HOLOCAUSTO BRASILEIRO (IV)

Opinião

 

* Manoel Moacir Costa Macêdo
Nada mais assemelhado a um holocausto, que vidas ceifadas pela cruel violência. Um permitido genocídio com idade, cor, local e status quo. Geografia e sociologia conhecidas, numa matança de jovens, negros, pobres, excluídos e viventes nas ruas, periferias, cortiços e favelas das metrópoles dessa desigual Nação. Marginais dos elementares direitos e valores civilizatórios, advindos do iluminismo.  
O "Atlas da Violência no Brasil de 2019", elaborado pelo credenciado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, revela que 65 mil homicídios de brasileiros foram oriundos da violência. 72,4% cometidos por armas de fogo. 13 mulheres assassinadas por dia. A taxa de homicídios de negros aumentou em 33% em dez anos. Em Sergipe, dos 1.313 homicídios, 767 foram de jovens entre 15 e 29 anos. Evidências de um medieval extermínio. Uma realidade consentida, previsível e de fácil diagnóstico, longe de qualquer determinismo. Visível aos olhos nus, numa sociedade majoritariamente cristã, mas cega perante as injustiças e a desigualdade. Holocausto encoberto pelos poderes republicanos, o "silêncio dos bons", a hipocrisia da elite e as corporações demandantes de seletivos privilégios, como se todos fossem iguais. Tudo, a persistir no tempo, como se nada de anímico estivesse em curso. Identidade inexorável de mais um "holocausto a brasileira". 
Quiçá os arquétipos do psiquiatra Carl Jung, expliquem pelo inconsciente coletivo, os pulsares de vingança, incutidos no imaginário popular de uma sociedade dita cordial, pacífica e alegre, mas na práxis, agressiva, violenta e omissa de justiça e solidariedade com os pobres e miseráveis, chamados vergonhosamente de irmãos nos cultos e igrejas. Uma expressão de pecado capital, a ser auditado inexoravelmente na pós-materialidade. O "Atlas da Violência", com números alarmantes, mostrou que somos indiferentes à morte de vulneráveis e à coesão social. Além de matar, calamos frente a violência do "holocausto carcerário", onde milhares de pobres apodrecem em masmorras medievais. Verdadeiras universidades do crime. Depósitos de vingança e insensibilidade. Não é de hoje, que se diz: "o Brasil prende muito, e prende mal". 
No recente ensaio "Nação em funeral", o Professor José de Sousa Martins, estudioso emérito da sociologia brasileira, a exemplo dos "linchamentos", escreveu que a violência no Brasil "nos põe diante da ocorrência de homicídios, que prosperaram enquanto o país se atrasou. Sabemos matar, mas não sabemos viver. As maiores vítimas da violência letal está na faixa etária dos jovens entre 15 e 29 anos, próxima ou acima de 50%. E a taxa dessa violência contra adolescentes de 10 a 14 anos, que é de 14,1%, é tão alta quanto à contra o total de todos os homens, 14,7 %. Um jeito brutal de se tornarem adultos na morte antes do tempo. O Brasil começa a matar cedo suas novas gerações, antes de dar-lhes uma oportunidade de viver e de saber o que é a vida. São pessoas que nasceram e cresceram à espera da morte e não para viver".
Discursos, engodos e preces em lábios profanos, são reproduzidos nos diversos níveis da sociedade, a exemplo das estruturas e poderes estatais, todos carentes de compromissos e consistentes estratégias para enfrentar esse horroroso holocausto. A simplificação das retóricas, escamoteia a sua complexidade. Louvores são alardeados às construções de presídios, liberação de porte de armas e endurecimento da legislação penal. Reais expressões de vingança, jamais de justiça, misericórdia, piedade e soluções estruturantes. Rupturas são desejadas, a partir da indignação social, construção de escolas, desmonte dos calabouços carcerários, políticas sociais robustas, ressocialização de apenados, combate à corrupção e enfrentamento da persistente desigualdade - a raiz dos "holocaustos brasileiros" -. 
Manoel Moacir Costa Macêdo
 Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

Holocausto encoberto pelos poderes republicanos, o "silêncio dos bons", a hipocrisia da elite e as corporações demandantes de seletivos privilégios, como se todos fossem iguais. Tudo, a persistir no tempo, como se nada de anímico estivesse em curso. Identidade inexorável de mais um "holocausto a brasileira"

* Manoel Moacir Costa Macêdo

Nada mais assemelhado a um holocausto, que vidas ceifadas pela cruel violência. Um permitido genocídio com idade, cor, local e status quo. Geografia e sociologia conhecidas, numa matança de jovens, negros, pobres, excluídos e viventes nas ruas, periferias, cortiços e favelas das metrópoles dessa desigual Nação. Marginais dos elementares direitos e valores civilizatórios, advindos do iluminismo.  
O "Atlas da Violência no Brasil de 2019", elaborado pelo credenciado Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, revela que 65 mil homicídios de brasileiros foram oriundos da violência. 72,4% cometidos por armas de fogo. 13 mulheres assassinadas por dia. A taxa de homicídios de negros aumentou em 33% em dez anos. Em Sergipe, dos 1.313 homicídios, 767 foram de jovens entre 15 e 29 anos. Evidências de um medieval extermínio. Uma realidade consentida, previsível e de fácil diagnóstico, longe de qualquer determinismo. Visível aos olhos nus, numa sociedade majoritariamente cristã, mas cega perante as injustiças e a desigualdade. Holocausto encoberto pelos poderes republicanos, o "silêncio dos bons", a hipocrisia da elite e as corporações demandantes de seletivos privilégios, como se todos fossem iguais. Tudo, a persistir no tempo, como se nada de anímico estivesse em curso. Identidade inexorável de mais um "holocausto a brasileira". 
Quiçá os arquétipos do psiquiatra Carl Jung, expliquem pelo inconsciente coletivo, os pulsares de vingança, incutidos no imaginário popular de uma sociedade dita cordial, pacífica e alegre, mas na práxis, agressiva, violenta e omissa de justiça e solidariedade com os pobres e miseráveis, chamados vergonhosamente de irmãos nos cultos e igrejas. Uma expressão de pecado capital, a ser auditado inexoravelmente na pós-materialidade. O "Atlas da Violência", com números alarmantes, mostrou que somos indiferentes à morte de vulneráveis e à coesão social. Além de matar, calamos frente a violência do "holocausto carcerário", onde milhares de pobres apodrecem em masmorras medievais. Verdadeiras universidades do crime. Depósitos de vingança e insensibilidade. Não é de hoje, que se diz: "o Brasil prende muito, e prende mal". 
No recente ensaio "Nação em funeral", o Professor José de Sousa Martins, estudioso emérito da sociologia brasileira, a exemplo dos "linchamentos", escreveu que a violência no Brasil "nos põe diante da ocorrência de homicídios, que prosperaram enquanto o país se atrasou. Sabemos matar, mas não sabemos viver. As maiores vítimas da violência letal está na faixa etária dos jovens entre 15 e 29 anos, próxima ou acima de 50%. E a taxa dessa violência contra adolescentes de 10 a 14 anos, que é de 14,1%, é tão alta quanto à contra o total de todos os homens, 14,7 %. Um jeito brutal de se tornarem adultos na morte antes do tempo. O Brasil começa a matar cedo suas novas gerações, antes de dar-lhes uma oportunidade de viver e de saber o que é a vida. São pessoas que nasceram e cresceram à espera da morte e não para viver".
Discursos, engodos e preces em lábios profanos, são reproduzidos nos diversos níveis da sociedade, a exemplo das estruturas e poderes estatais, todos carentes de compromissos e consistentes estratégias para enfrentar esse horroroso holocausto. A simplificação das retóricas, escamoteia a sua complexidade. Louvores são alardeados às construções de presídios, liberação de porte de armas e endurecimento da legislação penal. Reais expressões de vingança, jamais de justiça, misericórdia, piedade e soluções estruturantes. Rupturas são desejadas, a partir da indignação social, construção de escolas, desmonte dos calabouços carcerários, políticas sociais robustas, ressocialização de apenados, combate à corrupção e enfrentamento da persistente desigualdade - a raiz dos "holocaustos brasileiros" -. 

Manoel Moacir Costa Macêdo Engenheiro Agrônomo, Advogado, PhD pela University of Sussex, Brighton, Inglaterra

 


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