Gracias a la vida

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Caso raro de talento e sorte, Mercedes Sosa é uma em um milhão
Caso raro de talento e sorte, Mercedes Sosa é uma em um milhão

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Publicada em 05/06/2019 às 23:09:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Com as costas que
bradas, à beira dos 
40 anos, eu tenho todos os motivos do mundo para fazer minhas, apesar da voz desafinada, as palavras mais felizes de Mercedes Sosa: "Gracias a la vida que me ha dado tanto". Sim, o Brasil nos obriga a beber. O pão é caro, a liberdade pequena. Mas quem é pago para escrever o que lhe dá na veneta não tem do que reclamar realmente, está no lucro.
Dona Eliene, a senhora minha mãe, sempre temeu pelo destino de seu único filho homem. Mortificava-lhe a ideia de ter dado à luz um poeta. O fantasma maltrapilho da mendicância mordia a carne de sua carne em pesadelos terriveis. Ela tremia. Mamãe jamais sofreu de romantismo. 
Vida de artista não é fácil. Aqui e agora, pior ainda. Um cantor avesso à MPPB (Música Para Pagar Boleto), indisposto a longas jornadas nos bares da vida, por exemplo, tem a alternativa de passar o chapéu no meio da rua, ou batalhar um trocado nas piores casas do ramo - a realidade nua e crua das madrugadas na aldeia. Se depender do poder público, política cultural, edital de fomento e ocupação dos espaços disponíveis, o infeliz tocado pelo anjo torto do talento criativo morre de fome, feito um indigente. 
Muito se fala das perseguições promovidas pelo presidente Bolsonaro aos nichos de pensamento à esquerda do espectro político. E quem aponta a truculência autoritária do Governo Federal está coberto de razão. A bem da verdade, no entanto, toda a turma de terno e gravata sustentada pelos contribuintes não passa de um bando de  homens broncos. Daí o papel secundário atribuído a artistas, em particular, e a Cultura, em âmbito mais abrangente.
Há exceções, naturalmente. Tomado por analfabeto, Lula teve a inteligência de se cercar de figuras engajadas nos embates próprios da classe artística. Déda, um caso raro de político ilustrado, seguiu o exemplo do grande líder e promoveu uma pequena revolução na Fundação Aperipê. Coincidência ou não, os dois foram eleitos com a estrela do Partido dos Trabalhadores pendurada no peito. Outro exemplo não me ocorre.
Os calos nas pontas dos meus dedos são testemunhas de um risco imenso. Caso raro de talento e sorte, Mercedes Sosa é uma em um milhão. Hoje, eu comemoro aniversários e Dona Eliene dorme o sono dos justos. Aqui em casa, mulher e bichos, estamos todos bem.

Com as costas que bradas, à beira dos  40 anos, eu tenho todos os motivos do mundo para fazer minhas, apesar da voz desafinada, as palavras mais felizes de Mercedes Sosa: "Gracias a la vida que me ha dado tanto". Sim, o Brasil nos obriga a beber. O pão é caro, a liberdade pequena. Mas quem é pago para escrever o que lhe dá na veneta não tem do que reclamar realmente, está no lucro.
Dona Eliene, a senhora minha mãe, sempre temeu pelo destino de seu único filho homem. Mortificava-lhe a ideia de ter dado à luz um poeta. O fantasma maltrapilho da mendicância mordia a carne de sua carne em pesadelos terriveis. Ela tremia. Mamãe jamais sofreu de romantismo. 
Vida de artista não é fácil. Aqui e agora, pior ainda. Um cantor avesso à MPPB (Música Para Pagar Boleto), indisposto a longas jornadas nos bares da vida, por exemplo, tem a alternativa de passar o chapéu no meio da rua, ou batalhar um trocado nas piores casas do ramo - a realidade nua e crua das madrugadas na aldeia. Se depender do poder público, política cultural, edital de fomento e ocupação dos espaços disponíveis, o infeliz tocado pelo anjo torto do talento criativo morre de fome, feito um indigente. 
Muito se fala das perseguições promovidas pelo presidente Bolsonaro aos nichos de pensamento à esquerda do espectro político. E quem aponta a truculência autoritária do Governo Federal está coberto de razão. A bem da verdade, no entanto, toda a turma de terno e gravata sustentada pelos contribuintes não passa de um bando de  homens broncos. Daí o papel secundário atribuído a artistas, em particular, e a Cultura, em âmbito mais abrangente.
Há exceções, naturalmente. Tomado por analfabeto, Lula teve a inteligência de se cercar de figuras engajadas nos embates próprios da classe artística. Déda, um caso raro de político ilustrado, seguiu o exemplo do grande líder e promoveu uma pequena revolução na Fundação Aperipê. Coincidência ou não, os dois foram eleitos com a estrela do Partido dos Trabalhadores pendurada no peito. Outro exemplo não me ocorre.
Os calos nas pontas dos meus dedos são testemunhas de um risco imenso. Caso raro de talento e sorte, Mercedes Sosa é uma em um milhão. Hoje, eu comemoro aniversários e Dona Eliene dorme o sono dos justos. Aqui em casa, mulher e bichos, estamos todos bem.