Regra de três

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Publicada em 23/05/2019 às 22:30:00

 

* Inocêncio Nóbrega
Não é por intimidação de palavras impróprias que submeterá resignada, a população, quando houver descaminhos do governo. Ao contrário, nossa tradição é de lutas, embora desarmadas, como resposta. Por muito mais enfrentamos as botas dos generais, a um dos primeiros atos da ditadura, quando Castelo Branco insinuou o famigerado acordo MEC- USAID, na esteira de uma pretendida reformulação do ensino universitário. Na verdade, o que desejava era adaptar nosso ensino ao modelo norte-americano. O deputado Márcio Moreira Alves despontava no cenário político, como pertinaz voz de contestação.
O assunto volta à tona em gestões presidenciais posteriores. Ainda, no período discricionário, por semelhantes motivos artistas, intelectuais e jornalistas verberaram conta a Lei da Censura; nos anos de chumbo, os militares não conseguiram estancar manifestações populares e estudantis, época na qual o estudante Edson Luis é morto, defronte ao Calabouço. Cerca de 60 mil pessoas participaram de seu enterro. Depois, decreto proibindo matrícula, em quaisquer escolas públicas, aos considerados subversivos. As forças da repressão não conseguiram barrar a ânsia de liberdade do povo brasileiro, que se manifestava, sob diversas formas, em comícios e triunfais passeatas em favor das Diretas Já e pela Anistia.
O esquartejamento do MEC sempre foi uma questão de princípios de governança neo-liberais. Na época Collor, chegou-se sugerir a transferência das universidades para a Secretaria de Ciências e Tecnologia, admitindo inexistência de um ministério central para cuidar desse importante segmento, da vida nacional. Agora, propõe-se seu desmonte, mediante o corte linear de recursos federais.
Mais uma vez as ruas brasileiras, de norte a sul, são tomadas por protestos contrários à absurda ideia do sucateamento ministerial. Contra seus organizadores Bolsonaro cunhou descabidas expressões, taxando-os de "imbecis e idiotas", que seriam incapazes de equacionar uma Regra de Três simples. Acusam, ainda, nossas faculdades da prática de balburdia. Não estudaram que a criação do Colégio Pedro II, em 1837, acompanhou a concepção enciclopedista dos ideais da revolução francesa. Tampouco sabem de que a universidade no Brasil, no seu nascedouro, dispunha de uma grade curricular compatível com os anseios de soberania da jovem nação. 
Seguir uma tradição, em defesa dos legítimos conceitos, como senhores de suas próprias terras, emanados de nossos indígenas, a eles transmitidos pelo líderes Aimberê, Cunhabebe, Araraí e outros da histórica Campanha dos Tamoios, contra a prepotência lusa, é o que hora nos compete fazermos. Em suma, o que a população não assimila é a regra de interesses dos Três Poderes da República, hoje.
* Inocêncio Nóbrega é jornalista

* Inocêncio Nóbrega

Não é por intimidação de palavras impróprias que submeterá resignada, a população, quando houver descaminhos do governo. Ao contrário, nossa tradição é de lutas, embora desarmadas, como resposta. Por muito mais enfrentamos as botas dos generais, a um dos primeiros atos da ditadura, quando Castelo Branco insinuou o famigerado acordo MEC- USAID, na esteira de uma pretendida reformulação do ensino universitário. Na verdade, o que desejava era adaptar nosso ensino ao modelo norte-americano. O deputado Márcio Moreira Alves despontava no cenário político, como pertinaz voz de contestação.
O assunto volta à tona em gestões presidenciais posteriores. Ainda, no período discricionário, por semelhantes motivos artistas, intelectuais e jornalistas verberaram conta a Lei da Censura; nos anos de chumbo, os militares não conseguiram estancar manifestações populares e estudantis, época na qual o estudante Edson Luis é morto, defronte ao Calabouço. Cerca de 60 mil pessoas participaram de seu enterro. Depois, decreto proibindo matrícula, em quaisquer escolas públicas, aos considerados subversivos. As forças da repressão não conseguiram barrar a ânsia de liberdade do povo brasileiro, que se manifestava, sob diversas formas, em comícios e triunfais passeatas em favor das Diretas Já e pela Anistia.
O esquartejamento do MEC sempre foi uma questão de princípios de governança neo-liberais. Na época Collor, chegou-se sugerir a transferência das universidades para a Secretaria de Ciências e Tecnologia, admitindo inexistência de um ministério central para cuidar desse importante segmento, da vida nacional. Agora, propõe-se seu desmonte, mediante o corte linear de recursos federais.
Mais uma vez as ruas brasileiras, de norte a sul, são tomadas por protestos contrários à absurda ideia do sucateamento ministerial. Contra seus organizadores Bolsonaro cunhou descabidas expressões, taxando-os de "imbecis e idiotas", que seriam incapazes de equacionar uma Regra de Três simples. Acusam, ainda, nossas faculdades da prática de balburdia. Não estudaram que a criação do Colégio Pedro II, em 1837, acompanhou a concepção enciclopedista dos ideais da revolução francesa. Tampouco sabem de que a universidade no Brasil, no seu nascedouro, dispunha de uma grade curricular compatível com os anseios de soberania da jovem nação. 
Seguir uma tradição, em defesa dos legítimos conceitos, como senhores de suas próprias terras, emanados de nossos indígenas, a eles transmitidos pelo líderes Aimberê, Cunhabebe, Araraí e outros da histórica Campanha dos Tamoios, contra a prepotência lusa, é o que hora nos compete fazermos. Em suma, o que a população não assimila é a regra de interesses dos Três Poderes da República, hoje.

* Inocêncio Nóbrega é jornalista