Maria, Marias

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Publicada em 07/05/2019 às 23:31:00

 

*Rangel Alves da Costa
Toda Maria sertaneja simboliza a mulher na sua força, na sua pujança, na sua luta. Da Maria mãe do Senhor a Maria mãe de José, de Bastião, de Leocádio, de Zefinha, de Fabiano.
Mas Maria no prenome, apenas. Ou no primeiro nome da composta designação. Maria das Neves, Maria das Dores, Maria do Carmo, Maria da Anunciação, Maria do Sertão.
Este escrito, pois, é sobre uma Maria que é tantas Maria. E em todas a mesma Maria da luta, da fé, da Abnegação, do sonho, do sofrimento, da esperança. Maria de tudo.
E ainda, não é só uma história de Maria, pois uma história de mulher sertaneja. E como tal poderia ser uma história de Bastiana, de Zefinha, de Joana, de Conceição.
Maria olha para o alto e observa bem se apareceu alguma nuvem de chuva. Nada de plantação, apenas o cuidado de ir catar lenha seca e antes que caia qualquer pingo d'água.
Maria abre a porta do quintal e de cuia à mão vai de cantinho a cantinho. Há uma roseira, um pé de hortelã, um pé de cidreira, um pé de boldo. Preciso derramar água por riba.
Maria junta a roupa que tá suja, faz uma trouxa bem feita, coloca na cabeça e se bandeia para a beirada do riachinho. Aí ensaboa, bate a roupa, esfrega, estende pra secar.
Maria também lava no tanque do quintal, mas só quando alguma água sobra depois da serventia da casa. A não ser pra molhar planta, primeira cuidar no de beber e de comer.
Maria sempre canta enquanto lava, seja no quintal ou na beirada do riachinho. Mas só Maria para entender por que sempre escolhe velhas canções que sempre fazem chorar.
Maria gosta mesmo é de estender roupa no varal. Estende tudo e mais tarde coloca um tamborete por perto e fica só olhando a roupa seca querendo esvoaçar. E tanta recordação!
Maria não tem luxo algum. Também sua pobreza nunca permite luxo alguma. Mas ela já confessou que se tivesse milhões ainda assim nada de brilho ou de seda colocaria em si.
Maria não usa brinco, não usa batom, não usa roupa de grife, não usa sapato bom, não usa relógio ou pulseira, não usa brinco ou adorno. Maria só veste o pano que lhe recobre.
Maria possui por vício a fé, possui por bebida a sede, possui por fome a precisão. Mesmo necessitada demais e de tudo, sempre crê no amanhã como o dia de acontecer.
Maria reza, Maria ora, Maria passa o terço e o rosário entre as mãos. Não tem vela todo dia para acender, mas acende na mente e no silêncio da oração todas as velas do mundo.
Maria possui na parede um céu inteiro. Jesus Cristo, São Pedro, São José, Santo Antônio, São Francisco de Assim, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Lurdes.
Maria possui um outro céu na parede que é o céu sertanejo. Não só na parede como em cima de mesinhas. Aí o Padim Ciço Romão Batista e o Frei Damião, os dois santos matutos.
Maria tem fogão de lenha, de fogo no chão. Tem purrão pra guardar água de chuva, tem panela de barro, tem moringa e tem caneca de alumínio dependurada na cozinha.
Maria não escolhe comida, também não haveria de escolher. Na fome come o que tiver. Cata pedaço de pão, resto de preá assado, farinha seca, rapadura ou qualquer coisa.
Maria possui um jeito estranho de ser. Gosta de andar descalça, de falar com os bichos do mato, de sorrir para o vento, de brincar com passarinhos e borboletas. Numa felicidade só.
Maria talvez seja incompreendida. Talvez queiram que ela seja como as outras, mas ela é só Maria. Nada muda e ninguém muda o seu jeito de ser nem move sua palavra.
Maria não escolhe trabalho. Maria trabalha em tudo que lhe traga sustento, mas sempre com dignidade. Pega na enxada, no facão, enxadeco, no cabo da marreta, em tudo.
Maria deita cedo e acorda cedo. Antes de o galo cantar e ela já está em pé. Ajoelha-se perante o oratório, fala com os anjos e santos, conversa com os mistérios sagrados e se benze.
Maria nunca arredou o pé do seu chão em direção a qualquer cidade grande ou capital. E jura que prefere a morte a fechar a porta de sua casa em despedida ou viagem longa. É terra.
Maria tem os olhos fundos e profundos. Tem o rosto encovado dos magros. Tem as mãos calejadas da luta. Tem a sede da terra e a fome do bicho. Mas é a mais feliz do mundo.
Maria está aqui, está ali, está por todo lugar. Está como mulher vestida de sol e como mulher debaixo do sol. Maria mãe de Jesus, o Prometido, e Maria mãe de tantos Jesus, todos da terra mesmo.
Maria é assim. Eu a conheço. Sou sertanejo e vivo e convivo com muitas assim. Dasdores, Querência, Joaninha, Socorro, Esmeralda, Filó, Titoca...
*Rangel Alves da Costa, advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Toda Maria sertaneja simboliza a mulher na sua força, na sua pujança, na sua luta. Da Maria mãe do Senhor a Maria mãe de José, de Bastião, de Leocádio, de Zefinha, de Fabiano.
Mas Maria no prenome, apenas. Ou no primeiro nome da composta designação. Maria das Neves, Maria das Dores, Maria do Carmo, Maria da Anunciação, Maria do Sertão.
Este escrito, pois, é sobre uma Maria que é tantas Maria. E em todas a mesma Maria da luta, da fé, da Abnegação, do sonho, do sofrimento, da esperança. Maria de tudo.
E ainda, não é só uma história de Maria, pois uma história de mulher sertaneja. E como tal poderia ser uma história de Bastiana, de Zefinha, de Joana, de Conceição.
Maria olha para o alto e observa bem se apareceu alguma nuvem de chuva. Nada de plantação, apenas o cuidado de ir catar lenha seca e antes que caia qualquer pingo d'água.
Maria abre a porta do quintal e de cuia à mão vai de cantinho a cantinho. Há uma roseira, um pé de hortelã, um pé de cidreira, um pé de boldo. Preciso derramar água por riba.
Maria junta a roupa que tá suja, faz uma trouxa bem feita, coloca na cabeça e se bandeia para a beirada do riachinho. Aí ensaboa, bate a roupa, esfrega, estende pra secar.
Maria também lava no tanque do quintal, mas só quando alguma água sobra depois da serventia da casa. A não ser pra molhar planta, primeira cuidar no de beber e de comer.
Maria sempre canta enquanto lava, seja no quintal ou na beirada do riachinho. Mas só Maria para entender por que sempre escolhe velhas canções que sempre fazem chorar.
Maria gosta mesmo é de estender roupa no varal. Estende tudo e mais tarde coloca um tamborete por perto e fica só olhando a roupa seca querendo esvoaçar. E tanta recordação!
Maria não tem luxo algum. Também sua pobreza nunca permite luxo alguma. Mas ela já confessou que se tivesse milhões ainda assim nada de brilho ou de seda colocaria em si.
Maria não usa brinco, não usa batom, não usa roupa de grife, não usa sapato bom, não usa relógio ou pulseira, não usa brinco ou adorno. Maria só veste o pano que lhe recobre.
Maria possui por vício a fé, possui por bebida a sede, possui por fome a precisão. Mesmo necessitada demais e de tudo, sempre crê no amanhã como o dia de acontecer.
Maria reza, Maria ora, Maria passa o terço e o rosário entre as mãos. Não tem vela todo dia para acender, mas acende na mente e no silêncio da oração todas as velas do mundo.
Maria possui na parede um céu inteiro. Jesus Cristo, São Pedro, São José, Santo Antônio, São Francisco de Assim, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Lurdes.
Maria possui um outro céu na parede que é o céu sertanejo. Não só na parede como em cima de mesinhas. Aí o Padim Ciço Romão Batista e o Frei Damião, os dois santos matutos.
Maria tem fogão de lenha, de fogo no chão. Tem purrão pra guardar água de chuva, tem panela de barro, tem moringa e tem caneca de alumínio dependurada na cozinha.
Maria não escolhe comida, também não haveria de escolher. Na fome come o que tiver. Cata pedaço de pão, resto de preá assado, farinha seca, rapadura ou qualquer coisa.
Maria possui um jeito estranho de ser. Gosta de andar descalça, de falar com os bichos do mato, de sorrir para o vento, de brincar com passarinhos e borboletas. Numa felicidade só.
Maria talvez seja incompreendida. Talvez queiram que ela seja como as outras, mas ela é só Maria. Nada muda e ninguém muda o seu jeito de ser nem move sua palavra.
Maria não escolhe trabalho. Maria trabalha em tudo que lhe traga sustento, mas sempre com dignidade. Pega na enxada, no facão, enxadeco, no cabo da marreta, em tudo.
Maria deita cedo e acorda cedo. Antes de o galo cantar e ela já está em pé. Ajoelha-se perante o oratório, fala com os anjos e santos, conversa com os mistérios sagrados e se benze.
Maria nunca arredou o pé do seu chão em direção a qualquer cidade grande ou capital. E jura que prefere a morte a fechar a porta de sua casa em despedida ou viagem longa. É terra.
Maria tem os olhos fundos e profundos. Tem o rosto encovado dos magros. Tem as mãos calejadas da luta. Tem a sede da terra e a fome do bicho. Mas é a mais feliz do mundo.
Maria está aqui, está ali, está por todo lugar. Está como mulher vestida de sol e como mulher debaixo do sol. Maria mãe de Jesus, o Prometido, e Maria mãe de tantos Jesus, todos da terra mesmo.
Maria é assim. Eu a conheço. Sou sertanejo e vivo e convivo com muitas assim. Dasdores, Querência, Joaninha, Socorro, Esmeralda, Filó, Titoca...

*Rangel Alves da Costa, advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com