Política, Sociologia e Filosofia

Opinião

 

* Ivan Fontes Barbosa
Só podemos entender a crítica à sociologia e à filosofia dentro da configuração polarizada da política que foi ativada no Brasil desde 2013. O mito de um país racialmente miscigenado e pacífico sucumbiu diante da percepção de que o político é o local de disputa dos interesses das classes e dos projetos que serão apresentados à sociedade e, nessa dimensão, a luta por arregimentar correligionários foi se dando de forma tal que a estratégia eleitoral chegou ao ápice da brutalidade e do irracionalismo. Digo isso, pois, só a luta política desleal e estratégica que se aproveita do componente irracional explica o ataque às dimensões racionais das instituições e valores da sociedade moderna.  
No campo da experiência social contemporânea brasileira, os que estão no poder exploram o lado simplista e perverso da nossa consciência social ainda pouco instruída. Séculos de construção de uma sociedade para poucos deixou um legado nefasto para grande parte da população. Essa herança se manifesta, dentre tantas outras maneiras, na ausência de acesso, ou acesso precário, ao conhecimento escolar. O sintoma dessa relação de pouca intimidade com a ciência da sociedade em sua forma escolarizada é a irrefletida naturalidade com que traduzem o problema da violência urbana em termos de natureza individual e congênita (já nascem assim, a solução é o uso letal de snipers), com que percebem a questão da homoafetividade como doença e mal a ser combatido, como entendem o papel da mulher, como interpretam os negros e pobres brasileiros (tidos como preguiçosos) e como traduzem a pobreza em termos de atitude e não em termos de classes. É esse o perfil do imaginário de parte da população brasileira. É em função da manipulação deste que se tem alimentado as orientações das políticas públicas e que certos tipos de filosofia e sociologia passem a serem tidos como ameaças à sua missão anticivilizatória.
São esses dois campos do conhecimento que o atual governo indica iniciar a perseguição. As razões para tanto não podem ser encontradas na pouca contribuição (custo/benefício) destes ramos do saber para a sociedade brasileira, mas na natureza da relação que esses saberes provocam nas interações entre as pessoas. No caso específico da sociologia, uma ciência do mundo moderno, a principal premissa de sua abordagem é a percepção da dimensão histórica dos fenômenos sociais. Só é possível situar uma instituição social dentro de uma história que leva em consideração os fatores específicos que concorreram para que determinada relação social se consolide. A família patriarcal, por exemplo, só pode ser entendida dentro dessa lente. Não é possível aos olhos dessa ciência, que estuda as relações de poder e desigualdade, achar que ela é o único modelo legítimo de família e que não tenha um desenho perverso marcado pela relação de controle do homem sobre a mulher. O feminicídio, que assombra as mulheres brasileiras, tem sua natureza ocultada nesta instituição.
O que se quer mesmo é manter-se no poder a partir da exploração das dimensões irracionais e irrefletidas de eleitores cidadãos não blindados pelo poder do pensamento científico. É contra esse conjunto de soluções simples que se faz ciência. É para compreender a complexidade dos fenômenos que o conhecimento científico é produzido. Quando não usávamos ciência, oferecíamos soluções erradas para certos problemas. Só passamos a ter certeza da cura quando passamos a conhecer objetivamente as causas da enfermidade. A ciência é uma estratégia de diálogo com o objeto do conhecimento cujo sentido é a compreensão, a explicação e a tomada de atitude em relação aquilo que se conhece.
É a favor de um mundo que ainda hoje não reconhece plenamente a igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros, entre pobres e ricos, entre homossexual heterossexual que esses atores políticos instituídos lutam. Querem paralisar a história, limitando a capacidade da sociedade de promover uma reflexão sistemática sobre si mesma, para organizá-la à sua imagem e semelhança. Uma sociedade de homens, brancos e héteros, marcada pelas desigualdades. Não é de estranhar que a sociologia e a filosofia recepcionadas nas universidades brasileiras sejam alvos dessa estratégia, que escancaradamente potencializa e alimenta de forma refletida o preconceito, o bullying, a agressão, o ódio, a ignorância e produz consequências fúnebres para as famílias que têm que lidar com a dor de perder uma filha ou um filho simplesmente porque ela optou por não continuar casada com alguém ou ele escolheu ter uma relação com um rapaz. A sociologia é uma ciência fundamental para impedir o retorno à barbárie, só não percebe quem deseja o retorno desta.
* Ivan Fontes Barbosa, professor do Departamento de Ciências Sociais [DCS-UFS]

* Ivan Fontes Barbosa

Só podemos entender a crítica à sociologia e à filosofia dentro da configuração polarizada da política que foi ativada no Brasil desde 2013. O mito de um país racialmente miscigenado e pacífico sucumbiu diante da percepção de que o político é o local de disputa dos interesses das classes e dos projetos que serão apresentados à sociedade e, nessa dimensão, a luta por arregimentar correligionários foi se dando de forma tal que a estratégia eleitoral chegou ao ápice da brutalidade e do irracionalismo. Digo isso, pois, só a luta política desleal e estratégica que se aproveita do componente irracional explica o ataque às dimensões racionais das instituições e valores da sociedade moderna.  
No campo da experiência social contemporânea brasileira, os que estão no poder exploram o lado simplista e perverso da nossa consciência social ainda pouco instruída. Séculos de construção de uma sociedade para poucos deixou um legado nefasto para grande parte da população. Essa herança se manifesta, dentre tantas outras maneiras, na ausência de acesso, ou acesso precário, ao conhecimento escolar. O sintoma dessa relação de pouca intimidade com a ciência da sociedade em sua forma escolarizada é a irrefletida naturalidade com que traduzem o problema da violência urbana em termos de natureza individual e congênita (já nascem assim, a solução é o uso letal de snipers), com que percebem a questão da homoafetividade como doença e mal a ser combatido, como entendem o papel da mulher, como interpretam os negros e pobres brasileiros (tidos como preguiçosos) e como traduzem a pobreza em termos de atitude e não em termos de classes. É esse o perfil do imaginário de parte da população brasileira. É em função da manipulação deste que se tem alimentado as orientações das políticas públicas e que certos tipos de filosofia e sociologia passem a serem tidos como ameaças à sua missão anticivilizatória.
São esses dois campos do conhecimento que o atual governo indica iniciar a perseguição. As razões para tanto não podem ser encontradas na pouca contribuição (custo/benefício) destes ramos do saber para a sociedade brasileira, mas na natureza da relação que esses saberes provocam nas interações entre as pessoas. No caso específico da sociologia, uma ciência do mundo moderno, a principal premissa de sua abordagem é a percepção da dimensão histórica dos fenômenos sociais. Só é possível situar uma instituição social dentro de uma história que leva em consideração os fatores específicos que concorreram para que determinada relação social se consolide. A família patriarcal, por exemplo, só pode ser entendida dentro dessa lente. Não é possível aos olhos dessa ciência, que estuda as relações de poder e desigualdade, achar que ela é o único modelo legítimo de família e que não tenha um desenho perverso marcado pela relação de controle do homem sobre a mulher. O feminicídio, que assombra as mulheres brasileiras, tem sua natureza ocultada nesta instituição.
O que se quer mesmo é manter-se no poder a partir da exploração das dimensões irracionais e irrefletidas de eleitores cidadãos não blindados pelo poder do pensamento científico. É contra esse conjunto de soluções simples que se faz ciência. É para compreender a complexidade dos fenômenos que o conhecimento científico é produzido. Quando não usávamos ciência, oferecíamos soluções erradas para certos problemas. Só passamos a ter certeza da cura quando passamos a conhecer objetivamente as causas da enfermidade. A ciência é uma estratégia de diálogo com o objeto do conhecimento cujo sentido é a compreensão, a explicação e a tomada de atitude em relação aquilo que se conhece.
É a favor de um mundo que ainda hoje não reconhece plenamente a igualdade entre homens e mulheres, entre brancos e negros, entre pobres e ricos, entre homossexual heterossexual que esses atores políticos instituídos lutam. Querem paralisar a história, limitando a capacidade da sociedade de promover uma reflexão sistemática sobre si mesma, para organizá-la à sua imagem e semelhança. Uma sociedade de homens, brancos e héteros, marcada pelas desigualdades. Não é de estranhar que a sociologia e a filosofia recepcionadas nas universidades brasileiras sejam alvos dessa estratégia, que escancaradamente potencializa e alimenta de forma refletida o preconceito, o bullying, a agressão, o ódio, a ignorância e produz consequências fúnebres para as famílias que têm que lidar com a dor de perder uma filha ou um filho simplesmente porque ela optou por não continuar casada com alguém ou ele escolheu ter uma relação com um rapaz. A sociologia é uma ciência fundamental para impedir o retorno à barbárie, só não percebe quem deseja o retorno desta.

* Ivan Fontes Barbosa, professor do Departamento de Ciências Sociais [DCS-UFS]

 


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