Tudo cura: a fé, a reza e o ramo de mato

Opinião

 

*Rangel Alves da Costa
Qual o poder e o milagre que possui uma pequena pedra, uma folha de mato, um pouco de areia? Qual a força transformadora que possui o silêncio na voz, o lábio tremulante, a mão estendida? Qual a energia prodigiosa contida em pequenos grãos, num pedaço de pano, no inusitado que se encontre pela natureza? 
Certamente que sozinhos, sem nenhuma ação, tais elementos e objetos pouca valia terão. Eis, então, o mistério revelado: a força, a fé, a força na ação, de quem os utiliza e para os fins que são utilizados. E pessoas existem - ou existiram em muito maior quantidade pelos sertões nordestinos - que carregam consigo o poder transformador através de tais elementos e objetos.
Assim porque um pequeno ramo ou uma simples folha possui imensurável poder nas mãos de um rezador, de uma benzedeira, de um curador. E assim porque orações poderosas, rezas ancestrais e palavras misteriosas, possuem indescritível poder de cura, de transformação e de desvendamento de males, pelas mãos de pessoas tão simples quanto essenciais perante casos onde nem a medicina e a farmácia conseguem agir.
Os sertanejos mais antigos conhecem bem esse poder de cura. De repente, sentindo-se enfraquecidos, logo iam à procura de uma reza forte não só para afastar o mau-olhado e outras mazelas como para se fortalecer espiritualmente. Então a velha senhora, uma simples vivente de casebre de barro batido, nem precisava perguntar à pessoa sobre o que se tratava. Bastava que aqueles olhos de sabedoria do mundo a avistasse para saber o motivo de estar ali. 
Bastava, pois, uma ligeira olhada para já saber o que fazer. E tudo feito na mais simplicidade do mundo. Mandava que a pessoa sentasse num tamborete ao fundo do quintal, depois seguia pelos cantos e arredores em busca de ramos ou folhas de mato, e o passo seguinte era iniciar a cura. As mãos envelhecidas levantavam os ramos sobre o corpo e a cabeça, enquanto a mão perpassava o mato de lado a outro, a voz apenas sussurrante ia dizendo preces e orações. 
Não demorava muito e os ramos estavam totalmente murchos. Significava que a carga na pessoa era tão negativa que até os ramos haviam definhado. Após aquelas impurezas serem jogadas ao longe, então a velha senhora dava a reza por terminada ou fazia algumas prescrições. Tomar três banhos com água corrente, beber água de moringa dormida na janela durante três dias seguidos, levar pelo corpo três ramos de uma planta protetora. E assim por diante.
Prescrições que, ao lado da fé, sempre davam resultados. Passar três sem se abaixar, não fazer safadeza de cama em igual período, não carregar peso nos ombros, evitar de abrir a porta sem antes sentir o vento pela fresta, colocar numa bacia as sete ervas milagrosas e com a água se banhar em noite de lua cheia. E se não desse o resultado esperado, então que voltasse para que a reza fosse redobrada.
Prece, oração, benzimento, imposição das mãos, tudo com o seu devido na cura de enfermidades do corpo e da alma. Numa época sem serviços médicos constantes e sem dentistas nas proximidades, ou mesmo sem farmácia e seus remédios mirabolantes, a única salvação para uma dor de forte, daquelas que deixa o sujeito capaz de endoidar, era recorrer ao curador mais próximo. Em Poço Redondo, no sertão sergipano, João de Terto, famoso curador, utilizava nada mais nada menos que pedrinhas da rua ou do quintal para dissipar qualquer tipo de dor.
Lançando mão das pedras, geralmente em número de três, ia tocando uma a uma por cima do local do doente doído. Diversas situações exigiam toques mais fortes, causando até outro tipo de dor ao paciente, mas coisa de não demorar muito, pois bastava que ele mandasse a pessoa retornar que, antes mesmo de chegar em casa, toda dor já havia se dissipado. Logicamente que não bastava apenas o toque das pedras sobre a face, mas, e principalmente, a reza forte que acompanhava todo o ritual. Muita gente dizia conhecer tais rezas, mas ainda assim não conseguia alcançar qualquer resultado. Depreende-se, assim, que os seus poderes estavam imanados também no curador.
Muita gente ia a busca dos milagreiros para curar uma espinhela caída, uma dor nos quartos, uma boca torta por algum vento mau, um estado de definhamento espiritual, um problema qualquer. Toda a cura vinha no ramo, na folha do mato, no toque das mãos, nos segredos balbuciados, na mais pura fé. Ora, não se pode imaginar que quem cultua tais sabedorias ancestrais apenas repasse ensinamentos. A fé e a crença estão acima de tudo. 
Neste sentido, mesmo as rezas misteriosas e todo o aparato ritualístico, sempre trazem uma feição do sagrado. Em cada um, seja paciente ou curador, a certeza que a cura somente é alcançada com a intercessão divina. Uma fé que hoje não se vislumbra mais no povo com a intensidade de antigamente. E por isso mesmo a diminuição do número de benzedeiras, rezadeiras e curadores. Até mesmo as parteiras estão deixando de existir pelos rincões sertanejos.
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Qual o poder e o milagre que possui uma pequena pedra, uma folha de mato, um pouco de areia? Qual a força transformadora que possui o silêncio na voz, o lábio tremulante, a mão estendida? Qual a energia prodigiosa contida em pequenos grãos, num pedaço de pano, no inusitado que se encontre pela natureza? 
Certamente que sozinhos, sem nenhuma ação, tais elementos e objetos pouca valia terão. Eis, então, o mistério revelado: a força, a fé, a força na ação, de quem os utiliza e para os fins que são utilizados. E pessoas existem - ou existiram em muito maior quantidade pelos sertões nordestinos - que carregam consigo o poder transformador através de tais elementos e objetos.
Assim porque um pequeno ramo ou uma simples folha possui imensurável poder nas mãos de um rezador, de uma benzedeira, de um curador. E assim porque orações poderosas, rezas ancestrais e palavras misteriosas, possuem indescritível poder de cura, de transformação e de desvendamento de males, pelas mãos de pessoas tão simples quanto essenciais perante casos onde nem a medicina e a farmácia conseguem agir.
Os sertanejos mais antigos conhecem bem esse poder de cura. De repente, sentindo-se enfraquecidos, logo iam à procura de uma reza forte não só para afastar o mau-olhado e outras mazelas como para se fortalecer espiritualmente. Então a velha senhora, uma simples vivente de casebre de barro batido, nem precisava perguntar à pessoa sobre o que se tratava. Bastava que aqueles olhos de sabedoria do mundo a avistasse para saber o motivo de estar ali. 
Bastava, pois, uma ligeira olhada para já saber o que fazer. E tudo feito na mais simplicidade do mundo. Mandava que a pessoa sentasse num tamborete ao fundo do quintal, depois seguia pelos cantos e arredores em busca de ramos ou folhas de mato, e o passo seguinte era iniciar a cura. As mãos envelhecidas levantavam os ramos sobre o corpo e a cabeça, enquanto a mão perpassava o mato de lado a outro, a voz apenas sussurrante ia dizendo preces e orações. 
Não demorava muito e os ramos estavam totalmente murchos. Significava que a carga na pessoa era tão negativa que até os ramos haviam definhado. Após aquelas impurezas serem jogadas ao longe, então a velha senhora dava a reza por terminada ou fazia algumas prescrições. Tomar três banhos com água corrente, beber água de moringa dormida na janela durante três dias seguidos, levar pelo corpo três ramos de uma planta protetora. E assim por diante.
Prescrições que, ao lado da fé, sempre davam resultados. Passar três sem se abaixar, não fazer safadeza de cama em igual período, não carregar peso nos ombros, evitar de abrir a porta sem antes sentir o vento pela fresta, colocar numa bacia as sete ervas milagrosas e com a água se banhar em noite de lua cheia. E se não desse o resultado esperado, então que voltasse para que a reza fosse redobrada.
Prece, oração, benzimento, imposição das mãos, tudo com o seu devido na cura de enfermidades do corpo e da alma. Numa época sem serviços médicos constantes e sem dentistas nas proximidades, ou mesmo sem farmácia e seus remédios mirabolantes, a única salvação para uma dor de forte, daquelas que deixa o sujeito capaz de endoidar, era recorrer ao curador mais próximo. Em Poço Redondo, no sertão sergipano, João de Terto, famoso curador, utilizava nada mais nada menos que pedrinhas da rua ou do quintal para dissipar qualquer tipo de dor.
Lançando mão das pedras, geralmente em número de três, ia tocando uma a uma por cima do local do doente doído. Diversas situações exigiam toques mais fortes, causando até outro tipo de dor ao paciente, mas coisa de não demorar muito, pois bastava que ele mandasse a pessoa retornar que, antes mesmo de chegar em casa, toda dor já havia se dissipado. Logicamente que não bastava apenas o toque das pedras sobre a face, mas, e principalmente, a reza forte que acompanhava todo o ritual. Muita gente dizia conhecer tais rezas, mas ainda assim não conseguia alcançar qualquer resultado. Depreende-se, assim, que os seus poderes estavam imanados também no curador.
Muita gente ia a busca dos milagreiros para curar uma espinhela caída, uma dor nos quartos, uma boca torta por algum vento mau, um estado de definhamento espiritual, um problema qualquer. Toda a cura vinha no ramo, na folha do mato, no toque das mãos, nos segredos balbuciados, na mais pura fé. Ora, não se pode imaginar que quem cultua tais sabedorias ancestrais apenas repasse ensinamentos. A fé e a crença estão acima de tudo. 
Neste sentido, mesmo as rezas misteriosas e todo o aparato ritualístico, sempre trazem uma feição do sagrado. Em cada um, seja paciente ou curador, a certeza que a cura somente é alcançada com a intercessão divina. Uma fé que hoje não se vislumbra mais no povo com a intensidade de antigamente. E por isso mesmo a diminuição do número de benzedeiras, rezadeiras e curadores. Até mesmo as parteiras estão deixando de existir pelos rincões sertanejos.

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com

 


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