As catedrais em chamas

Geral


  • Um lamentável golpe de sorte

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Uma fantasia comum 
entre os jovens é a 
de ver arder as catedrais. Talvez Freud explique. De todo modo, o desejo demolidor de inaugurar um mundo novo, romper laços, negar a família, assassinar pai e mãe, acendeu as tochas que iluminaram a modernidade.
Só depois de velho, convencido pela calvície e os primeiros fios de cabelos brancos, o sujeito finalmente se dá conta das maravilhas da pedra. De repente, de uma hora pra outra, apesar de todos os absurdos encobertos pelo manto encardido das religiões, a perspectiva muda. É preciso preservar documentos, valorizar a experiência, prevenir a ruína, lutar contra o tempo, contar a história.
Somente quem já dobrou o cabo da boa esperança, quem está mais pra lá do que pra cá, tem lágrimas verdadeiras a derramar por Notre Dame. De certo modo, as labaredas da tragédia transformaram a Cultura de tantos séculos em cinzas. E consumiram, assim, na forma de alvenaria, a única ilusão admissível de eternidade.
As torres góticas da catedral não fazem falta. Os vitrais coloridos partidos pelo calor, também não. As badaladas pontuais de outros sinos apressam os cristãos atrasados para a missa em outras igrejas. Mas se uma obra tão grandiosa, erguida com tamanho engenho e arte, pode ser varrida da face da terra em um lamentável golpe de sorte,  o que dizer das pobres criaturas humanas, seres de pouca fé, homens e mulheres, os pecadores de carne e osso?
No fim das contas, a obra monumental de Johan Sebastian Bach não passa de uma sofisticada pintura rupestre. Shakespeare, Picasso, Baryshnikov, Gaudí... No mistério insolúvel das pirâmides, adivinha-se a pretensão profundamente mundana de conceber com duas mãos a própria divindade.

Uma fantasia comum  entre os jovens é a  de ver arder as catedrais. Talvez Freud explique. De todo modo, o desejo demolidor de inaugurar um mundo novo, romper laços, negar a família, assassinar pai e mãe, acendeu as tochas que iluminaram a modernidade.
Só depois de velho, convencido pela calvície e os primeiros fios de cabelos brancos, o sujeito finalmente se dá conta das maravilhas da pedra. De repente, de uma hora pra outra, apesar de todos os absurdos encobertos pelo manto encardido das religiões, a perspectiva muda. É preciso preservar documentos, valorizar a experiência, prevenir a ruína, lutar contra o tempo, contar a história.
Somente quem já dobrou o cabo da boa esperança, quem está mais pra lá do que pra cá, tem lágrimas verdadeiras a derramar por Notre Dame. De certo modo, as labaredas da tragédia transformaram a Cultura de tantos séculos em cinzas. E consumiram, assim, na forma de alvenaria, a única ilusão admissível de eternidade.
As torres góticas da catedral não fazem falta. Os vitrais coloridos partidos pelo calor, também não. As badaladas pontuais de outros sinos apressam os cristãos atrasados para a missa em outras igrejas. Mas se uma obra tão grandiosa, erguida com tamanho engenho e arte, pode ser varrida da face da terra em um lamentável golpe de sorte,  o que dizer das pobres criaturas humanas, seres de pouca fé, homens e mulheres, os pecadores de carne e osso?
No fim das contas, a obra monumental de Johan Sebastian Bach não passa de uma sofisticada pintura rupestre. Shakespeare, Picasso, Baryshnikov, Gaudí... No mistério insolúvel das pirâmides, adivinha-se a pretensão profundamente mundana de conceber com duas mãos a própria divindade.

 


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