A ferro e fogo

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A tirania ostenta modos de rainha
A tirania ostenta modos de rainha

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Publicada em 22/05/2019 às 09:40:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Daenerys Targaryen, 
nascida da tormen-
ta, não exigia nada de seus súditos, além de amor absoluto. Quem não quedasse sobre os joelhos virava churrasco, ardia em fogo vivo sob a vigilância de um dragão. Loucura ou método, tal estratégia de poder faz pensar se os fins justificam os meios. Não por acaso, a inquisição usou o mesmíssimo combustível para alimentar as fogueiras impiedosas da devoção cristã.
Consta nos livros de História: A tirania exibe sempre uma face bela a fim de seduzir os ingênuos,  ostenta modos de rainha. E nem é preciso ir muito longe, voltar tantas páginas no tempo, empurrar da cama as monarquias. Os caudilhos do terceiro mundo, por exemplo, ainda hoje abraçam os mais nobres propósitos, iluminados pelas mais altas aspirações. 
A cara de um, o focinho do outro. O chavismo se opõe ao olho grande do imperialismo ianque com a valentia obstinada de um Guevara chafurdando em petróleo. O bolsonarismo foi tomado por um remédio amargo, único unguento capaz de curar as feridas abertas pela hegemonia dos partidos de esquerda, em especial o PT. Tudo farinha do mesmo saco. Ao prometer quebrar a roda e as correntes, destruir as engrenagens do jogo dos tronos, Daenerys reivindica ascendência sobre o destino de todos os homens. Somente sob o seu arbítrio, um direito de sangue, os sete reinos poderiam prosperar e conhecer um longo período de justiça e paz. Isso, segundo o evangelho propagado a ferro e fogo pela mãe dos dragões.
Os últimos episódios da série Game of Thrones provocaram choradeira e ranger de dentes nas redes sociais. De fato, em termos de narrativa audiovisual, o produto da HBO deixa a desejar. Na última temporada, sobretudo, há problemas nítidos de ritmo e até de roteiro. Mas os pecados cometidos ao longo de quase uma década não chegam a ponto de conspurcar o seu principal argumento: Qualquer um que se enxergue muito grande e importante é digno de desconfiança. Mais das vezes, o todo poderoso não passa de uma criança com uma coroa de cartolina e um cetro de papelão.
Muito cuidado com os donos do mundo, portanto. Quem governa o destino de muitos carece de desconfiança, jamais de adoração. Vira e mexe, no entanto, alguém se apresenta como o salvador da Pátria em carne e osso. Tivesse meios, este não hesitaria um segundo antes de reduzir uma cidade a pó.

Daenerys Targaryen,  nascida da tormen- ta, não exigia nada de seus súditos, além de amor absoluto. Quem não quedasse sobre os joelhos virava churrasco, ardia em fogo vivo sob a vigilância de um dragão. Loucura ou método, tal estratégia de poder faz pensar se os fins justificam os meios. Não por acaso, a inquisição usou o mesmíssimo combustível para alimentar as fogueiras impiedosas da devoção cristã.
Consta nos livros de História: A tirania exibe sempre uma face bela a fim de seduzir os ingênuos,  ostenta modos de rainha. E nem é preciso ir muito longe, voltar tantas páginas no tempo, empurrar da cama as monarquias. Os caudilhos do terceiro mundo, por exemplo, ainda hoje abraçam os mais nobres propósitos, iluminados pelas mais altas aspirações. 
A cara de um, o focinho do outro. O chavismo se opõe ao olho grande do imperialismo ianque com a valentia obstinada de um Guevara chafurdando em petróleo. O bolsonarismo foi tomado por um remédio amargo, único unguento capaz de curar as feridas abertas pela hegemonia dos partidos de esquerda, em especial o PT. Tudo farinha do mesmo saco. Ao prometer quebrar a roda e as correntes, destruir as engrenagens do jogo dos tronos, Daenerys reivindica ascendência sobre o destino de todos os homens. Somente sob o seu arbítrio, um direito de sangue, os sete reinos poderiam prosperar e conhecer um longo período de justiça e paz. Isso, segundo o evangelho propagado a ferro e fogo pela mãe dos dragões.
Os últimos episódios da série Game of Thrones provocaram choradeira e ranger de dentes nas redes sociais. De fato, em termos de narrativa audiovisual, o produto da HBO deixa a desejar. Na última temporada, sobretudo, há problemas nítidos de ritmo e até de roteiro. Mas os pecados cometidos ao longo de quase uma década não chegam a ponto de conspurcar o seu principal argumento: Qualquer um que se enxergue muito grande e importante é digno de desconfiança. Mais das vezes, o todo poderoso não passa de uma criança com uma coroa de cartolina e um cetro de papelão.
Muito cuidado com os donos do mundo, portanto. Quem governa o destino de muitos carece de desconfiança, jamais de adoração. Vira e mexe, no entanto, alguém se apresenta como o salvador da Pátria em carne e osso. Tivesse meios, este não hesitaria um segundo antes de reduzir uma cidade a pó.