rebordosa. Mas enquanto gente como Bia Ferreira tiver espaço para mandar o seu recado - Música de Mulher Preta, em sua própria definição -, estaremos todos bem, apesar de todos os pesares.
Bia Ferreira e Doralyce no Espaço Cultural Boca de Cena:
Sábado, 20 de julho, a partir das 18 horas.

Os embates partidá rios e eleitorais, as  narrativas em conflito no Brasil do "golpe", redundaram na emergência de uma sensibilidade francamente fascista. Há alarme, mas também há medo genuíno, sobretudo entre os pretos e pobres, primeiros e únicos a arcar com as consequências das partidas jogadas a portas trancadas no primeiro escalão da República.
No entanto, se a guerra suja do poder parece perdida, no campo da cultura os progressistas ganham de lavada. De outro modo, a música de Bia Ferreira jamais seria veiculada em rede nacional de televisão, como ocorreu ano passado, justamente em programa da vênus platinada. A periferia ganhou visibilidade, foi reconhecida como lugar de inesperada potência. Quem duvida, tem de conferir a apresentação da moça, este fim de semana, nas lonjuras do Bugio.
Eu mesmo não conheço outro trabalho capaz de equacionar engajamento e valor musical de maneira tão feliz. 'Cota não é esmola', o primeiro hit da moça, capaz de impressionar gente como Caetano Veloso; 'Não precisa ser Amélia', de um feminismo cheio de melanina; 'Boto fé', um sopro de otimismo e boa vontade, comunicam um discurso de gênero e racial radical, muito autêntico, derivado da experiência, sem abrir mão do suingue. Aqui, o ritmo é didático, o balanço do corpo faz a cabeça de homem branco, privilegiado, pegar no tranco, areja o pensamento e ajuda a pensar. 
Bia Ferreira se diz sergipana, já andou pela orla de Atalaia, abordando as pessoas com um violão velho e o chapéu estendido. Certa vez, dei a sorte de ser surpreendido enquanto engolia um pedaço de tapioca. Mesmo assim, no susto, entoando repertório alheio, à cata de alguns trocados, ela conseguia impressionar com a força da voz sempre bem colocada. A moça canta como ninguém.
Os primeiros meses da gestão Bolsonaro deixaram um gosto amargo de derrota na boca dos brasileiros sem acesso à Casa Grande. O clima é de rebordosa. Mas enquanto gente como Bia Ferreira tiver espaço para mandar o seu recado - Música de Mulher Preta, em sua própria definição -, estaremos todos bem, apesar de todos os pesares.
Bia Ferreira e Doralyce no Espaço Cultural Boca de Cena:
Sábado, 20 de julho, a partir das 18 horas.