FEC: música contra o chumbo da ditadura - II

Opinião

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
No mês de dezembro Estância estava inaugurando a nova iluminação fluorescente e a vapor de mercúrio, mas somente nas ruas e praças centrais. A novidade foi bem recebida pela população, porém "atrasada" em relação a outras cidades de menor porte do Estado. No dia 31 de janeiro de 1964 o prefeito petebista Pascoal Nabuco, havia comemorado um ano de governo, e contava com o apoio dos correligionários Francisco de Araújo Macedo e da esposa Núbia Nabuco Macedo (que na década de 1950 tinha sido prefeita da cidade). Receberia, em fevereiro, a visita da "Caravana da Cultura", uma proposta do MEC em levar arte, teatro, música, ginástica e livros ao interior do país. Por sua importância cultural, vale destacarmos preliminarmente a passagem dessa caravana pela cidade, pois ela iria, de alguma maneira, influenciar Estância política e artisticamente. 
Prevista sua chegada às nove da manhã, ela apareceria somente por volta das 14h30min. A caravana - que já havia percorrido Minas Gerais, Alagoas e Bahia - adentrou a cidade pela rua Cachoeira e chegou transportada em cinco ônibus e três caminhões. Com ela também vinha o embaixador Pascoal Carlos Magno. Na Praça Barão do Rio Branco, após as devidas recepções, a caravana passaria a movimentar a cidade, utilizando-se da estratégia de se apresentar pelos bairros. Logo à tardinha foi feita apresentação de ginástica no bairro Santa Cruz, levada pela Força Pública de São Paulo; no bairro Bomfim, no Grêmio União Têxtil, se apresentaria o Quinteto de Sopro Villa-Lobos, para crianças, do Rio de Janeiro (a época, Estado da Guanabara); no Cinema São João teve apresentação de Balé; no Ginásio Sagrado Coração de Jesus, peça do Grupo de Teatro Infantil e exposição de quadros do Museu de Belas Artes de São Paulo. À noite, em mais um evento cultural, sabendo do antigo desejo dos estancianos de construir um teatro na cidade, o citado embaixador valorizou a iniciativa e mostrou disposição em patrociná-lo. A caravana, também fez doação de dezenas de livros às diversas instituições. Entusiasmado, o semanário Folha Trabalhista concluiria que esse teria "sido o maior acontecimento de toda a vida sociocultural da Estância". Talvez pela marcante passagem desses artistas por aqui, em 1968, o prefeito Raimundo Silveira Souza, ao inaugurar a rua Jessé Fontes, faria um mural  e nele colocaria uma placa de bronze, assinados por Pascoal Carlos Magno, com os seguintes dizeres: "Estância, com suas casas embrulhadas em azulejos, local ideal para seminários de música, encontro de professores, refúgio para intelectuais e artistas de todas as artes". Localizado próximo ao Posto Estanciano, o mural, então projetado por Bedóia, ainda existe, mas a referida placa desapareceu. Figura nacionalmente importante, o escritor Pascoal Carlos Magno (1906-1980) é apontado como um dos inovadores do teatro brasileiro. 
Novas caravanas estavam sendo preparadas para envolver o interior do Brasil. No entanto, com o golpe político que viria sofrer o governo João Goulart (Jango), e com a instalação dos militares no governo, estes passariam a revisar tudo referente "à cultura popular, no plano nacional" e o antigo desejo de construir o teatro estanciano seria malogrado.
Após o anúncio do golpe em todo o país, nos inícios do mês de abril o prefeito Nabuco se encontrava em "franca atividade". Queria mostrar um governo firme em seus propósitos, pois pretendia realizar muitas obras ainda no primeiro semestre. Já havia concluído o Matadouro, calçado algumas ruas e estava prestes a calçar o rua dos Ferreiros. No parque, chamado à época Nilo Peçanha (popular Jardim Velho), pretendia construir, na parte inferior do coreto, uma biblioteca infantil. Sua administração havia também construído o Ginásio Industrial, uma importante escola municipal. Mas, não adiantou. No dia 17 de abril Pascoal Nabuco, advogado e professor, eleito com boa margem de voto, foi preso. Tudo por causa das suas inclinações às propostas idealizadas por Jango à cerca das mudanças na reforma agrária, bancária, previdenciária. Afinal, era do PTB, mesmo partido do então presidente. Deposto pela Câmara Municipal, "por solicitação do representante do Alto Comando do Exército", nenhum voto a favor. Impeachment. Em seu lugar passou a assumir o presidente da Câmara, o vereador Alizí Cardoso Costa. Na época, além dele a cidade possuía mais quatro vereadores: Alcides José dos Santos (ABC), Leopoldo Araújo Neto, Welington Lima e Manuel da Paixão Franca Fróis, eleitos como o próprio Pascoal, no pleito de 7 de outubro de 1962. Votaram 4.378 eleitores. De acordo com os dados do IBGE, em 1960 a cidade possuía 23.973 habitantes.
No ano de 1964, não se pode negar que a cidade estivesse bem servida de parlamentares. Eles eram em número de quatro: a Deputada Estadual Núbia Nabuco Macedo e Francisco Macedo (no seu terceiro mandato, sendo o primeiro estadual e, no citado ano, na vigência do segundo mandato de deputado federal), o deputado estadual Pedro Siqueira (que teria sido prefeito na gestão anterior) e Júlio César Leite, como senador em seu segundo mandato. Em Estância, esse número de parlamentares presentes ao mesmo tempo nas três esferas de poder, até o momento, permanece único em sua história. 
No que se refere à prisão de outros envolvidos na forma "esquerdista" de pensar, os delatores estancianos, possivelmente os adversários políticos, passariam informações precisas de como pensavam, o que faziam, quais eram os hábitos dos ditos "subversivos". Assim, foi pego pelos militares o pessoal que escrevia em jornal, notadamente sobre temas da então propalada Reformas de Base, estudantes tidos como "revolucionários", palestrantes, sindicalistas, precisamente os que lutavam pela reforma agrária. 
Cidade eminentemente operária, a presença de sindicalistas em Estância era compreensível por conta da existência das fábricas de tecido. Os trabalhadores estancianos seriam impelidos a se proteger nas organizações sindicais e o primeiro desses sindicatos surgiria no ano de 1932, em meio a uma greve na fábrica Senhor do Bomfim, a segunda de tecelagem da cidade. Essa instituição denominada Sindicato de Fiação e Tecelagem teria importante apoio do jornal Folha Trabalhista, órgão ligado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sempre atento em alertar os operários na defesa de seus direitos, chegando a fazer até mesmo campanha de sindicalização. Esse ambiente de afeição às lutas sociais favoreceria, mais tarde, a criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, em 1963. (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

No mês de dezembro Estância estava inaugurando a nova iluminação fluorescente e a vapor de mercúrio, mas somente nas ruas e praças centrais. A novidade foi bem recebida pela população, porém "atrasada" em relação a outras cidades de menor porte do Estado. No dia 31 de janeiro de 1964 o prefeito petebista Pascoal Nabuco, havia comemorado um ano de governo, e contava com o apoio dos correligionários Francisco de Araújo Macedo e da esposa Núbia Nabuco Macedo (que na década de 1950 tinha sido prefeita da cidade). Receberia, em fevereiro, a visita da "Caravana da Cultura", uma proposta do MEC em levar arte, teatro, música, ginástica e livros ao interior do país. Por sua importância cultural, vale destacarmos preliminarmente a passagem dessa caravana pela cidade, pois ela iria, de alguma maneira, influenciar Estância política e artisticamente. 
Prevista sua chegada às nove da manhã, ela apareceria somente por volta das 14h30min. A caravana - que já havia percorrido Minas Gerais, Alagoas e Bahia - adentrou a cidade pela rua Cachoeira e chegou transportada em cinco ônibus e três caminhões. Com ela também vinha o embaixador Pascoal Carlos Magno. Na Praça Barão do Rio Branco, após as devidas recepções, a caravana passaria a movimentar a cidade, utilizando-se da estratégia de se apresentar pelos bairros. Logo à tardinha foi feita apresentação de ginástica no bairro Santa Cruz, levada pela Força Pública de São Paulo; no bairro Bomfim, no Grêmio União Têxtil, se apresentaria o Quinteto de Sopro Villa-Lobos, para crianças, do Rio de Janeiro (a época, Estado da Guanabara); no Cinema São João teve apresentação de Balé; no Ginásio Sagrado Coração de Jesus, peça do Grupo de Teatro Infantil e exposição de quadros do Museu de Belas Artes de São Paulo. À noite, em mais um evento cultural, sabendo do antigo desejo dos estancianos de construir um teatro na cidade, o citado embaixador valorizou a iniciativa e mostrou disposição em patrociná-lo. A caravana, também fez doação de dezenas de livros às diversas instituições. Entusiasmado, o semanário Folha Trabalhista concluiria que esse teria "sido o maior acontecimento de toda a vida sociocultural da Estância". Talvez pela marcante passagem desses artistas por aqui, em 1968, o prefeito Raimundo Silveira Souza, ao inaugurar a rua Jessé Fontes, faria um mural  e nele colocaria uma placa de bronze, assinados por Pascoal Carlos Magno, com os seguintes dizeres: "Estância, com suas casas embrulhadas em azulejos, local ideal para seminários de música, encontro de professores, refúgio para intelectuais e artistas de todas as artes". Localizado próximo ao Posto Estanciano, o mural, então projetado por Bedóia, ainda existe, mas a referida placa desapareceu. Figura nacionalmente importante, o escritor Pascoal Carlos Magno (1906-1980) é apontado como um dos inovadores do teatro brasileiro. 
Novas caravanas estavam sendo preparadas para envolver o interior do Brasil. No entanto, com o golpe político que viria sofrer o governo João Goulart (Jango), e com a instalação dos militares no governo, estes passariam a revisar tudo referente "à cultura popular, no plano nacional" e o antigo desejo de construir o teatro estanciano seria malogrado.
Após o anúncio do golpe em todo o país, nos inícios do mês de abril o prefeito Nabuco se encontrava em "franca atividade". Queria mostrar um governo firme em seus propósitos, pois pretendia realizar muitas obras ainda no primeiro semestre. Já havia concluído o Matadouro, calçado algumas ruas e estava prestes a calçar o rua dos Ferreiros. No parque, chamado à época Nilo Peçanha (popular Jardim Velho), pretendia construir, na parte inferior do coreto, uma biblioteca infantil. Sua administração havia também construído o Ginásio Industrial, uma importante escola municipal. Mas, não adiantou. No dia 17 de abril Pascoal Nabuco, advogado e professor, eleito com boa margem de voto, foi preso. Tudo por causa das suas inclinações às propostas idealizadas por Jango à cerca das mudanças na reforma agrária, bancária, previdenciária. Afinal, era do PTB, mesmo partido do então presidente. Deposto pela Câmara Municipal, "por solicitação do representante do Alto Comando do Exército", nenhum voto a favor. Impeachment. Em seu lugar passou a assumir o presidente da Câmara, o vereador Alizí Cardoso Costa. Na época, além dele a cidade possuía mais quatro vereadores: Alcides José dos Santos (ABC), Leopoldo Araújo Neto, Welington Lima e Manuel da Paixão Franca Fróis, eleitos como o próprio Pascoal, no pleito de 7 de outubro de 1962. Votaram 4.378 eleitores. De acordo com os dados do IBGE, em 1960 a cidade possuía 23.973 habitantes.
No ano de 1964, não se pode negar que a cidade estivesse bem servida de parlamentares. Eles eram em número de quatro: a Deputada Estadual Núbia Nabuco Macedo e Francisco Macedo (no seu terceiro mandato, sendo o primeiro estadual e, no citado ano, na vigência do segundo mandato de deputado federal), o deputado estadual Pedro Siqueira (que teria sido prefeito na gestão anterior) e Júlio César Leite, como senador em seu segundo mandato. Em Estância, esse número de parlamentares presentes ao mesmo tempo nas três esferas de poder, até o momento, permanece único em sua história. 
No que se refere à prisão de outros envolvidos na forma "esquerdista" de pensar, os delatores estancianos, possivelmente os adversários políticos, passariam informações precisas de como pensavam, o que faziam, quais eram os hábitos dos ditos "subversivos". Assim, foi pego pelos militares o pessoal que escrevia em jornal, notadamente sobre temas da então propalada Reformas de Base, estudantes tidos como "revolucionários", palestrantes, sindicalistas, precisamente os que lutavam pela reforma agrária. 
Cidade eminentemente operária, a presença de sindicalistas em Estância era compreensível por conta da existência das fábricas de tecido. Os trabalhadores estancianos seriam impelidos a se proteger nas organizações sindicais e o primeiro desses sindicatos surgiria no ano de 1932, em meio a uma greve na fábrica Senhor do Bomfim, a segunda de tecelagem da cidade. Essa instituição denominada Sindicato de Fiação e Tecelagem teria importante apoio do jornal Folha Trabalhista, órgão ligado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sempre atento em alertar os operários na defesa de seus direitos, chegando a fazer até mesmo campanha de sindicalização. Esse ambiente de afeição às lutas sociais favoreceria, mais tarde, a criação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, em 1963. (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, professor do Estado e da Rede Pública de Estância

 


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