Ilude-se quem vislumbra vida curta de Bolsonaro no governo

Opinião

 

* Marcos Coimbra
É estranho constatar que alguém tão completamente desprovido de qualidades quanto Jair Bolsonaro ocupe o cargo de presidente da República. Muita gente nem acredita.  
Não sem razão, pois é mesmo chocante que ele tenha vencido uma eleição majoritária no Brasil, país que, até há pouco tempo, era saudado mundo afora pelos avanços sociais.  
Não apenas vencido, mas que faça o lastimável governo que, dizem alguns, chefia.
A incredulidade levanta duas suposições.  
A primeira é que ele talvez não seja o completo idiota que parece - por trás das aparências se esconderia um espertalhão.  
A segunda é que o tamanho de sua incompetência fará com que sua permanência no cargo seja breve.  
É extraordinário, mas permanece a dúvida a respeito da incapacidade mental de Bolsonaro (e, por extensão, daqueles que orbitam em seu entorno), apesar de ele estar no cargo há quase seis meses.  
O tempo deveria ser suficiente para um veredicto.  
Na oposição, muita gente ainda imagina que o ex-capitão e alguns de seus companheiros se fingem de burros e malucos para assim disseminar a confusão e dificultar a compreensão do que fazem.  
Bolsonaro, os patéticos filhos, os ridículos ministros, os desmiolados inspiradores, todos estariam acumpliciados no estratagema.  
A algaravia que fazem não passaria de uma cortina de fumaça para confundir os cidadãos, enquanto realizam seus objetivos políticos e perseguem as metas de sua agenda econômica.
A dificuldade em aceitar que o bolsonarismo é exatamente o que vemos, que nada existe por debaixo dos panos e que os incompetentes parecem ser incompetentes porque o são (assim como os idiotas), talvez decorra de um equívoco a respeito da última eleição.  
A vitória de Bolsonaro não é prova de sua sagacidade e superioridade em relação aos derrotados.  
Ele não venceu por ser, de alguma maneira, "melhor" que esses, o que, por motivos evidentes, os deixaria arrasados. Pior do que Bolsonaro ninguém quer ser.
Não cabe, no entanto, tirar essa lição do resultado eleitoral de 2018.  
É fato que o ex-capitão venceu, mas isso não quer dizer que tenha sido uma vitória limpa ou legítima.  
Ao contrário, ela só veio em razão de uma sucessão de golpes, a começar pela proibição da candidatura de Lula, promovida por ninguém menos que um bolsonarista, futuro ministro do dito-cujo.  
Os derrotados perderam porque ele trapaceou, fugindo do debate democrático e se escondendo atrás de uma suspeitíssima junta médica. Ganhou porque arranjou aliados para financiar ilegalmente uma guerra suja nas redes sociais para destruir a imagem do candidato petista.
Ninguém precisa inventar que Bolsonaro foi competente para não se sentir incompetente.  
Vencer o pleito não o tornou melhor do que antes. Continua a não passar de um medíocre, cercado de medíocres, fazendo um governo medíocre. Para dizer o mínimo.  
A segunda suposição é que um governo tão ruim quanto o de Bolsonaro só pode ter vida curta. Que alguém vai tirá-lo de cena em breve para limpar o Palácio do Planalto e arrumar a bagunça.
Várias opções para essa função de higienização foram cogitadas desde a posse. De todas, a principal aponta para os militares, pois o vice é um general do Exército. Mas há quem aposte que o Congresso, pelas mãos do presidente da Câmara, ou o "mercado" (incluindo seus porta-vozes na mídia), decretando sua desconfiança definitiva no governo, poderiam abreviar o pesadelo.  
Equivoca-se quem pensa assim, por três motivos. O primeiro é o mais evidente: Bolsonaro e os bolsonaristas estão encantados com o poder e só deixarão seus postos quando forem enxotados.  
Pelo segundo motivo, é remota a hipótese de que sejam forçados a sair a curto prazo.  
A maioria da opinião pública por enquanto considera prematura a destituição de Bolsonaro, pois, de acordo com o senso comum, "ainda é cedo": para aqueles com baixo interesse por política e pouco informados, seis meses são insuficientes.  
Chegará o dia em que a maioria da sociedade vai querer vê-lo pelas costas, mas não é agora.  
O terceiro é óbvio: aqueles que o colocaram lá supõem que ele ainda tem serventia.  
Não se iludem com o personagem, mas acreditam que podem dele se aproveitar. Bolsonaro está à disposição para fazer o serviço sujo do ultraliberalismo, mesmo que canhestramente, a seu modo.  
A variável crucial é o comportamento da maioria. À oposição, cabe a responsabilidade de esclarecê-las, mostrando os descalabros que o governo comete e lhes oferecendo outra opção, sem permitir que a crítica seja apresentada como fruto de qualquer rancor pela derrota eleitoral.  
Bater boca com Bolsonaro é jogar o jogo que ele quer, pois é a única coisa que ele sabe fazer.
* Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

* Marcos Coimbra

É estranho constatar que alguém tão completamente desprovido de qualidades quanto Jair Bolsonaro ocupe o cargo de presidente da República. Muita gente nem acredita.  
Não sem razão, pois é mesmo chocante que ele tenha vencido uma eleição majoritária no Brasil, país que, até há pouco tempo, era saudado mundo afora pelos avanços sociais.  
Não apenas vencido, mas que faça o lastimável governo que, dizem alguns, chefia.
A incredulidade levanta duas suposições.  
A primeira é que ele talvez não seja o completo idiota que parece - por trás das aparências se esconderia um espertalhão.  
A segunda é que o tamanho de sua incompetência fará com que sua permanência no cargo seja breve.  
É extraordinário, mas permanece a dúvida a respeito da incapacidade mental de Bolsonaro (e, por extensão, daqueles que orbitam em seu entorno), apesar de ele estar no cargo há quase seis meses.  
O tempo deveria ser suficiente para um veredicto.  
Na oposição, muita gente ainda imagina que o ex-capitão e alguns de seus companheiros se fingem de burros e malucos para assim disseminar a confusão e dificultar a compreensão do que fazem.  
Bolsonaro, os patéticos filhos, os ridículos ministros, os desmiolados inspiradores, todos estariam acumpliciados no estratagema.  
A algaravia que fazem não passaria de uma cortina de fumaça para confundir os cidadãos, enquanto realizam seus objetivos políticos e perseguem as metas de sua agenda econômica.
A dificuldade em aceitar que o bolsonarismo é exatamente o que vemos, que nada existe por debaixo dos panos e que os incompetentes parecem ser incompetentes porque o são (assim como os idiotas), talvez decorra de um equívoco a respeito da última eleição.  
A vitória de Bolsonaro não é prova de sua sagacidade e superioridade em relação aos derrotados.  
Ele não venceu por ser, de alguma maneira, "melhor" que esses, o que, por motivos evidentes, os deixaria arrasados. Pior do que Bolsonaro ninguém quer ser.
Não cabe, no entanto, tirar essa lição do resultado eleitoral de 2018.  
É fato que o ex-capitão venceu, mas isso não quer dizer que tenha sido uma vitória limpa ou legítima.  
Ao contrário, ela só veio em razão de uma sucessão de golpes, a começar pela proibição da candidatura de Lula, promovida por ninguém menos que um bolsonarista, futuro ministro do dito-cujo.  
Os derrotados perderam porque ele trapaceou, fugindo do debate democrático e se escondendo atrás de uma suspeitíssima junta médica. Ganhou porque arranjou aliados para financiar ilegalmente uma guerra suja nas redes sociais para destruir a imagem do candidato petista.
Ninguém precisa inventar que Bolsonaro foi competente para não se sentir incompetente.  
Vencer o pleito não o tornou melhor do que antes. Continua a não passar de um medíocre, cercado de medíocres, fazendo um governo medíocre. Para dizer o mínimo.  
A segunda suposição é que um governo tão ruim quanto o de Bolsonaro só pode ter vida curta. Que alguém vai tirá-lo de cena em breve para limpar o Palácio do Planalto e arrumar a bagunça.
Várias opções para essa função de higienização foram cogitadas desde a posse. De todas, a principal aponta para os militares, pois o vice é um general do Exército. Mas há quem aposte que o Congresso, pelas mãos do presidente da Câmara, ou o "mercado" (incluindo seus porta-vozes na mídia), decretando sua desconfiança definitiva no governo, poderiam abreviar o pesadelo.  
Equivoca-se quem pensa assim, por três motivos. O primeiro é o mais evidente: Bolsonaro e os bolsonaristas estão encantados com o poder e só deixarão seus postos quando forem enxotados.  
Pelo segundo motivo, é remota a hipótese de que sejam forçados a sair a curto prazo.  
A maioria da opinião pública por enquanto considera prematura a destituição de Bolsonaro, pois, de acordo com o senso comum, "ainda é cedo": para aqueles com baixo interesse por política e pouco informados, seis meses são insuficientes.  
Chegará o dia em que a maioria da sociedade vai querer vê-lo pelas costas, mas não é agora.  
O terceiro é óbvio: aqueles que o colocaram lá supõem que ele ainda tem serventia.  
Não se iludem com o personagem, mas acreditam que podem dele se aproveitar. Bolsonaro está à disposição para fazer o serviço sujo do ultraliberalismo, mesmo que canhestramente, a seu modo.  
A variável crucial é o comportamento da maioria. À oposição, cabe a responsabilidade de esclarecê-las, mostrando os descalabros que o governo comete e lhes oferecendo outra opção, sem permitir que a crítica seja apresentada como fruto de qualquer rancor pela derrota eleitoral.  
Bater boca com Bolsonaro é jogar o jogo que ele quer, pois é a única coisa que ele sabe fazer.

* Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

 


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